Entrevista SBTpedia: Henrique Zambelli

Falou em remake no SBT, falou em Henrique Zambelli. Pode parecer exagero, mas boa parte dos remakes que o SBT realizou em sua história, a partir de 1998, tiveram a presença de Zambelli, seja traduzindo, adaptando ou roteirizando. Os trabalhos dentro do SBT foram os mais variados. Passam desde o Teleteatro, chegando a novelas como Pérola Negra, Pícara Sonhadora, Canavial de Paixões e Cristal, até mesmo ao seriado Nino e Nuno, dentro do Charme, de Adriane Galisteu e, para completar, ainda assinou a direção do humorístico Sem Controle, em 2007, onde Vivi Fernandez e um time de beldades faziam a alegria dos marmanjos. Ufa! Tanta história só poderia resultar em uma bela entrevista. Confira na íntegra o que Henrique Zambelli tem a nos dizer:

SBTpedia: Com formação em Rádio e TV, como surgiu a paixão por adaptações e traduções de novelas e seriados?
Henrique Zambelli: Desde criança, gostava das novelas do SBT, tanto das dubladas, tais como Os Ricos Também Choram, Desprezo, Cristina Bazan, Ambição (Cuna de Lobos), como das adaptadas no Brasil, como A Leoa, A Justiça de Deus, Razão de viver (1983), Anjo Maldito. Nunca tive preconceito com relação a este tipo de histórias e de produção. Quando me convidaram pra traduzir e adaptar a novela argentina Pérola Negra, meu primeiro trabalho na TV, fiquei muito feliz com o convite e, embora também escreva, acabei, por acaso, me especializando nesse tipo de trabalho.


Nos bastidores de Marisol, com Bárbara Paz, a protagonista da trama

SBTpedia: Em 1998, você fez parte da equipe de roteiristas do Teleteatro, solução encontrada para abrigar atores após a desistência em produzir novelas nacionais pelo SBT. Como era o clima dentro da emissora com essa situação? Você se lembra de algum episódio interessante do Teleteatro que você foi roteirista?
Henrique Zambelli: Eu adaptei 20 episódios de uma segunda temporada do Teleteatro que infelizmente não chegaram a ser gravados. Lembro-me que os textos originais da Marissa Garrido, que me foram entregues, eram absolutamente sem pé, nem cabeça, e muitas histórias foram totalmente recriadas por mim e pelo Crayton Sarzy. De alguns scripts, não dava para se aproveitar nem a tradução, só os nomes dos personagens e olhe lá... Para mim, foi uma valiosa experiência como autor, pois escrevi roteiros com enredos dos mais variados estilos, de dramas a comédias, passando por suspenses e romances.

Glauce Graieb, como Amparo de "Marisol", com Henrique Zambelli

SBTpedia: No ano de 2001, o SBT iniciou a safra de remakes mexicanos com “Pícara Sonhadora”, história bem sucedida que contava a história de uma jovem ingênua que vivia em uma loja de brinquedos. A que você atribui o sucesso imediato de um enredo tão simples e por que manteve o título um tanto esdrúxulo?
Henrique Zambelli: Acredito que a causa do sucesso dessa novela, assim como da maioria das novelas latinas adaptadas, é a grande semelhança que elas possuem com contos de fadas. Não é à toa que volta e meia, sempre relançam alguma variante ou adaptação de Cinderela... Uma boa parcela do grande público, principalmente crianças e idosos, identifica-se demais com histórias menos comprometidas com a realidade. O título da versão brasileira de Pícara Sonhadora seria “A Pequena Sonhadora”. Lembro que foi até composto um tema para a novela com esse nome. Mas Sílvio Santos, com sua visão de marketing, preferiu lançar a novela com o título original da Televisa e veiculou em toda programação teasers insinuantes com as frases “Você vai conhecer a Pícara”, “Quem será a Pícara?”. Com certeza, só esse título, aparentemente estranho, chamou a atenção do telespectador na época.

Também com Bárbara Paz, agora em Maria Esperança (2007)

SBTpedia: Algumas novelas que você adaptou chegaram a passar na versão original aqui no Brasil como Canavial de Paixões, exibida pelo canal CNT, Esmeralda e Maria Mercedes, na versão tupiniquim chamada de Maria Esperança. Como era feito o processo de adaptação nessas tramas onde o público já conhecia a história?
Henrique Zambelli: A ordem da direção era ser fiel ao original, independentemente da história já ser conhecida por uma parcela do público. E eu não adaptei Maria Esperança, só traduzi o original de Maria Mercedes.

Zambelli ao lado do ator Rodrigo Lombardi, em sua participação em "Marisol"

SBTpedia: De 1998 a 2007, todas as novelas que você dirigiu no SBT eram adaptações mexicanas. Nesse período, não teve nenhuma iniciativa para fazer uma novela com texto original?
Henrique Zambelli: É bom esclarecer que nunca dirigi novelas, só traduzi e adaptei textos. E nessa época, não havia projetos de novelas genuinamente nacionais, pois as mexicanas davam bons índices de audiência.

Com Suzy Rêgo, a Regina Villa Real de Amor e Ódio (2001), no SBT

SBTpedia: A equipe das novelas do SBT, por se tratarem de melodramas mexicanos, tinha certa dificuldade na hora da escalação do elenco, salvo algumas exceções. Você acha que se tratava de preconceito dos atores?
Henrique Zambelli: Sim, muitos atores são preconceituosos com relação às novelas mexicanas. Sem citar nomes, certa vez, um ator, que foi grande astro da Globo nos anos 70 e depois caiu no ostracismo, me afirmou que preferia continuar desempregado a fazer novela mexicana. Até alguns atores escalados e contratados para novelas do SBT também demonstravam nos bastidores certo pé atrás com esse trabalho.

SBTpedia: Além de novelas, você adaptou, entre 2004/2005, o seriado argentino Nino e Nuno, que foi exibido no programa Charme, de Adriane Galisteu, no SBT. No elenco, a própria Galisteu e Eduardo Martini nos papéis principais. Como foi fazer adaptação de humor para a realidade brasileira e trabalhar sob a direção de Nilton Travesso, que à época cuidava da atração?
Henrique Zambelli: Foi um dos meus melhores trabalhos no SBT porque tive absoluta liberdade para criar em cima dos textos argentinos. Como o humor deles é muito parecido com o nosso, não tive nenhuma dificuldade nas adaptações e me divertia bastante fazendo. Sem contar que as atuações da Galisteu e do Martini eram impagáveis. Nilton Travesso é um verdadeiro gentleman, um cara educadíssimo, gentil e um dos melhores diretores com que tive oportunidade de trabalhar.

Bianca Castanho como Cristina de "Cristal", ao lado de Henrique Zambelli

SBTpedia: Na novela “Cristal”, apesar de toda carga dramática, houve uma tentativa de deixar a novela com a cara mais brasileira, com maior investimento em câmaras de alta definição, figurino e iluminação. A equipe tinha carta branca da Televisa pra fazer o que quisesse com o texto?
Henrique Zambelli: Sim, na época, o diretor Herval Rossano obteve esse privilégio do Sílvio Santos. Como a audiência da novela não atingiu os ideais esperados, a saudosa Therezinha Di Giacomo e eu fomos chamados às pressas para voltarmos ao texto original da Venezuela. E foi quando a audiência da novela curiosamente subiu.

As polêmicas garotas de lingerie do Sem Controle (Bruna Ferraz, Danielle França, Bruna Ferro e Ariane Gusmão)

SBTpedia: O SBT, após alguns anos longe de novos programas humor, investiu no sitcom Sem Controle, como um das grandes novidades de 2007. Apesar de conquistar boa audiência, o seriado era acusado de ter quadros muito erotizados e saiu do ar. Você, como diretor da atração, acredita que a predominância do politicamente correto vem prejudicando o humor no Brasil?
Henrique Zambelli: Primeiramente o Sem Controle era apresentado após as 23h30, um horário adequado para a atração. Muitas piadas não tinham nada de agressivo ou erótico e não continham palavrões no texto. Inclusive, volta e meia, revejo algumas delas sendo recontadas no Zorra Total e outros humorísticos. A tal erotização da qual reclamaram devia-se às modelos e atrizes que apareciam de lingerie em alguns quadros – algo que hoje em dia que não fica nada a dever, por exemplo, às panicats do Pânico na TV, que passa bem mais cedo. E acredito o contrário: o politicamente correto está pouco a pouco mais distante do humor no Brasil. Alguns “humoristas” andam sem limites, falando o que querem, de quem bem querem, sem se importarem se estão ofendendo as pessoas e suas famílias e não atingem o objetivo maior do humorismo que é fazer rir.

SBTpedia: A novela ”Amigas e Rivais” amargou baixos índices de audiência em 2007 e encerrou a safra de adaptações, dando o lugar para uma novela brasileira produzida por Íris Abravanel. Depois de anos, o SBT parecia estar disposto a investir em novelas brasileiras, contratando novos profissionais e se afastando do rótulo de novelas “mexicanizadas”. As tentativas não foram bem sucedidas e agora a emissora aposta no remake de “Carrossel”. Você acha que o público do SBT prefere novelas mexicanas?
Henrique Zambelli: Não é uma questão de opinião, mas basta observar os números. Se uma novela mexicana reprisada à tarde, muitas vezes, chega a dar mais audiência que uma inédita totalmente brasileira, é sinal de que o público do SBT ainda gosta dessas produções. Se Carrossel for adaptada fiel ao original mexicano, sem grandes “alterações”, será um enorme sucesso.

Dani Calabresa como Pedrina no Sem Controle, seriado dirigido por Zambelli no SBT

SBTpedia: A atriz e comediante Dani Calabresa estreou na TV, através do Sem Controle. Hoje, na MTV, devido ao grande sucesso, está sendo assediada para integrar o novo elenco do Casseta e Planeta, na Globo. Você acha que o humor para jovens no Brasil está bem representado?
Henrique Zambelli: Atualmente a moda é querer ser engraçado. Falar uma porção de bobagens e fazer shows de stand up para tentar ganhar dinheiro fácil em espetáculos de teatro, sem produção. Alguns conseguem ter graça, mas muitos estão bem longe disso. O twitter, na minha opinião, é um grande manancial de talentos de humor.

SBTpedia: Recentemente, você estreou a peça “A Segunda Dama”, que tem no elenco Danielle França, assistente de palco do QST e Vivi Fernandez, atriz de A Praça é Nossa e do Programa Silvio Santos. Como é a participação de cada uma e como avalia o sucesso da peça?
Henrique Zambelli: Ambas são ótimas atrizes. Além de bonitas, são grandes intérpretes e merecem mais destaque na TV do que o que elas já tem. Porém atualmente elas não integram mais o elenco da peça. Vivi e Danielle foram substituídas respectivamente por Sabrina Petrarca, que também apresenta o programa Grande Chance, da TV Gazeta, e Sarita Papalardo, uma bela comediante que também lancei no Sem Controle.

SBTpedia: Quais são as melhores lembranças que você guarda da época que trabalhava no SBT e qual novela você mais gostou em especial?
Henrique Zambelli: Sem dúvida, a melhor lembrança que tenho do SBT chama-se Silvio Santos, o grande gênio da televisão brasileira, que confiou muito no meu trabalho. E das novelas, a que mais gostei foi Pérola Negra, uma história com poucos personagens, poucos cenários, mas que rendeu os 200 capítulos originais, sem cansar o público, com um elenco extraordinário.

A entrevista foi realizada e produzida por José Eustáquio Júnior (@juniorpitangui) e Pedro Nascimento (@pedromnasciment). Nossos agradecimentos ao roteirista e diretor Henrique Zambelli (@hzambelli) pela entrevista concedida.

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