Cartas e Cartazes nº 77: Com direito a revólver em punho de Collor e Lula, SBT anuncia debate (14/12/1989)


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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

O anúncio do Cartas e Cartazes deste sábado completa hoje 24 anos. E talvez seja um dos mais marcantes da história do SBT e talvez um dos mais ousados do final dos anos 80. Confira agora como foi as eleições presidenciais em 1989 e toda a repercussão dentro do SBT.

As eleições de 1989 foram as primeiras após a redemocratização do País. Portanto, o povo voltava a votar livremente, pelo primeira vez, para Presidente da República, desde o início da década de 60. E, aproveitando esse momento de democracia pura e livre, vários e vários partidos foram criados e todos com interesse no pleito. Como ainda inexistia uma força dominante nacional (especialmente a queda do Plano Cruzado que fragilizou o PMDB de Sarney), era a hora certa de se aventurar e tentar a sorte. Por isso, 22 candidatos se lançaram na eleição presidencial. Nomes de alcance nacional como Lula, Brizola, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves, Roberto Freire, Paulo Maluf e Mário Covas estavam juntos numa mesma eleição. Mas quem levaria mesmo era o caçador de marajás Fernando Collor, que despontou de Alagoas como símbolo da renovação política nacional.

Mas o caminho até Collor ganhar foi bem complexo. Especialmente porque a eleição foi cheia de reviravoltas. Eu digo que estudar as eleições de 1989 é apaixonante por isso. Era algo totalmente novo para muita gente no Brasil e não se tinha muito ideia de quem poderia estar na frente ou não. Não existia a figura do marketing político como atualmente. Então a gente via o candidato como ele era propriamente, sem meias palavras, com coragem para defender suas ideias, independente da repercussão que isso lhe renderia. Comícios lotados, sem o povo se preocupar com showmícios (hoje já proibidos). Todos queriam, de fato, ouvir os candidatos. O povo tinha esperança na nova política. Que diferença para os dias atuais...

Enfim, a eleição de 1989 foi marcante em todos os sentidos. Mas para o SBT, por um motivo especial: Silvio Santos acabou de paraquedas na disputa, após ser convidado pelo PMB (Partido Municipalista Brasileiro) como substituto de Armando Corrêa. A notícia caiu como uma bomba na política brasileira. Silvio vivia o auge de sua popularidade e seu retorno à TV após o problema da voz, era tido como mai uma de suas vitórias pessoais, de alguém que poderia realmente mudar o Brasil. Evidentemente, a Globo não via com bons olhos essa candidatura. Afinal, já bastava Lula e sua “Rede Povo” (satirizando a Rede Globo). Porém, as pesquisas, não perdoavam: o IBOPE já colocava de cara Silvio Santos, próximo à disputa, já no segundo turno com Fernando Collor. Uma ascensão meteórica que apontava em todos os sentidos que Silvio Santos poderia ganhar. Inclusive, o povo não votaria diretamente nele. Silvio tinha que pedir voto para o número 26, de Armando Corrêa, pois não daria mais tempo de alterar a cédula de papel. Mas o TSE impugnou a candidatura dias antes do pleito e Silvio Santos não veio aí.

Aliás, a candidatura de Silvio Santos ficou marcada por um dos mais importantes exemplos de independência do jornalismo do SBT. Com a candidatura posta nas ruas, Boris Casoy, âncora do SBT Brasil, criticou seu patrão, Silvio Santos, pela candidatura no meio do caminho. 


Sem o marketing de hoje em dia, os debates políticos eram absolutamente históricos e sensacionais. Ninguém media as palavras. Era filhote da ditadura pra cá e desequilibrado pra lá (vídeo acima, debate da Band, com Marília Gabriela). Inclusive, coube ao SBT realizar o último debate do primeiro turno daquela eleição presidencial. Já no segundo turno, dois debates foram realizados (um no dia 3 de dezembro e outro no dia 14 de dezembro), em esquema de pool (SBT, Band, Globo e Manchete se uniram para transmitir simultaneamente o mesmo evento). O SBT, nesses debates, foi representado pelos jornalistas Boris Casoy (âncora de um bloco) e Luís Fernando Emediato (interrogando os candidatos).

O último debate da eleição, no dia 14 de dezembro, reunindo os dois candidatos que chegaram ao 2º turno – Collor e Lula – era aguardado com grande atenção pelo País. Lula havia se aproximado bastante nas pesquisas de Collor e o debate, transmitido por 4 emissoras grandes do Brasil, poderia representar a vitório de um ou de outro no dia 17 de dezembro.

Repare que o tom do SBT para anunciar o debate é de guerra, bem a cara das Eleições de 1989, marcada pela troca de acusações de lado a lado. Um verdadeiro duelo de faroeste entre os dois candidatos. Com direito a armas em punho, o SBT dá uma sacada sensacional: “Não perca Collor e Lula fazendo de tudo para não ser o SBT destas eleições”. Obviamente, ninguém queria ser o segundo colocado na disputa, como era o SBT na audiência televisiva. Ninguém queria a liderança absoluta do segundo lugar. Só interessava a vitória.

E aí veio o debate e todos sabem o que aconteceu. O protagonista acabou não sendo o SBT, mas a Globo que ficou marcada por uma edição tendenciosa que teria manipulado muitos eleitores a votar em Collor no dia 17.

Enquanto a Globo era acusada, o SBT deu um recado bonito no dia das eleições, pelo bem da democracia em anúncio publicado no dia 17 de dezembro, dia do 2º turno das eleições (veja abaixo). Detalhe para o “não silvamos”. Como dito acima, não mesmo. Até Boris Casoy criticou a candidatura. 


Lembrando que verdadeiramente o SBT deu espaço para todos. Programas como A Praça é Nossa (e as interações com o personagem Caro Colega), Hebe e especialmente o Jô Soares Onze e Meia, recebeu todos os candidatos, por diversas vezes. Jô, inclusive, foi apontado, como um dos melhores programas para acompanhar as propostas do candidatos na época. Uma das entrevistas clássicas certamente foi com Enéas Carneiro, que também era candidato e despontava naquela época na política e futuramente viria a ser comentarista do Aqui Agora, 3º colocado nas eleições para Presidente em 1994 e o deputado federal mais votado da história do Brasil. Uma eleição, de fato, para nunca esquecer.

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