Opinião SBTpedia: A bipolaridade histórica de Silvio Santos com o jornalismo

A bipolaridade histórica de Silvio Santos com o jornalismo

José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui) 

A década de 80 não foi perdida. Longe disso. Embora a economia estivesse em situação crítica, com hiperinflação e recessão, produzimos grandes momentos, nas artes, na televisão e também na política, com movimentos como o Diretas Já. Essa mesma faixa histórica também produziu as melhores entrevistas de Silvio Santos para a mídia impressa, que hoje seriam inimagináveis, especialmente quanto ao seu teor denso.

Logo quando a TVS Canal 4 de São Paulo entrou no ar, Silvio Santos não fazia questão de esconder de ninguém: sou amigo do presidente Figueiredo [João Baptista Figueiredo] e, se tenho hoje a concessão, agradeço a ele. Logo, aqui, na minha imprensa, ninguém faz crítica a ele. A TV é “dele”. Em entrevista histórica ao Jornal do Brasil, Silvio Santos dizia que ninguém deveria ser  criticado, do faxineiro ao Presidente. Deveria se buscar as qualidades, apenas. Segundo Silvio Santos, todos querem acertar e não errar. Era a exaltação máxima, em plena faixa dominical, do quadro “A Semana do Presidente”.

 Carta de Silvio Santos de 1988 foi "tema" de campanha do SBT em 2013 sobre princípios do jornalismo

Essa tese foi incorporada na famosa “Carta de 1988” (veja íntegra acima), que praticamente fundou o jornalismo “pra valer” no SBT, no qual um dos princípios era o “pessimismo dispensável” e que trazia nas entrelinhas no tópico empresarial o seguinte trecho: “o jornalismo está dentro de uma empresa maior e não deve fugir das regras de administração empresarial, com avaliação e treinamento”. Para bom entendedor, isso basta.

Só que meses depois, Silvio Santos assustou muita gente ao trazer Boris Casoy para o SBT e assumir um jornalismo opinativo, até então inovador no país. E, vejam só, opinião traz um pessimismo sobre determinados temas. Talvez, na maioria dos temas. E geralmente o foco das críticas de um telejornal está em qual lugar? Claro, do governo central. E olha que Silvio Santos era extremamente próximo de Sarney, então presidente da época, e foco de críticas de 90% dos partidos. Ao fazer essa escolha, Silvio Santos abriu mão do pessimismo dispensável e optou por privilegiar outro tópico de sua famosa “carta de intenções”: imagem diferenciada/personalidade. “Não devemos ter a cara das concorrentes”, dizia. E assim o TJ Brasil se firmou como produto altamente lucrativo e formador de opinião, considerado o principal telejornal de abordagem política no Brasil, de grande repercussão no Congresso Nacional.

Assim como a mundo dá voltas, a televisão segue o mesmo caminho. Em 2011, Silvio Santos trouxe Rachel Sheherazade para trabalhar em rede nacional e apresentar o SBT Brasil. Com o seguinte propósito: reativar as opiniões no jornalismo e formar novamente uma identidade para o jornalismo da casa. O resto todo mundo sabe da história: comentário sobre justiceiro, pressão e veto aos seus comentários por tempo indeterminado que dura até hoje.

 Campanha de 2013 do SBT destacava diferencial do jornalismo da casa: opinião - "(...) também dá liberdade para que nossos jornalistas possam comentar as notícias e dividir sua opinião. Afinal, mais importante do que informar, é poder discutir esses assuntos com você"

Ou seja, Silvio Santos, dessa vez, optou por um caminho inverso: privilegiou o lado empresarial e o pessimismo dispensável, cedendo às pressões, em detrimento de um jornalismo com uma identidade, uma cara própria. E isso trouxe, obviamente, resultados péssimos para esse setor: impeachment passando de liso na votação na Câmara, momento mais histórico do Brasil nos últimos 25 anos sendo tratado em pequenos plantões. Na votação do Senado, semana passada, se Renan Calheiros quisesse enrolar mais uns 20 minutos falando, o Primeiro Impacto não iria mostrar o resultado e mais essa votação iria passar batido. Comentários? Só o de Kennedy Alencar, ele pode. Rachel e Joseval calados e o restante dos comentaristas, muitos históricos da casa, todos foram demitidos, sendo boa parte absorvidos na TV Gazeta.

Sempre quando escrevo sobre o tema, me lembram da questão da possível “dívida de gratidão” da família Abravanel com Lula e Dilma com o caso do banco Pan Americano. Mas uma coisa não deveria se misturar com outra. Lembra até um pouco as cobranças de Lula a Rodrigo Janot e outros nos grampos de Curitiba, exigindo que eles atuassem, em suas funções independentes, da forma que mais lhe agradasse. E mais: quando trouxeram Rachel Sheherazade da Paraíba para assumir o SBT Brasil, o caso do banco já havia sido solucionado, ou no linguajar econômico, pelo menos equacionado. E, não era preciso ser um mestre da teoria política e do Estado para entender a orientação mais à direita do pensamento da nova jornalista da casa. Portanto, se não quisessem incomodar um governo que se diz de esquerda, que não a colocassem na vaga. O dois pra lá, é sempre bem-vindo, mas o dois pra cá é sempre mais custoso e queima a imagem de todos.

Nunca é demais lembrar: o SBT é a emissora que dedica horas a mostrar um Casamento da Família Real na Inglaterra ou ao enterro de Chaves no México e não dedica 5 minutos a uma votação do impeachment dentro do seu próprio País. A TV do entretenimento, que não faz política e que só vê o jornalismo como “show”, está caindo no conceito da população e será reafirmada mais uma vez neste domingo, infelizmente, diante de milhões de telespectadores, no Troféu Imprensa. Vamos esperar até quando para que "a chave mude de posição" e tenhamos uma identidade própria de novo? Essa bipolaridade de pensamento de Silvio Santos não faz bem.

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