Entrevista SBTpedia: Ulisses Rocha


Renomado repórter e apresentador policial e dono uma extensa carreira jornalística distribuída por várias emissoras do Brasil. Esse é Ulisses Rocha, que, depois de uma rápida passagem pela emissora na época do Jornal da Massa, do Ratinho, em 2007, retornou ao SBT no ano passado, na equipe do jornalístico policial Boletim de Ocorrências e, desde o início deste ano realiza matérias para o SBT Repórter e os telejornais da casa. Na entrevista concedida com exclusividade ao SBTpedia, Ulisses conta detalhes sobre a carreira, a vida de repórter policial e revela que já participou de um concurso de calouros do SBT na década de 80. Veja na íntegra:

SBTpedia: Ulisses, você já trabalhou em diversos jornais como São Paulo no Ar, Fala Brasil, Cidade Alerta, Balanço Geral e Boletim de Ocorrências, sempre transitando entre repórter e apresentador. Você prefere o perfil de âncora ou repórter investigativo?

Ulisses Rocha: Qualquer profissional tem de cumprir certas etapas, até chegar a um ponto da carreira em que possa dar mais de si, ao público que o acompanha. O desafio é sempre maior no estúdio. O âncora que trabalha num programa em que tenha de improvisar durante todo o tempo, precisa, além de tudo, se preparar diariamente para entrar no ar, e gosto disso.

Ulisses Rocha no comando do Balanço Geral, na Record

SBTpedia: Você já cobriu diversas matérias perseguindo ladrões. Até que o ponto um repórter pode arriscar a sua vida para uma reportagem policial? Vale a pena o retorno?

Ulisses Rocha: Acho que ninguém deve arriscar a vida para fazer uma reportagem policial e nem outro tipo de cobertura. O jornalismo não precisa disso e nem o telespectador. No entanto, há situações inesperadas, em que os fatos acontecem e pegam todos de surpresa. Nesse caso, é preciso se manter calmo e cobrir os fatos com isenção e neutralidade.

SBTpedia: Tem alguma situação de risco pela qual você passou que foi mais marcante? Já pensou em trocar de carreira por conta disso?

Ulisses Rocha: O maior risco foi a reportagem que fiz na floresta colombiana, em 2005, quando entrevistei o comandante das Farc, Raul Reyes. Eu estava acompanhado do cinegrafista Cláudio Brito, que hoje trabalha com o Richard Rasmussen. O exército daquele país atacou, com aviões e bombas, uma base muito próxima de onde estávamos. Tive medo de morrer. Acho que o Cláudio Brito também. Por isso, tivemos de sair rapidamente do país e interromper a reportagem. Mas fizemos a entrevista. Depois de algum tempo, num outro ataque, mataram Raul Reyes. Apesar dos eventuais riscos, jamais pensei em mudar de profissão. Sou jornalista por convicção e acredito no que faço.

SBTpedia: Você voltou a São Paulo e começou a carreira como office-boy. Como foi isso? De que forma entrou para o Jornalismo?

Ulisses Rocha: Antes de ser jornalista, trabalhei alguns anos em turismo. Depois de Office-boy, fui guia local, nacional e internacional. Embora tenha assumido alguns cargos interessantes, comecei a estudar comunicação social, nos anos 80. Quando terminei a faculdade, larguei a carreira e comecei como estagiário no Sistema Globo de Rádio. Em pouco tempo fui contratado e estou até hoje na profissão.

SBTpedia: Você é professor universitário. Durante suas aulas, você tenta passar suas experiências nas reportagens para seus alunos?

Ulisses Rocha: Faço isso o tempo inteiro. Aliás, o meu único objetivo ao dar aulas é esse. As experiências são sempre individuais, mas ao passá-las adiante, acredito que servirão de reflexão e motivação para os alunos.

SBTpedia: As afiliadas investem muito no chamado mundo-cão no jornalismo. Por que os telespectadores sentem-se tão atraídos por notícias que apelam para o sensacionalismo?

Ulisses Rocha: Não tenho propriedade para analisar as preferências das pessoas. O que posso dizer é que não gosto de coberturas sensacionalistas e sempre tentei me manter à parte disso. Quem conhece o meu trabalho sabe. Mas nem sempre consegui, confesso. A profissão nos leva a fazer todos os tipos de coberturas. Sou um repórter como qualquer outro. A gente não escolhe o assunto. A matéria do dia pode ser de polícia, de economia, saúde ou um acidente. E o repórter cobre de tudo. Sou assim. Durante um tempo da minha vida cobri polícia porque era o meu emprego. Farei de novo, se for preciso. Mas isso está muito longe da minha preferência pessoal, que são as reportagens de comportamento.

SBTpedia: Você concorda que muitas vezes o povo é alvo da “espetacularização” na TV?

Ulisses Rocha: Isso ainda acontece, mas com freqüência cada vez menor. A sociedade está adquirindo consciência dos seus direitos. Alguns veículos de comunicação, que chegaram a perder os parâmetros de respeito às individualidades, tem de acompanhar isso. Quem não se adaptar às exigências da sociedade estará perdendo o trem da história e vai fracassar, mais cedo ou mais tarde.

SBTpedia: Nas últimas semanas, o tablóide britânico News of the Work, se viu envolvido num escândalo, de repercussão internacional, que culminou no seu fechamento, tudo porque buscavam exclusivas utilizando-se de grampos e escutas telefônicas. Como você vê a questão da ética no jornalismo, na atualidade, no tocante às fontes jornalísticas?

Ulisses Rocha: Não posso particularizar a questão ética como um vício ou virtude no jornalismo. A ética deve ser do cidadão, como dizia Cláudio Abramo. O indivíduo precisa ter ética com a família, com os amigos, colegas, clientes e na sua profissão. Se não for assim, terá o seu comportamento questionável. Você respeita alguém que não seja ético em qualquer um desses segmentos?

SBTpedia: Ainda falando sobre o mundo-cão, para os formandos em Jornalismo, você acha que é a melhor forma de conseguir emprego na área? Qual deve ser o perfil de um repórter policial?

Ulisses Rocha: Não conheço ninguém que tenha entrado numa redação, nos dias atuais, e conseguido emprego como repórter logo de cara. É um processo. Etapas que se seguem até o dia em que surge a oportunidade de ir para a rua. Quando isso acontece, o profissional deve estar preparado e fazer bem feito.

Ulisses Rocha no comando de telejornais de diversas emissoras

SBTpedia: Você já passou por várias emissoras de TV, como CNT e Record. Atualmente você está no SBT. Quais são as principais diferenças encontradas em cada uma?

Ulisses Rocha: Cada emissora tem a sua peculiaridade. Já trabalhei também na TV Bandeirantes, na RedeTV e na extinta TV Manchete. Para mim, cada uma delas foi importante num determinado momento da minha carreira. O SBT tem um diferencial. O clima organizacional é extraordinário. Ninguém quer sair do SBT. Nem eu.

SBT Repórter sobre a tragédia das chuvas, com Gilberto Smaniotto e Ulisses Rocha

SBTpedia: Sua matéria de estreia no SBT Repórter foi sobre a tragédia nas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro. Como o jornalista consegue lidar psicologicamente com coberturas tão tristes?

Ulisses Rocha: Quando o repórter é enviado para uma cobertura é porque ele vai realizar o trabalho. A tristeza a gente deixa para a hora que desliga a câmera. Posso te garantir que já desabei emocionalmente, algumas vezes, em casos como este, mas a reportagem foi feita.

Trecho final do SBT Repórter sobre depressão, com Ulisses Rocha e Rodolpho Gamberini

SBTpedia: Atualmente, tanto no SBT Repórter como no SBT Brasil, suas reportagens estão se pautando por temas mais leves, que variam do esporte ao comportamento. Esse tipo de abordagem é uma novidade na sua carreira?

Ulisses Rocha: De jeito nenhum. Sempre fiz esse tipo de cobertura. O que acontece é que num determinado momento da minha carreira trabalhei como repórter policial. E essa área marca muito o profissional. Chega até a criar um estigma, difícil de se livrar dele depois de algum tempo. No meu caso, acho que o estigma está indo embora, se é que já não foi. Mas confesso que não foi simples mostrar que havia feito outras coisas antes.

SBTpedia: O que você achava do Aqui Agora? Qual contribuição você acha que o programa deu ao jornalismo em geral?

Ulisses Rocha: O Aqui Agora foi um divisor de águas no telejornalismo brasileiro. Ele trouxe a linguagem do plano-sequência aos telejornais diários, embora fosse usado nos programas semanais pelo Goulart de Andrade, desde os anos 70. No início houve rejeição generalizada nas redações. Hoje, todos os veículos buscam essa linguagem, que não é tão simples de fazer, mas que coloca o repórter muito mais próximo do telespectador.

SBTpedia: Você tem algum projeto futuro no SBT? Acha que a emissora deveria voltar com um novo jornal policial?

Ulisses Rocha: As emissoras, em geral, devem buscar a inovação. Fazer o que já existe pode criar divisão ou queda de audiência e não vai agregar valor a sua programação. Se houver diferencial, criatividade, mostrando o que o público quer, pode ser em qualquer editoria, inclusive polícia, que vai ter sucesso. Acho que essa fórmula vale para qualquer emissora.

SBTpedia: Estamos nos aproximando dos 30 anos do SBT. Você se lembra qual foi seu primeiro contato como telespectador da emissora?

Ulisses Rocha: Em 1984, participei do programa Novos Talentos, como locutor noticiarista. Era, então, a antiga TVS. Apresentei-me com o nome de Ulisses Junior. Tive duas notas 4 e duas 5. Perdi por um ponto. Mas valeu a experiência. 27 anos depois, estou aqui.

A entrevista foi realizada e produzida por José Eustáquio Júnior (@juniorpitangui) e Pedro Nascimento (@pedromnasciment). Nossos agradecimentos ao repórter pela entrevista concedida.

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