Tribuna SBTpedia: Os sentidos da não transmissão do último domingo, por Rafael Fialho

Os sentidos da não transmissão do último domingo

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

Você é dono de uma emissora de televisão aberta, que dispõe de um bom departamento de jornalismo. Um grande acontecimento histórico (para o bem ou para o mal) está marcado para um domingo, e todas as suas concorrentes vão transmiti-lo. O que você deve fazer? Transmitir também, certo? Se você for Silvio Santos... Errado. O dono do SBT pegou todos de surpresa ao vetar todo um esquema de cobertura e transmissão jornalística arquitetado para a ocasião da votação de abertura do processo de impeachment da presidente, que, obviamente, exigia um tratamento à altura.

Mas a palavra “óbvio” parece estar fora do dicionário do apresentador, que decidiu ir no sentido totalmente oposto: manteve a programação normal, havendo apenas um boletim sobre o resultado e um programa especial de Roberto Cabrini, exibido a partir da meia noite. Se a estratégia foi muito exitosa em termos de audiência (tendo colocado o SBT na vice-liderança), não pegou muito bem para o canal, que foi amplamente criticado. Mas seguindo a tática de Silvio Santos, por que não olhar o outro lado da questão e ir contra a corrente?

 Um dos memes que circularam sobre o episódio. Reprodução/Facebook

Como bem lembrou Mauricio Stycer, o jornalismo não é prioridade para o dono do SBT, e, portanto, a postura editorial do último domingo não era de se causar espanto. Quando olhamos para a história do canal, vemos que ele consolidou sua imagem justamente pela diferença; ou seja, sendo o que a Globo não podia ser, o SBT foi, por muito tempo, o “líder absoluto do segundo lugar”. Assim, a posição que a empresa sempre quis ocupar é a de alternativa, então nada mais justo do que não fazer o que todas as outras fizeram. 

“Ah, mas a TV é uma concessão pública e tem o dever de informar o público”

Mas ao fim do domingo lá estava o Conexão Repórter em edição ao vivo fazendo um retrospecto do dia e trazendo comentários, reportagens e entrevistas exclusivas e aprofundadas com envolvidos no tema. Em termos televisivos, talvez a proposta tenha se saído melhor do ponto de vista informativo ao resumir as várias horas de discursos repetitivos em um material mais qualificado – o único a se atentar para a cobertura de Cabrini foi José Armando Vannucci.

“E a credibilidade do jornalismo do SBT, como fica?”

Que credibilidade? Dada a inconstância nos investimentos no setor, não se pode dizer que o jornalismo praticado pelo canal goza de prestígio entre os demais, o que não se configura como um problema porque, como Silvio gosta de dizer, o SBT é uma estação de entretenimento. Telejornal na emissora é apenas mais um produto, que fica no ar enquanto estiver vendendo; Silvio é camelô, e as mesmas técnicas para vender bugigangas no centro do Rio de Janeiro antigamente são usadas hoje para gerir um dos maiores empreendimentos de TV no país. Ele mesmo disse: “Não, eu sempre me vi como produto, um produto meu. Sou um bom vendedor. Sou um vendedor que usa a eletrônica para vender seus produtos, artistas, programas” – Você pode não concordar, mas pelo menos conseguirá entender melhor as escolhas do SBT. O amigo José Eustáquio, editor do SBTpedia, resgatou uma frase de Albino Castro, diretor do Aqui Agora em 1995 que traduz o que quero dizer: “Como essa emissora reage tão mal, do ponto de vista de jornalismo? É que ela insiste em vê-lo como um show, um programa isolado”. Já mostrei anteriormente que o jornalismo para Silvio Santos não ocupa lugar estratégico nem nada; é apenas mais uma atração.

“Mas nem só de audiência vive a televisão”

Concordo. Mas se pensarmos no período crítico que os programas de domingo vêm vivendo no SBT, essa era uma oportunidade de visibilidade que o canal não podia desperdiçar – ou ele mostrava algo que podia ser visto em outros canais ou aproveitava para dizer para o telespectador “Olha, estamos aqui!”. Embora não seja produtivo ficar fazendo suposições, vale a pergunta: quanto o SBT teria dado em números caso transmitisse a votação? 

“Mas a imagem do SBT ficará marcada negativamente depois desse episódio...”

Será mesmo? Embora as críticas sejam pertinentes, por outro lado havia uma parcela de público que não estava disposta a assistir a votação e se sentiu contemplada com a grade de Silvio Santos, que além de audiência, gerou repercussão – e disso Silvio gosta! As imagens do apresentador e de sua emissora, que gozam de incrível admiração, ganharam pontos no quesito “ousadia e alegria”, já que, diante do difícil momento vivido no país, preferem “sorrir e cantar”. É o que vemos com o post do Twiiter do canal, que brincou ao associar o momento político ao julgamento de Chaves.

Alguns diriam que só Silvio Santos para tomar um posicionamento desses; e é mesmo. Porém, mais do que um mero descaso com o jornalismo, esta é apenas mais uma atitude que reflete um posicionamento pessoal e empresarial excêntrico, questionável, complicado. Mas que não passa despercebido.

*Jornalista, Rafael Fialho é doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo, tendo se dedicado a pesquisas sobre os SBTistas, Silvio Santos e sobre a interação da emissora com seu público a partir das vinhetas. Atualmente pesquisa a tematização da violência contra a mulher no programa Casos de Família. Escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com   

# Parceiros


#Facebook: SBTpedia

#Twitter