Cartas e Cartazes nº 110: Lilian Witte Fibe estreia no SBT como ‘tampão’ e sendo chamada de economista (19/05/1991)


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 Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

Nem todo jornalista econômico é economista. Essa premissa é verdadeira para Lilian Witte Fibe, jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP) e que, posteriormente, fez cursos de extensão voltados para economia, mas não possui formação acadêmica na área. Mesmo assim o SBT apostou em divulgar sua nova estrela jornalística como se ela fosse economista. E isso tinha todo um motivo especial baseado na história que vamos contar a partir de agora.

Hoje afastada da grande mídia, Witte Fibe já era uma grife da melhor espécie entre o final da década de 80 e início dos anos 90. Sempre ligada a economia, esteve como setorista e comentarista da área no Jornal da Globo e Jornal Nacional, além de comandar o “Globo Economia”, que era exibido nos fins de noite. Mas foi a partir da posse de Fernando Collor de Mello, em 1990, que a jornalista ganhou notoriedade. Colocou contra a parede a então Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, numa entrevista de enorme repercussão sobre o Plano Collor, que expôs toda a dificuldade (ou por que não dizer, desconhecimento) da ministra sobre o tema. O trecho pode ser conferido abaixo:


Diante dessa situação, Witte Fibe era contratada pelo SBT em seu auge na Globo. A emissora de Silvio Santos pretendia lançá-la já no dia 4 de março de 1991, em meio a uma série de novidades na grade de programação, mas a Globo não cedeu 5 dias do contrato da jornalista. Como ela tinha contrato até o dia 9 de março na emissora carioca, ela não pôde assumir suas funções na nova casa.

Com o vencimento do contrato no dia 9, ela finalmente pôde ser efetivada como contratada do SBT. Sua estreia aconteceu já dois dias depois, no dia 11 de março, e, acredite se quiser, a estreia foi uma espécie de “tapa-buraco na grade”. O SBT criava naquela oportunidade um “TJ Brasil – 2ª Edição” na faixa das 21h30, unicamente como ferramenta de espera para a esperar a faixa de shows da Globo entrar no ar e o telejornal encerrar.

O “TJ Brasil – 2ª edição” conseguiu manter os índices que o desenho Tom e Jerry registrava no mesmo horário. Mas a duração era totalmente variável conforme a vontade da Globo. No terceiro dia do telejornal (13/05), a duração do telejornal foi maior que 20 minutos (o dobro do habitual), tudo porque a Globo esticou “Meu Bem, Meu Mal” para atrapalhar a vida de “A História de Ana Raio e Zé Trovão”, exibida pela Manchete.

Witte Fibe tinha plena consciência da situação. “Não [é um jornal de segunda classe], é um novo produto. Mas do ponto de vista técnico, ele ainda está muito aquém do desejado. Fora eu mesma, não foi contratada nenhuma outra pessoa para fazer esse jornal”, disse a jornalista ao Jornal Folha de São Paulo, que revelou, na oportunidade, que havia sendo afastada das grandes coberturas da Globo (como das eleições) após a bombástica entrevista com Zélia Cardoso de Mello. E aproveitou para cutucar falando da nova casa: “O telejornalismo do SBT não sofre nenhum tipo de restrição editorial”.

Obviamente ela não veio para o SBT para esse projeto – tampão e com nome vinculado a Boris Casoy. Era apenas um esquenta para o “Jornal do SBT” que viria por aí. A ideia, inclusive, era manter o novo telejornal em dois horários. Nessa faixa das 21h20/21h30 (como tampão) e depois do Jô Soares Onze e Meia (jornal “efetivo”). E foi assim que aconteceu.

Para divulgar Lilian no telejornal, obviamente o SBT apelou pelo seu histórico lidando com economia e sugeriu chamá-la de “economista” em um anúncio (veja acima). E a coisa foi absolutamente proposital, usando o mesmo termo para designar Joelmir Beting, Alberto Tamer e Luís Nassif, todos jornalistas com respeitabilidade no meio econômico. Veja as frases de cada um deles:

“Foi ela [Lilian] quem implantou o jornalismo econômico de serviço na TV. É muito didática e, nesse aspecto, é imbatível” (Luís Nassif)

“É competente e informada. Tem boas fontes e sabe como cultivá-las. É também uma grande apuradora. Tem muito rigor com a informação” (Joelmir Beting)

“Ela [Lilian] tem tudo para ser uma grande revelação como âncora. Sinto-me feliz de tê-la como companheira aqui no SBT” (Alberto Tamer, que comandava o Economia Popular – Pergunte ao Tamer, programete que ia ao ar antes do TJ Brasil)

Vale destacar essa frase do Tamer. Ela certamente traz o motivo principal da Lilian ter trocado a Globo pelo SBT: a vontade de ser uma âncora de um telejornal. Até então na Globo ela havia sido restrita a repórter, comentarista e apresentadora de um programa de economia. E a experiência muito bem sucedida de Boris Casoy certamente foi um ponto motivador na vinda dela.

Lilian Witte Fibe no comando do Jornal do SBT (05/07/1991)

A estreia do Jornal do SBT aconteceu no dia 20 de maio de 1991. No mesmo dia a emissora também colocava no ar o Aqui Agora. Era a dobradinha jornalística que se juntaria ao TJ Brasil e que formaria o tripé da área durante boa parte da década de 90. Lilian, porém, teve vida curta no SBT. O assédio da Globo falou mais alto e, após ter “estreado” como âncora na emissora de Silvio Santos, não saiu mais do posto. Na emissora de Roberto Marinho virou apresentadora do Jornal da Globo e, posteriormente, do Jornal Nacional.

Boris Casoy, aliás, ficou grande amigo de Lilian nessa passagem pelo SBT. Em 8 de março de 1993, tirou um pequeno espaço no TJ Brasil, ao vivo, para homenagear a jornalista “economista”, que se despedia da casa para seguir para a concorrente: “Os caminhos profissionais estão levando Lilian para a Globo. Hoje é o último dia dela no SBT. Queria dizer, Lilian, que nós vamos sentir falta de você – principalmente eu”.

Jornal da Hebe, em 2008, contou com a participação de Witte Fibe

Em 2002, Lilian voltaria a dar as caras participando efetivamente de um programa do SBT. Durante o Teleton 2002, ela foi “universitária” ao lado de Hermano Henning e Márcia Peltier, no “Show do Milhão Especial Personalidades”, que reuniu políticos de Marcelo Crivella a Paulo Maluf. Nos programas da casa, suas participações mais frequentes eram no programa “Hebe”, de quem era amiga. Em 2008, inclusive, brincou no saudoso “Jornal da Hebe”.

Como dito lá acima, Lilian já está há um bom tempo afastada da grande mídia, especialmente da TV brasileira. Faz muita falta sua independência e inteligência na televisão.

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