Cartas e Cartazes nº 88: Jô Onze e Meia estreia com navegador, político e polêmica dos seios de fora (16/08/1988)




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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

O SBT está com uma grande campanha de divulgação no ar para o talk-show The Noite, que será comandado por sua nova contratação, o humorista e apresentador Danilo Gentili. A emissora trata o novo produto como uma grande aposta para repercutir, trazer anunciantes diferenciados e conquistar o público jovem nos fins de noite. Mas você sabe como foi a estreia de Jô Soares com seu talk-show no SBT em 1988? É o que vamos conferir agora no Cartas e Cartazes.

Como Jô fazia o “Veja o Gordo” às segundas-feiras, o Jô Soares Onze e Meia estreou numa terça e ocupava essa faixa de terça a sexta. Posteriormente, com a saída do Veja o Gordo da grade, ficou de segunda a sexta. O “Onze e Meia”, promessa de horário quase nunca cumprida, era sempre motivo de piada e o SBT fazia gosto que isso caísse na boca do povo para dar ainda mais repercussão. Aos poucos o programa foi virando cult e caindo nas graças de crianças, jovens e adultos pelo Brasil. Falou em talk-show falava-se em Jô Soares Onze e Meia. Tanto que seu “sucessor” no SBT, Danilo Gentili, é um fã confesso da atração que marcou os fins de noite do SBT.

A bem da verdade, não existia apenas essa opção de nome: Jô Soares Onze e Meia. Em 1987, já haviam sido pedidos para registros nomes como “Jô Soares Show”, “Show do Gordo” e “Papo com Jô”, que poderiam servido tanto para um programa humorístico quanto para um talk-show. Outro nomes também surgiram em 1988, com apostas em nomes como “Jô mais à Noite” ou “Jô à Noite”. Mas acabou prevalecendo o “Jô Soares Onze e Meia” mesmo.

Existem muitas semelhanças entre Jô Onze e Meia e o The Noite e entre Jô Soares e Danilo Gentili. Em ambos os casos, seus programas surgiram de uma motivação do SBT em apostar em um público diferenciado, capaz de atrair anunciantes e se investir nos fins de noite. Também, claro, não dá para perceber que ambos eram humoristas e fizeram a transição para o talk-show e, em ambos os casos, se tratava de um sonho virar um entrevistador. Dizem que o próprio Jô havia colocado expressamente em contrato com o SBT, que ele deveria ter um programa de entrevistas na emissora e que a promessa da nova casa foi determinante para ele sair da Globo. Até mesmo com outros contratados existe a coincidência, sendo que depois da estreia de Jô, em 1988, o SBT acertou com Otávio Mesquita para um programa nas madrugadas (Perfil). A dobradinha talk-show / Otávio Mesquita vai se repetir novamente. 
 Jô Soares na coletiva de imprensa para apresentar talk-show

Se pensam que as coincidências acabaram, engano seu. Até mesmo o discurso na coletiva de apresentação do programa foi parecido com o de Gentili. A coletiva aconteceu no dia 9 de agosto de 1988 e Jô soltou: “Nunca me senti tão livre em nenhuma outra emissora”. A volta por cima pro Jô era questão de honra para o SBT, já que o Veja o Gordo não havia atingido os números esperados pela direção da emissora, que até por isso, entrou em conflito grave com o IBOPE na época.

Mas vamos voltar à estreia. A direção do programa era de Diléa Frate, ex-diretora de criação do Jornal Nacional e o programa tinha produção de Maria Rosa Fonseca e Rita Leandro, sendo que esta última ainda hoje está no SBT, trabalhando na equipe do Programa do Ratinho. Repare que eram três mulheres na chefia do Jô Onze e Meia. Isso era proposital. Segundo Jõ era para que o programa tirasse aquela abordagem muito masculina dos programas de entrevistas.

A divulgação do Jô Soares Onze e Meia foi pesada e a busca por convidados de impacto incessante. Não houve muito jogo de esconder quem seria o convidado da estreia. Até porque o Jô – e aí sim se diferencia de Gentili – entrevistava três a cada noite, um por bloco. Ele gravava tudo às terças e antes da estreia já haviam 12 entrevistas gravadas (ou seja, a primeira semana inteira). Especulou-se que o programa inicial seria com a deputada Ruth Escobar (PDT-SP), o ministro Dilson Funaro e o dublador do Chaves/Snoppy, Marcelo Gastaldi. Mas acabaram mudando de última hora e o programa que seria na sexta foi antecipado para terça e os convidados reais da estreia foram: o navegador Amyr Klink, o político Espiridão Amin, que era candidato a prefeito de Florianópolis pelo PDS e a atriz pornô Makerley Reis, a polêmica candidata a vereadora pelo PMDB que expôs os seios em uma conferência que tinha a presença de Leonel Brizola. Ela ganhou até o apelido de “Cicciolina do Bixiga”, em referência à deputada italiana que também usava os seios para angariar votos.

Apesar daquela semana no SBT também estar cheia de estreias, como o infantil “Dó-Ré-Mi-Fa-Sol-Lá Simony”, com a Simony e os programas de fim de noite “Como Funciona?”, apresentado por José Roberto Rocha, “Isto é Brasil”, por Humberto Mesquita e o “Ricos e Famosos”, de Athayde Patreze, anúncio mesmo na imprensa escrita só ganhou o Jô Soares Onze e Meia e dos mais criativos.

O anúncio é todo em cima do caso da estreia do “Veja o Gordo”, em 1987, quando o programa perdeu para o filme “Star Wars: O Retorno de Jedi” exibido pela Globo na oportunidade para fazer frente à estreia de Jô no SBT. Agora o SBT provocava e dizia que a Globo teria que passar Guerra nas Estrelas (Star Wars) todos os dias para fazer frente ao novo “Jô Soares Onze e Meia”.

O programa caiu nas graças da crítica. O jogo de cintura, as perguntas inteligentes, a provocação sem ofender virou um verdadeiro hit, algo bem fora do comum da TV brasileira. Basta pensar que no princípio da década de 80, os fins de noite do SBT eram ocupados pelo sisudo Ferreira Netto e seu charuto, fazendo um programa extremamente sério de debates na emissora. Era uma mudança da água para o vinho. Poucos dias depois da estreia, o apresentador Faustão (que ainda não era da Globo), já enumerava em entrevista o Jô Soares Onze e Meia como um dos seus programas preferidos. Jô estava numa forma incrível ao ponto de José Simão dizer na Folha de São Paulo que o “Jô Soares Onze e Meia faz você permanecer no canal mais pelo entrevistador do que pelo entrevistado”.

Em recente entrevista à Folha de São Paulo, Jô Soares contou que quando deixou o SBT pediu para que as gravações do Jô Onze e Meia não fossem apagadas. Agora, pretende lançar um DVD com as melhores entrevistas dos tempos de SBT e Globo. Será que um dia também teremos uma coletânea de entrevistas de Danilo Gentili dos tempos de Band e agora de SBT, sendo lançadas para venda em todo o País? Só o tempo dirá. 

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