Cartas e Cartazes nº 61: Silvio Santos explica na imprensa o porquê de pleitear a concessão da TVS Canal 4 de São Paulo (09/11/1980)




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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

A próxima segunda-feira, dia 19 de agosto, é, por motivos óbvios, um dia de grande festa para o SBT. Afinal, o SBT estará completando 32 anos de vida, contados a partir da assinatura da concessão e início das transmissões, em 19/08/1981. Mas a história do SBT começa, de verdade, muito antes e é isso que você vai entender no nosso Cartas e Cartazes Especial de Aniversário a partir de agora.

Silvio Santos, já na década de 70, já despontava como um grande apresentador que se interessava em crescer fora das câmeras, como dono e empresário do mundo da comunicação. Durante essa década dois fatos foram marcantes para isso: o primeiro, a compra de 50% da Rede Record, em São Paulo. O outro, a concessão do canal 11 no Rio de Janeiro, que se tornaria a TVS Canal 11 do Rio. Silvio Santos já era, portanto, dono de uma rede e meia de TV no Brasil.

Apesar disso, o sonho de Silvio Santos não estava realizado. O que ele almejava mesmo era ser dono de uma TV em São Paulo, 100% dele. O embrião desse sonho se tornar realidade começou em 19 de julho de 1980. Naquela data, funcionários do Dentel, por ordem do Ministério das Comunicações, percorreram sete emissoras da TV Tupi e lacraram seus transmissores, encerrando as atividades da primeira rede de televisão do Brasil. Era consenso que o grupo Abril assumisse esses canais, contando inclusive com o apoio do Ministro Gouberi de Couto e Silva e do secretário particular da Presidência, Heitor Ferreira de Aquino. Porém, os interesses dentro de Brasília eram muitos e, com isso, acabaram abrindo um processo licitatório para escolha dos grupos que iriam assumir os canais, que foram divididos em dois editais:

Edital 34/80: Canal 6 (RJ), Canal 4 (Belo Horizonte), Canal 6 (Recife), Canal 2 (Fortaleza) e Canal 13 (São Paulo, que era utilizado pela Bandeirantes, que passou para o canal 9 na época)

Edital 35/80: Canal 4 (São Paulo), Canal 5 (Porto Alegre), Canal 2 (Belém) e Canal 9 (ex-TV Continental no Rio de Janeiro)

Note-se que além dos sete canais originalmente da TV Tupi, houve um adendo aos editais acrescendo o Canal 13 em São Paulo e o Canal 9 no Rio de Janeiro. Veja que, em ambos os editais, existem um canal em SP e outro no Rio de Janeiro, os estados que eram as meninas dos olhos de todos os interessados na época. Porém, é importante destacar que Silvio Santos já tinha um canal no Rio, o Canal 11. Portanto, esse “canal sobrando” interessava ao parceiro de Silvio, o então dono da outra parte da TV Record, Paulo Machado de Carvalho, interessado em ter uma emissora própria no Rio. Então o acordo entre Silvio e Paulo Machado foi feito: eles se juntariam em busca de um interesse comum. O Sistema Brasileiro de Televisão entraria na licitação e, caso vencesse, Silvio repassaria o Canal 9 do Rio para Paulo Machado e, também, abriria mão de sua parte na Record em São Paulo (o que só viria a acontecer com a venda de sua parte no final da década de 80). O grande mote da campanha dos dois empresários, aliás, era que do dia pra noite, surgiriam duas redes de TV: o SBT (do Grupo Silvio Santos) e a Record (do Grupo Paulo Machado de Carvalho). A Record já existia, claro, mas com essa licitação, ganharia uma “independência”.

O processo de licitação foi marcado por acusações e muitos boatos. Acusações de favorecimento aos montes. Boatos até que o bilionário grupo Warner estaria interessado em uma das redes, sendo representado no Brasil por ninguém menos que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé! Mas não passaram de boatos. Ao todo, 9 empresas se inscreveram, de fato, na licitação, conforme foi divulgado em setembro de 1980: Rádio Jornal do Brasil Ltda, Visão e TV Sociedade Civil Ltda, TV Manchete Ltda, Rede Rondon de Comunicação, Televisão Abril Ltda, Rádio e TV Universitária Metropolitana Ltda (Rede Capital), Rede Piratininga de TV e Rádio Ltda, Sistema Brasileiro de Comunicação Ltda e Sistema Brasileiro de Televisão e Sociedade Civil (do Grupo Silvio Santos associado ao Paulo Machado Carvalho, da Record). Os inscritos Rede Piratininga, Sistema Brasileiro de Comunicação e Rede Rondon foram afastados da concorrência por não apresentar a documentação exigida. Após, outras três foram perdendo o favoritismo por questões econômicas: Jornal do Brasil, Abril e Visão e TV.

Em meio a essa guerra, Silvio Santos tratou de fazer sua campanha na imprensa publicando anúncio como esse de hoje no Cartas e Cartazes, mostrando toda a força que teria a rede, caso fosse o escolhido da licitação, além de mostrar a incorporação de profissionais desempregados da extinta Tupi, um dos termos mencionados no edital proposto pelo governo do presidente João Baptista Figueiredo. Mas o mais interessante é uso de uma pesquisa do IBOPE na época atestando que a grande maioria popular queria que Silvio Santos e Paulo Machado fossem os vencedores do processo licitatório. E detalhe: o anúncio faz alusão que Silvio Santos ficaria com apenas o canal de São Paulo e Porto Alegre e Paulo Machado com Rio e Belém e “ainda sobrariam 5 emissoras para um empresário novato no ramo” (as outras 5 do Edital 34/80).

Ministro em coletiva anunciando que o Sistema Brasileiro de Televisão foi um dos vencedores da licitação

A decisão final dos escolhidos era esperada para no máximo dezembro de 1980, mas esta só veio em 19 de março de 1981, em coletiva realizada pelo Ministro das Comunicações, Haroldo Correa de Mattos. Foram anunciados vencedores o Sistema Brasileiro de Televisão (encabeçado por Silvio Santos e Paulo Machado de Carvalho) no edital 35/80 e a TV Manchete (de Adolpho Bloch), no edital 34/80. Parte da imprensa caiu em cima (desde sempre...) da escolha do Sistema Brasileiro de Televisão pelo governo militar. Alegavam que Silvio Santos já era dono de uma rede TV no Rio e não poderia vencer uma concessão que englobava uma outra rede de TV naquele Estado. Mas a explicação foi esperta: quem era dono do canal 11 no Rio de Janeiro era Silvio Santos e quem venceu a licitação que englobava o canal 9, era o Sistema Brasileiro de Televisão, que não tinha Silvio Santos no seu rol acionário e sim Carmen Abravanel (cunhada de Silvio Santos) e Carlos Marcelino Machado de Carvalho (filho de Paulo Machado de Carvalho, da TV Record). Outra acusação é que o SBT teria sido favorecido graças a programas como a “Semana do Presidente”, exibida dentro do Programa Silvio Santos e a proximidade do apresentador com o presidente. O ministro das Comunicações ficou exaltado e chegou a chamar de antipopular e elitista quem criticava a escolha.

Alguns Sindicatos de Radialistas da época também não gostaram da escolha do processo vencido por Silvio Santos e do “surgimento do SBT”. Ciro Machado, então presidente da categoria em Porto Alegre, assim falava de Silvio Santos: “é um mau empresário, que não assume responsabilidades com o trabalho e, todos sabem, só trabalha mediante prestação de serviços ou cachês”. Nisso, a bem da verdade, acabou se revelando uma mentira com o passar do tempo. É histórica a fama de bom pagador do SBT a seus funcionários. Por outro lado, o mesmo Ciro Machado disse que o mercado de trabalho não iria melhor porque Silvio Santos “só se utiliza de enlatados”. É um exagero, mas digamos que essa quedinha sempre ficou evidente durante os anos que se passaram.

Entre histórias, brigas de bastidores e com direito a dobradinha improvável nos dias de hoje (entre SBT e Record) levando a melhor, eis que exatos 5 meses depois, em 19 de agosto de 1981, entrava no ar a TVS Canal 4 de São Paulo!

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