Entrevista SBTpedia: Roberto Cabrini

Impossível, hoje, na TV brasileira tocar em jornalismo sem falar em Roberto Cabrini. Mais impossível ainda falar em jornalismo investigativo sem vincular logo de cara com o nome de Cabrini. Detentor de todos os principais prêmios de jornalismo nacional (o último dele, o Prêmio Esso, em 2010, com o Conexão Repórter), ele vai sempre além do que normalmente se vai. Busca a visão diferenciada de tudo que é notícia e não por menos é considerado uma referência em sua profissão. Com 3 passagens pelo SBT (1988-1992; 1995-1997 e agora desde 2009), Roberto Cabrini marcou época com o que se viu de mais ousado no jornalismo na TV brasileira. Vai desde encarar de frente um ex-presidente e perguntá-lo de tudo desde drogas até se ele se considerava corrupto, até escancarar em rede nacional a questão de pedofilia na Igreja Católica, com direito a repercussão até no Vaticano. É dele também matérias como a do Afeganistão e do Iraque, na década de 90, pelo SBT Repórter, que se tornaram referências internacionais. Coube a ele, ainda, o momento triste - porém célebre - de comunicar a todo o Brasil o falecimento do piloto Ayrton Senna. Chegamos ao ponto final: o SBTpedia leva ao ar, nesse momento, uma entrevista não com um jornalista que faz história e sim, com um jornalista que, além disso, tem a capacidade de interferir nos rumos dessa história. Confira na íntegra:

SBTpedia: Como você consegue conciliar família e trabalho, sendo que sua profissão consome seu tempo quase que por inteiro?
Roberto Cabrini: Realmente vivo jornalismo 24 horas, mas jornalismo é algo que a família toda aprecia, minha mulher e meus filhos amam e respiram jornalismo. Eles participam sugerindo,opinando,estimulando. Essa retaguarda que sempre recebi em casa é parte fundamental do sucesso de minha carreira jornalística. E se tornou um elo forte em cada um de nós.


Reportagem sobre a pedofilia na Igreja Católica rendeu repercussão mundial e o Prêmio Esso ao Conexão Repórter, de Roberto Cabrini, no SBT

SBTpedia: Cabrini, o seu programa o Conexão Repórter ganhou em 2010 o Prêmio Esso de Telejornalismo, um dos prêmios mais importantes do jornalismo no Brasil. Você tem alguma coisa a falar sobre esse acontecimento na sua vida profissional?
Roberto Cabrini: Já tinha conquistado todos os outros prêmios importantes do jornalismo como APCA, Líbero Badaró, Vladmir Herzog, Tim Lopes e Imprensa. Faltava, porém o mais importante de todos eles: O Esso, um sonho desde que comecei no jornalismo aos 16 anos de idade. Ganhar o Prêmio Esso de telejornalismo com apenas um ano de Conexão Repórter foi algo muito acima de tudo que podia imaginar. Um feito que consolida o programa e mostra toda sua importância social trilhando o caminho que mais valorizo em minha carreira: O da qualidade. Prêmios são importantes, porém muito mais significativo é constatar que o Conexão Repórter cumpre hoje na prática um papel destacado na luta pelos direitos humanos do cidadão comum no Brasil. Quando ajudamos a promover justiça através da conscientização sinto na alma que essa luta toda vale a pena.Percebo que estou sendo fiel ao que me propus quando dei meus primeiros passos no jornalismo que é fazer dessa profissão um exercício incansável de dar voz aos injustiçados, aos excluídos do sistema.

SBTpedia: O Conexão Repórter hoje é respeitado pela crítica e atual vencedor do Prêmio Esso de Telejornalismo com uma matéria que repercutiu em todo o mundo. Isso gera uma responsabilidade a mais para a equipe?
Roberto Cabrini: Todos os dias recebemos centenas de denúncias e informações de pessoas desiludidas com alguns dos setores que deveriam cuidar da sociedade. É sinal de reconhecimento, mas também gera enorme responsabilidade. Temos uma função social a cumprir. Sozinhos não promovemos as mudanças que tantos sonham, mas damos nossa contribuição. Não tenho qualquer dúvida de que a informação é a arma mais poderosa que o ser humano pode dispor. Nossa meta é gerar discussões e reflexões por meio de reportagens... Só assim a sociedade como um todo pode crescer e escolher caminhos que a levem a sua própria evolução. E essa evolução só ocorre dando voz a quem não tem vez. É tudo que nos inspira em nosso trabalho que encaro como verdadeiro sacerdócio.

SBTpedia: Cabrini, seu nome sempre é sondado para assumir programas policias em diversas emissoras. Poderia nos explicar ou dizer por qual motivo não aceita tais convites?
Roberto Cabrini: Respeito o jornalismo policial, mas prefiro o jornalismo investigativo. Alguns fazem confusão ao definir os dois. O jornalismo policial é aquele que cobre as ações e operações da polícia e tem é claro seu espaço e seu valor, mas é radicalmente diferente do que busco com minha equipe. Todos os dias saímos as ruas pelo Brasil e pelo mundo em busca de nossas próprias investigações. Algo que ocorre paralelo e é totalmente independente da atividade policial. A sociedade precisa de apurações não atreladas aos órgãos oficiais, pois só assim ampliaremos a democratização do país. Muitos de nossos trabalhos fornecem dados para a polícia e para o ministério público. Outras vezes são setores policiais e de outros órgãos o foco de nossas investigações. Portanto nós respeitamos o trabalho desses servidores públicos, mas não podemos ficar atrelados a eles. Sabemos que o jornalismo investigativo requer ousadia e também responsabilidade e só pode ser exercido com total respeito às leis... Muitas vezes nosso trabalho só pode ser realizado com a retaguarda de promotores públicos idealistas e isso tem sido realizado com enorme sucesso como, por exemplo, no caso em que desvendamos um grande esquema de venda de crianças no norte do país. A reportagem demandou que nos infiltrássemos nesse universo e isso é claro só pode ser feito dando conhecimento ao Ministério Público. O resultado foi uma reportagem de enorme alcance e importância social.


Conexão Repórter, de Roberto Cabrini, mostra ex-integrante do grupo Raça Negra morando nas ruas

SBTpedia: O seu programa atualmente vem pegando 3, 4 pontos de audiência na grande São Paulo, mas em questão de minutos esses números quase que dobram. Você acha que já tem um público fiel consolidado?
Roberto Cabrini: Não tenho dúvida. É muito gratificante perceber que em uma emissora de enorme apelo popular jamais abaixamos a audiência com que recebemos e na maioria das vezes entregamos com audiência significantemente maior. E sem abrir mão de qualidade, sem praticar jornalismo de oportunismo. É claro que intercalamos assuntos densos com outros mais populares e chamativos para equilibrar nossas necessidades de audiência. Estou muito feliz com a retaguarda que recebo no SBT nessa busca por jornalismo que faça diferença na vida das pessoas. E a tendência é só avançarmos em todos os sentidos.

Roberto Cabrini fala sobre morte de Ayrton Senna no programa Eliana (maio de 2011)

SBTpedia: Você começou muito jovem na carreira de jornalista. Sofreu algum tipo de preconceito por causa disso?
Roberto Cabrini: Comecei aos 16 anos em uma emissora de rádio e em um jornal de minha cidade natal (Piracicaba) e aos 17 anos já era repórter da Rede Globo de televisão. Até hoje sou o repórter de rede mais jovem da história da emissora onde trabalhei por 13 anos em 3 diferentes etapas.. Minha pouca idade me possibilitava fazer perguntas que outros tinham medo de fazer e se tornou uma marca. A ousadia sempre fez parte de minha personalidade e chamou a atenção dos diretores da Globo na época. Nas primeiras semanas era visto como menino prodígio que falava e escrevia bem, mas essa curiosidade logo passou e vi que seria cobrado como qualquer outro profissional já tarimbado. Essa situação me colocou muita pressão, sacrificou parte de minha adolescência, me forçou a um rápido amadurecimento, mas com certeza valeu a pena. Sempre foi claro para mim que minha vida era o jornalismo. Aos 21 anos cobri minha primeira Copa do Mundo (82 na Espanha), aos 22 me tornei correspondente da Globo em Nova Iorque e pude ter contato com profissionais brilhantes como Lucas Mendes, Paulo Francis e o Hélio Costa que na época chefiava o escritório. Em resumo, a precocidade gerou sim muita pressão, mas também gerou crescimento.


Participação de Roberto Cabrini no quadro “Para quem você tira o Chapéu” do Programa Raul Gil (agosto de 2010)

SBTpedia: Você gosta de dizer, Cabrini, que denunciados não mandam flores. Essa frase representa o risco do tipo de jornalismo que você pratica?
Roberto Cabrini: Essa minha frase recorrente e sempre lembrada pelos que me conhecem simboliza a plenitude do exercício do jornalismo investigativo. É preciso ter sempre em mente que os que praticam arbitrariedades, desmandos e abusos vão reagir quando nós os denunciamos. Essa reação se traduz em ameaças, processos judiciais, tentativas de corrupção e pressões de todas as formas. Se não sucumbirmos a todas essas intimidações mereceremos ser chamados de jornalistas. Esse processo tem um lado muito positivo. Serve para cunhar nossos princípios e fortalecer nossas convicções em relação ao verdadeiro jornalismo que não pode ser nem oficial e nem tendencioso, mas corajoso independente e responsável sempre.

SBTpedia: Você foi chamado de repórter-detetive pela imprensa nos anos 90 por achar PC Farias e Jorgina de Freitas fora do Brasil. Você acha que a imprensa pode ser aliada da Justiça em casos como estes?
Roberto Cabrini: Pude localizar esses fugitivos da justiça porque ao contrário de alguns setores policiais da época eu os procurei mesmo com recursos imensamente inferiores aos que eles possuíam. Vocês podem imaginar a razão deles não terem sido verdadeiramente caçados... Nenhum ser humano é uma ilha e assim arregaçando as mangas, mapeando e observando os que os cercavam consegui as pistas que precisava após muitos meses de trabalho... Com certeza temos nossa contribuição. O jornalismo tem que ser exercido com humildade e de forma alguma substitui o trabalho policial e o da justiça. Um jornalista não é um policial, um promotor e muito menos um juiz. Mas não resta dúvidas de que em uma sociedade pulsante o jornalismo denso é imprescindível. Pode-se avaliar o nível de democratização de uma sociedade pelo nível de jornalismo investigativo que ela possui.


Cabrini, em especial que antecedeu a luta Maguila x George Foreman, pelo SBT (16/06/1990)

SBTpedia: Vamos aos anos de 1988 e 1992. Como foi sua experiência como chefe do Departamento de Esportes do SBT?
Roberto Cabrini: Foi algo extremamente gratificante para minha carreira. Fui diretor de esportes aos 29 anos, montei uma equipe que levou a emissora a segunda colocação do IBOPE mesmo sem ter tradição no esporte. Foi um desafio montar a equipe e o resultado não poderia ser melhor. Contratamos Telê Santana, Sócrates e Emerson Leão que deram um show nos comentários e ainda o excelente João Carlos Albuquerque que era um coringa de comentarista e apresentador e o mestre Orlando Duarte, um dos profissionais mais brilhantes que já vi. Na narração, Luís Alfredo que veio da Globo, e Ivo Morganti, que já estava na emissora. Nos reportagens, Luís Ceará e Paulo Lima. Um grande destaque foi a criação do Amarelinho pelo departamento de criação visual do SBT. O slogan era “Itália 90, o SBT é mais Brasil”. Na retaguarda tínhamos nomes como Michel Laurence, Sidney Daguano, Roberto Salim (hoje na ESPN), Marcos Morganti. Não posso deixar de mencionar que tudo foi feito com a retaguarda de Luciano Callegari e seu filho Lucianinho, dois profissionais marcantes em minha carreira. E é dessa época também o célebre documentário com Ben Johnson, um furo mundial, onde ele o treinador Charles Francis confessaram como e por que usavam drogas na preparação dele. E ainda a exclusiva do Mike Tyson, em 1989, e a cobertura exclusiva de Maguila e George Foreman. Essa foi minha primeira passagem pela emissora, logo em seguida cobri a Fórmula 1 sem credencial e o resultado (1991) foi tão bom que em 1992 recebi proposta irrecusável da Globo para ser correspondente em Londres, priorizando a F-1, mas cobrindo tudo e isso deu início a minha carreira de correspondente internacional e a de repórter investigativo pois, além da F-1, cobri todos os outros assuntos com uma dinâmica não vista até então. Depois voltei em 95 já como repórter especial internacional, fase onde ganhei com o SBT Repórter todos os prêmios da época, com os documentários do Collor, Iraque, Palestina (com a exclusiva com Yasser Arafat) e Afeganistão, que me rendeu o Vladimir Herzog. Fui também o diretor de jornalismo e correspondente do escritório do SBT em Nova Iorque, até receber proposta irrecusável da Globo para ser correspondente em Nova Iorque.

Trecho do Festival SBT 30 Anos sobre a carreira de Roberto Cabrini na emissora

SBTpedia: Em 1995, você reestreou no SBT com uma entrevista bombástica com Fernando Collor para o SBT Repórter. O que você lembra daquele momento?
Roberto Cabrini: Foi uma reportagem marcante, considerada pela revista Veja a melhor daquele ano e que me rendeu o Prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor programa do ano enfrentando novelas e os programas da Globo em geral. Primeiro tive que convencê-lo da dar entrevista mostrando que, por mais doloroso que fosse, ele precisava dar o seu lado da história... Ele topou, depois desistiu, voltou atrás etc. Não foi fácil, mas fomos conseguindo gravar primeiro na Casa da Dinda e depois em Miami onde ele tinha se exilado na época. Tive que mergulhar em um emaranhado de informações para me preparar para a entrevista. Estava pronto e muito concentrado para rebater e questionar devidamente tudo que ele falava. A chave para isso foi à primeira pergunta onde consegui compromissá-lo a aceitar qualquer pergunta sem se levantar da cadeira. Comecei perguntando “Presidente Fernando Collor, podemos perguntar tudo que quisermos ou existe alguma censura nessa entrevista? ele respondeu. Sim, pode perguntar tudo que lhe aprove. A partir daí ele não podia voltar atrás e nem reclamar das questões. Estava liberado para tudo e já emendei "O senhor é corrupto?, E assim foi... Foram 3 horas tensas de perguntas cortantes, na lata, contestando respostas evasivas ou incorretas onde ele teve o mérito de não fugir de nada. Um dos mais importantes momentos de minha carreira.


Conexão Repórter sobre a Somália (julho de 2011)

SBTpedia: Em 2010, você voltou ao SBT e assumiu o Conexão Repórter. De lá para cá qual matéria mais te impressionou como ser humano?
Roberto Cabrini: A realidade que encontrei na Somália para produzir o documentário "Somália, o diário da trevas", um dos melhores e mais comentados nessa trajetória do Conexão Repórter. Já cobri 6 guerras, já estive no Iraque 3 vezes, Afeganistão 2 e nos piores lugares do Brasil e do mundo... ...Entretanto nada se assemelha a realidade da Somália onde estive por 40 dias incluindo Mogadíscio onde raros jornalistas conseguiram entrar. A fome, o radicalismo religioso, o abandono das grandes potências, o uso de armas letais por crianças de até 9 anos de idade,a guerra civil,as execuções tribais, a proliferação de gangues e a ausência de estado produziram ali uma realidade brutal,onde não existe segurança e dignidade humana em nenhum momento e em nenhum lugar.

SBTpedia: Muitos jornalistas gostam de frisar que o SBT é uma emissora que dá total liberdade ao seu jornalismo. O que você tem a dizer a respeito?
Roberto Cabrini: Em nenhuma outra emissora o jornalista encontra a liberdade proporcionada pelo SBT. Procuro retribuir essa confiança sempre com muita responsabilidade. Tenho muito orgulho de fazer parte da história da emissora.

SBTpedia: Agora, por favor, deixe um recado para seus fãs e para os nossos leitores que acompanharam esta entrevista.
Roberto Cabrini: Quero agradecer todo o carinho com que sempre sou tratado por eles e dizer que eles são minha eterna inspiração em busca da excelência no meu trabalho e no de toda a minha equipe, sem a qual não teria atingido tantas vitórias desde que o Conexão Repórter começou sua jornada. No SBT ganhei os prêmios APCA, Vladimir Herzog e agora o Esso pela liberdade que sempre tive. Sei das dificuldades de fazer jornalismo no SBT pelo fato de ser uma emissora de entretenimento, mas criei raízes importantes na emissora onde sou tratado com muito carinho.

A entrevista foi realizada e produzida por José Eustáquio Júnior (@juniorpitangui) e Luiz Ramos (@luizramos1), da equipe SBTpedia. Nossos agradecimentos ao repórter e apresentador do Conexão Repórter pela entrevista concedida.

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