Cartas e Cartazes nº 55: Programa jornalístico do SBT ganha um dos principais prêmios do mundo (30/03/1994)



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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

A história do jornalismo do SBT é uma das mais ricas, com toda certeza, da TV brasileira. Existiram programas dos mais variados gêneros, estilos e comandado sempre por grandes nomes do setor. Além de criar bons produtos do gênero, o SBT já herdou também bons programas da concorrência. Foi o caso do Documento Especial, o qual passaremos a falar a seguir.

O Documento Especial surgiu na Manchete em 1989, atraindo grande atenção da crítica ao abordar temas ousados, espaços para minorias e, muitas vezes, ignorados pela sociedade e pelo jornalismo tradicional. A forma inteligente de expor feridas da sociedade, com imagens fortes, depoimentos sem cortes e denúncias importantes, fez o programa chamar a atenção de Silvio Santos que, em 1992, convidou o diretor Nelson Hoineff, o apresentador Roberto Maya e seu programa a deixarem a Manchete e desembarcar no SBT. Convite aceito. Entre as exigências de Nelson para o programa se mudar para o SBT, foi que o SBT produzisse as matérias no Rio de Janeiro, onde ele já trabalhava e que a equipe da Manchete viesse junto. Para atender o pedido, o SBT teve que montar uma mini-produtora na Cidade Maravilhosa.

Para “revidar” a ida do Documento Especial para o SBT, a Manchete criou uma versão genérica do programa para substitui-lo: chamava-se “Manchete Especial - Documento Verdade”, exibidas às sextas (o do SBT ia ao ar às quintas). Mas o programa, que era apresentado por Henrique Martins, velho conhecido do SBT, não passou do ano de 1992.

A estreia do Documento Especial no SBT aconteceu em 10 de setembro de 1992, com o tema saudade, com participações especiais de Antônio Houaiss e Tom Jobim (veja anúncio abaixo). Na verdade, o tema que era para ser de estreia (que seria no dia 03/09) era “O País da Impunidade”, mas esse programa nunca foi ao ar no SBT. No lugar do programa, entrou uma edição requentada do “Caso de Polícia”.



Nunca se soube o verdadeiro motivo das restrições impostas ao programa de estreia. Informações dão conta que pegava pesado demais, dissecando o caso PC Farias/Collor (inclusive com uma gravação inédita obtida junto ao Jornal Zero Hora, de Porto Alegre) e o SBT preferiu não levar ao ar por medo de represália de políticos, em especial do governo do presidente Collor, em tempos de crise institucional no País. Tal matéria só seria exibida em 2007, no Canal Brasil. Veja trecho a seguir:


Mas vamos falar de coisas que foram ao ar no SBT. E não foram poucas. Logo no segundo programa, dia 17 de setembro de 1992, uma reportagem repercutiu demais na mídia nacional. Um tema, olha que coisa, que não pôde ser tratado na Manchete por restrições de Adolpho Bloch. Tudo por causa de uma entrevista com um grupo neonazista brasileiro, denominado White Power, formado por skin-heads, que cultuava todo e qualquer tipo de preconceito, comum entre os defensores da cultura extremista de Adolf Hitler. Na matéria também aparecia o irmão de Eduardo Suplicy, Anésio Lara, que era simpatizante dos ideais de Hitler. Como Suplicy era candidato à Prefeitura de São Paulo, Paulo Maluf tentou usar a matéria seu favor na campanha. E aí já viu... Até a Polícia Federal entrou no caso e indiciou diretor, chefe de reportagem e produtor por apologia ao crime. Uma rádio voltada ao público nordestino foi pichada pelo locutor ter se manifestado contra a matéria do Documento Especial. O sucesso da matéria fez a mesma repercutir internacionalmente. Em 29 de novembro daquele ano, “A Cultura do Ódio” (como era denominada a matéria com os neonazistas) foi exibida no Festival de Documentários de Leipzig, na Alemanha.

Mas a base do anúncio de hoje e a consagração do Documento Especial foi uma matéria exibida em 3 de dezembro do mesmo ano de 1992. O Documentário “Vidas Secas” mostrava o drama da seca no Nordeste brasileiro em uma linguagem poética. E não foi só uma grande matéria. Foi uma grande matéria com grande audiência. Foram 19 pontos de média, sendo o 4º programa mais assistido pelo SBT, perdendo apenas para os dominicais de Silvio Santos (Topa Tudo por Dinheiro, Porta da Esperança e Festival da Casa Própria).

“Vidas Secas” acabou sendo inscrito no 34º Festival Internacional de Televisão de Monte Carlo (Mônaco), um dos principais da área em todo o planeta e venceu o prêmio Príncipe Rainier III, em 10 de fevereiro de 1994. Antes, em 1993, o Documento Especial já havia concorrido na mesma premiação com a matéria “Guerra Social” (26/11/1992), sobre a guerra do tráfico e a violência em todo o Brasil. Como a matéria sobre o Nordeste, exibida uma semana depois da “Guerra Social”, não deu para ser inscrita em 1993, acabou vencendo em 1994.

O Documento Especial também viria a ser destaque no Festival de Banff, no Canadá e no 6º Vídeo Festival de Berlim, na Alemanha. Tanta consagração internacional do programa, acabou motivando o SBT a criar um anúncio não só comemorando o prêmio de Monte Carlo, mas também auto-denominando o SBT de SIT (Sistema Internacional de Televisão). SBT tava todo trabalhado na mídia internacional.

Uma outra passagem marcante do programa foi em agosto de 1993, quando comemorou um ano de exibição no SBT. Nele, várias personalidades, dentre elas Luís Inácio Lula da Silva, Roberto Freire, José Simão e vários outros deram depoimentos da importância do programa para o jornalismo. Tal trecho foi, inclusive, aproveitado durante o Festival SBT 30 Anos, exibido pelo SBT em 2011.


Reportagem completa “Novas Tribos Urbanas”, exibida pelo Documento Especial em 14/01/1993, no SBT

A passagem do Documento Especial pelo SBT durou até 1995, quando se transferiu para a Bandeirantes, onde não atingiu grande repercussão. Na emissora de Silvio Santos, além das matérias já citadas outras foram bastante marcantes, como “O País na UTI” (falando da saúde pública), “novas tribos urbanas” (veja o vídeo acima), “De Frente para Meca” (sobre a cultura e religião islã), sobre o orgulho gay, prostituição infantil, o papel da imprensa no noticiário de corrupção, sobre crianças desaparecidas, a bossa nova, os 30 anos do cinema novo, os bastidores de Cuba, o sistema penitenciário brasileiro, a geração cara-pintada, a igreja paralela, o trabalho escravo e o país do futebol. Não faltaram bons temas. É um programa que deixou saudades e marcas definitivas na TV brasileira.

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