Cartas e Cartazes nº 47: Jô Soares perde pra Globo, Silvio Santos chama Montenegro de ladrão e invoca Jovem Pan (09/03/1988)



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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

 Já foi dito aqui em nossa coluna, por diversas vezes, que Jô Soares, sem dúvida, foi uma das maiores negociações da TV brasileira nos anos 80. A saída da Globo e ida pro SBT movimentou muito os bastidores dos canais e deu sinais que a Globo poderia sim perder nomes importantes, mesmo já consolidados no mercado.

Como toda grande contratação, o SBT deu a Jô uma grande produção. Além do pessoal que veio com ele da Rede Globo (como Paulo Silvino, Bia Nunes, Eliezer Mota), tudo, desde cenários até figurino, foi programado para se tornar o mais próximo possível (ou até melhor) do que ele tinha no “Viva a Gordo”, que no SBT passou a ser “Veja o Gordo”.

Silvio Santos não se continha de alegria. Em 1987 mesmo, quando o acordo de Jô e SBT se consolidou, o apresentador entrou ao vivo no Noticentro para anunciar a contratação. Era um momento importante para o SBT, que já havia trazido Carlos Alberto de Nóbrega e sua Praça é Nossa e a chegada de Jô representava o SBT num patamar muito forte no setor de humor.

Evidentemente, o Veja o Gordo mereceu do SBT toda a atenção possível para a estreia. Chamadas inundavam a grade para o grande momento da estreia. Silvio Santos fazia aquela divulgação marota nos seus programas dominicais. Estava tudo mais do que perfeito. O programa líder da Globo estava chegando ao SBT com grande badalação e expectativa de repetir a dose na nova emissora. Certo? Errado. E é aí que a história pega fogo.

Chegado o grande momento: dia 7 de março de 1988. Empolgado, Jô já havia criado 30 tipos diferentes para usar no novo programa do SBT. Um deles, uma paródia da jornalista Lilian Witte Fibe (“Witte Fibe” que virava “Bife Quibe” na mesma). Nada poderia deter, nem mesmo um esticamento da novela da Globo. O SBT, como era comum na época, já tomava de prontidão o chamado “desenho de espera” e não tinha nenhuma vergonha de usar isso: “Se a Globo atrasar a novela das oito para nos prejudicar, a gente atrasar também. Entramos com A Pantera Cor-de-Rosa ou qualquer outra coisa. Guerra é guerra”, dizia um dos produtos do programa na época. 

Jô Soares como Lilian Bife Quibe, no Veja o Gordo, do SBT

A Globo não esticou a novela, mas usou outro artifício para combater seu ex-contratado por 17 anos. Filmes. Filmes inéditos e populares. Para pegar de frente a estreia programou “Star Wars: O Retorno de Jedi”, na sessão de filmes Tela Quente. O humorista Agildo Ribeiro, que na época tinha um programa às segundas na Bandeirantes (Agildo no País das Maravilhas), teve até mesmo de mudar de dia para fugir do confronto pesado. Na época ele dizia: “Enquanto o SBT produz o Veja o Gordo, a Globo planeja Mate o Gordo”.

Com Jô no Veja o Gordo, aparece o humorista Alexandre Régis (à dir.), que também fez A Praça é Nossa ("Eu não sou maluco"), no SBT

Luciano Callegari apostava alto para o programa. Dizia que o pacote de filmes da Globo tinha alguns títulos realmente fortes, mas que Jô tinha uma audiência cativa que não o iria trocar por qualquer filme. Vale lembrar que nos tempos de Jô na Globo ele liderava com mais que o dobro da audiência do SBT, que exibia na sua fase final por lá o Musicamp.

Sem cenas do próximo capítulo de Mandala, a Globo pôs no ar “O Retorno de Jedi” precisamente às 21h29. Às 21h32 entrou no ar “Veja o Gordo”, no SBT. Segundo dados do IBOPE, em São Paulo, a Globo ficou com 57% dos televisores ligados contra 28% no SBT na primeira meia hora de atração. Das 22h às 23h, Jô já estava com apenas 19% de audiência. Já no Rio, resultado pior para o SBT: Globo, com 53%, Manchete com 20% (exibindo Vasco x América) e SBT com 15% (chegando a picos de 19%).

Em São Paulo e Rio, o novo programa apresentava um avanço significativo de audiência. Na semana anterior à estreia de Jô, o SBT tinha 3% de audiência em São Paulo e 4% no Rio, no respectivo horário. Só que não foi o suficiente para agradar o SBT e a situação ficou ainda pior quando divulgada a pesquisa da Rádio Jovem Pan com 300 pessoas, indicando que 38% dos entrevistados viram Veja o Gordo, enquanto o filme da Globo com 35%. Foi o que faltava para desencadear uma revolta de toda a emissora.

 Sérgio Mallandro participou do elenco do Veja o Gordo, no SBT

A ofensiva começou no dia 9, quando o SBT publicou esse anúncio na imprensa destacando (e com o título satirizando o filme da Globo) a vitória de Jô segundo a pesquisa da Jovem Pan. No trecho superior do anúncio, o SBT cheio de ironias dizendo que a pesquisa da Jovem Pan poderia estar errada e que o SBT ganhar da Globo seria impossível.

Às 12h40, do dia 9, Silvio Santos começou a falar sobre o assunto para a TV Cultura e atacou duramente Carlos Augusto Montenegro, presidente do IBOPE, chamando-o de ladrão e dizendo que fazia mais ou menos 1 ano e meio que tinha conhecimento que os números do instituto eram manipulados em favor da Rede Globo e, como tal, não deveria ser levado a sério. Silvio ainda revelou que o IBOPE teria recebido dinheiro de Roberto Marinho (dono da Globo) para comprar a Audi-TV (que era concorrente até então) em 1985.

No dia 13, domingo, viria ainda mais no Show de Calouros (veja trecho no vídeo abaixo). “Dizem que o Montenegro se atrapalhou financeiramente e recebeu recursos da Globo. Dizem, não vou poder provar”, disse. Silvio cita os exemplos de várias emissoras, como TV Excelsior, TV Rio e TV Tupi, que tiveram de ir a falência. “Será que todos os administradores foram incorretos? Será que todos os administradores foram incompetentes?”, revoltou-se no ar o apresentador insinuando uma manipulação dos números fora da Globo.


Montenegro reagiu dizendo que Silvio Santos era leviano e que se os números fossem falsos mesmo, eles estavam fazendo campanhas publicitárias ao longos dos anos se embasando em um ladrão (IBOPE). Aproveitou para criticar o método da Jovem Pan que, segundo ele, atende apenas a domicílios classes A/B, que possuíam telefone naquela época. Disse que processaria o comunicador e que ele estava arrumando uma desculpa para a derrota como alguém que tem febre que ao invés de tratar, quebra o termômetro.

E falando em termômetro, dá para sentir ainda hoje a temperatura que essa briga chegou. Inclusive, o SBT chegou a promover estudos com a Faculdade Economia e Administração da USP, sob supervisão do então vice-presidente do SBT, Guilherme Stoliar, para criação de um novo instituto de medição de audiência, que não vingou.

O certo é que o IBOPE sempre foi muito contestado e o Jô Soares chegou chegando no SBT. O Veja o Gordo nunca foi um sucesso retumbante, mas teve seus méritos. Inclusive foi o programa responsável por colocar Fausto Silva, o Faustão, ainda apresentador na TV Bandeirantes, na tela do SBT, em 27 de junho de 1988 (será que um dia teremos esse vídeo no YouTube)? Jô viria a deslanchar (do ponto de vista artístico e nem tanto em audiência), pra valer com o talk-show Jô Onze e Meia. Sem muito horário fixo, mas com um bom humor que marcou época.

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