Tribuna SBTpedia: Salvem o Programa Silvio Santos, por Rafael Fialho

Salvem o Programa Silvio Santos

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

Em um dos programas mais longevos da televisão brasileira, talvez o principal desafio seja se manter sempre atual. No Programa Silvio Santos, falar em novidade parece até uma contradição, pois o que o difere de todos os outros é principalmente a sensação de tradição: a gente liga no SBT e, ufa, está tudo no mesmo lugar como sempre esteve. Os conteúdos permanecem quase inalterados, concentrando-se em quadros antigos como Não Erre a Letra, Câmeras Escondidas, Jogo das Três Pistas, dentre outros. 
 Silvio em seu programa: renovar em preciso. Reprodução.

Contudo, até mesmo uma produção que prima pelo tradicional deve buscar se reinventar de tempos em tempos, o que não parece estar acontecendo no programa em questão. Silvio Santos é mestre no que faz e não precisa de investimentos tão altos, mas algo precisa ser feito ali; a sensação ao assisti-lo nas últimas edições inéditas de 2016 é de um certo cansaço, uma monotonia que apaga sua principal riqueza: a espontaneidade. Algum movimento diferente poderia dar novo oxigênio não só ao apresentador, mas ao programa em si. É o que fez o Jogo dos Pontinhos: alocado no fim do domingo, com o elenco certo, “inovou” dentro das possibilidades e trouxe audiência, gerou repercussão e incrementou um pouco mais o imaginário de Silvio, que agora será lembrado também pelas tiradas engraçadas com Lívia Andrade e Helen Ganzarolli.

O caso mostra que não é preciso comprar formatos estrangeiros, ainda mais para um programa que conta com quase 53 anos no ar e que, portanto, deve ter boas ideias antigas guardadas na gaveta. Se o SBT é a TV do remake, talvez uma visita aos arquivos faça bem ao programa de Silvio, na busca por quadros esquecidos mas que poderiam voltar repaginados. Uma boa fonte de recursos pode estar no saudoso Topa Tudo Por Dinheiro, que se destacava por suas provas engraçadíssimas, pegadinhas com artistas etc.

Por que não investir na memória criada em torno de atrações como essa? Seria no mínimo interessante trazer ao palco participantes de programas extintos, para saber como estão atualmente; imagine ver o menino da pegadinha com o Raça Negra reencontrando a banda ou o simpático homem do “arco iro”? Se isso não for possível, vale a pena apelar até mesmo para a exibição dos quadros originais, algo já realizado há algum tempo, mas que ficou pelo caminho. 
Quadro memorável do Topa Tudo por Dinheiro

E se a solução não estiver nos quadros? Essa é uma pergunta pertinente, porque Silvio sabe render ótimos momentos até em quadros aparentemente nada promissores, como o concurso Talento Infantil – vale a lembrança do dia em que chamou Kokimoto de Cocô Morto. Impagável. Mas basta trazer bons personagens para que o quadro se destaque, e isso inclui desde crianças mais desembaraçadas até jurados mais expressivos. Vejamos a edição deste domingo, em que bastou alçar Maísa ao posto de jurada para que aquele se tornasse uma das melhores situações da noite: ela riu de Silvio, pediu a senha do seu Netflix e ainda criticou as novas regras da competição.
Talento Infantil do último domingo

Por fim, seria muito pedir convidados um pouco mais tarimbados e carismáticos? Assistir a um Jogo das Três Pistas com Ratinho e Datena é bem diferente de uma edição com Natália Guimarães e Renata Fan, por exemplo. Jô Soares, em sua última temporada na Globo, disse que vai investir em entrevistados especiais, e por que não fazer o mesmo com Silvio? Sua carreira não durará para sempre, e ele merece participantes mais famosos – quem sabe uma temporada de competições entre apresentadores como Rodrigo Faro, Xuxa, Eliana e outras estrelas? 



Silvio Santos e seu programa nunca precisaram inventar a roda, e o segredo do sucesso e vitalidade da atração pode estar justamente na simplicidade. Mas isso não significa comodidade. Vale destacar boas tentativas como Pergunte aos Universitários, que apesar de não ter emplacado, mostrou um movimento de busca por variações dentro do programa. Que a iniciativa não seja um ponto isolado e que encontrem “novas” maneiras de deixar Silvio ser Silvio. Ele merece – e nós também.

*Jornalista, Rafael Fialho é doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo, tendo se dedicado a pesquisas sobre os SBTistas, Silvio Santos e sobre a interação da emissora com seu público a partir das vinhetas. Atualmente pesquisa a tematização da violência contra a mulher no programa Casos de Família. Escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com  

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