Tribuna SBTpedia: É possível uma parceria SBT-Globo no futebol?, por Gabriel Reis

É possível uma parceria SBT-Globo no futebol?

Por Gabriel Reis* (gabrielviannareis@gmail.com) 


 Na foto, Renato Augusto (à direita, carregando a taça) e outros jogadores do Corinthians comemoram o título brasileiro de 2015. O último torneio de futebol nacional que o SBT exibiu foi o “Paulistão”, em 2003, que também teve o Corinthians como campeão. Foto: Marcos Ribolli/globoesporte.com

Na última terça-feira (03), a TV Globo e o Grupo Bandeirantes de Comunicação anunciaram à imprensa o final de uma parceria que durou quase dez anos. O “Brasileirão 2016”, maior competição de futebol nacional, não será mais transmitido pela TV Bandeirantes, que o faz desde 2007. Abaixo reproduzimos a nota à imprensa distribuída pela assessoria das duas emissoras.

“Durante as últimas dez temporadas, Band e Globo caminharam lado a lado na exibição do Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A, com mútuos benefícios e em perfeita sintonia.

Contudo, em que pese o enorme esforço de ambas as empresas para viabilizarem a continuidade da exposição conjunta dessa competição, o agravamento da crise econômica impediu a Band de prosseguir com esse licenciamento, a partir da temporada 2016. 

Globo e Band reiteram que essa decisão foi tomada em comum acordo e dentro do mais elevado espírito de cooperação que caracteriza seu relacionamento de muitas décadas e que prossegue em outros eventos esportivos e institucionais.”


Antes da desistência do “Brasileirão”, a Band, nos últimos três anos, já havia aberto mão da “Copa do Brasil”, da “Série B” do “Brasileirão” e da “Copa Sul-Americana”; além de ter anunciado a desistência do “Campeonato Carioca” (no início do ano) e voltado atrás em seguida. Sobre os campeonatos ainda em andamento, frutos de sublicenciamentos feitos junto à TV Globo (assim como todos os outros torneios citados anteriormente), o que consta é que eles seriam transmitidos até o final de suas respectivas competições, mas nada é dito sobre a continuidade de transmissão nos próximos anos. São eles: “Campeonato Carioca”, “Campeonato Goiano”, “Campeonato Paulista”, “Campeonato Paranaense” e “Liga dos Campeões da Europa”. No entanto, não me parece fazer muito sentido investir em quatro estaduais de menor expressão e que demandam a produção de quatro jogos por horário (um por campeonato) e abrir mão do “Brasileirão”. O caminho deve ser a desistência, talvez ainda não anunciada, porque até ontem, todos esses torneios ainda estavam em andamento. 

O caso da “Liga dos Campeões” é um pouco diferente dos demais. Apesar de ser um sublicenciamento da TV Globo, a Band transmite sozinha na TV aberta a grande maioria dos jogos (quinze dos vinte e dois jogos, além da “Supercopa da Europa”), o que a faz ter índices de audiência altíssimos. A média da atual temporada da “Liga dos Campeões” na Band é de 6,68. Na emissora, apenas o “Masterchef” possui índices superiores. No entanto, não foi anunciada a renovação para a próxima temporada, e com a diminuição de investimentos no setor, não há como não cogitar essa possibilidade.

Abaixo listarei como poderia funcionar uma parceria SBT-Globo no futebol. Listarei as possibilidades para três campeonatos: o “Brasileirão”, torneio mais importante dos finais de semana; a “Copa do Brasil”, torneio nacional mais importante do meio de semana; e a “Liga dos Campeões”, torneio mais importante do futebol europeu.

BRASILEIRÃO

Preferência na escolha de jogos
Atualmente a Globo obriga a emissora sublicenciada a exibir os mesmos jogos escolhidos por ela, nos mesmos horários. São dois jogos por rodada, na maioria dos casos, exibidos para as cidades onde o jogo não é realizado. Um contrato nesses moldes não interessaria ao SBT, já que a audiência tende a se concentrar na TV Globo, deixando índices muitos baixos para a emissora sublicenciada. No último “Campeonato Brasileiro”, com essa divisão de jogos, a Globo fechou com 18,02 pontos de média e Band com apenas 3,85 (Os índices rodada a rodada podem ser vistos no portal “Virando o Jogo”.

O que pode ser feito é um sublicenciamento de uma ou duas partidas exclusivas em TV aberta para o SBT. Logicamente não poderiam ser as principais escolhas da rodada, que permaneceriam com a Globo, mas poderia ser feito algum acordo que envolvesse algum jogo a partir da terceira escolha de preferência. Cada rodada do “Brasileirão” tem dez jogos, há muitos jogos importantes além dos dois principais.

Vale lembrar que o Grupo Globo já possui acordos similares em outros campeonatos. Na “Liga dos Campeões”, a maioria dos jogos é exclusiva da Band na TV aberta (como já falamos) e na TV fechada, o FOX Sports exibe um jogo por rodada da “Copa do Brasil” com exclusividade, em um acordo fechado com o SporTV que envolve também a cessão de jogos da “Copa Libertadores” para o canal de esportes do Grupo Globo.

Horário
É fundamental que o SBT, ao escolher seu jogo, possa também escolher o horário em que ele será exibido. Toda emissora que transmite qualquer campeonato no Brasil tem esse direito. É importante que esse direito seja garantido também no contrato de sublicenciamento junto a Globo. Não adianta o SBT transmitir um jogo de menor importância no mesmo horário em que a Globo faz seus jogos.

As possibilidades de horário que enxergo para o SBT são:
- Sábado, entre 14h15 e 19h45: a possibilidade aqui seria reduzir a duração do “Programa Raul” ou do “Chaves”. Ambos possuem média de audiência baixa para os padrões da emissora. “Raul Gil” fechou o mês de abril com 5,68 de média e “Chaves” (nesse horário) com apenas 4,96. Essa exibição de “Chaves” perde com constância para a Record e “Raul Gil” vence, eventualmente, e com dificuldade, mesmo sem enfrentar uma concorrência mais forte (concorre com reprises de filmes, desenhos e realities).

- Sábado, entre 20h30 e 23h00: a possibilidade aqui seria a ocupação do horário hoje ocupado por “Esquadrão da Moda” e a faixa de realities gastronômicos (“BBQ Brasil”, “Bake Off Brasil” e “Hell´s Kitchen”). O “Esquadrão” é um programa de temporada, que se desgasta a medida que não recebe folgas em sua exibição na grade de programação. A média de abril foi de 6,24. Os realities gastronômicos, apesar de bem produzidos e possuírem um revezamento de temporadas, estão se saturando a medida que novos formatos do gênero estreiam na TV.  O “BBQ Brasil” fechou abril com 6,2 de média. Vale lembrar que o “Brasileirão” não impediria a exibição definitiva desses programas, já que o campeonato só ocuparia essa faixa durante sete meses do ano (restariam cinco meses livres). O que ocorreria seria uma exibição por temporada (que já é praxe em reality shows). Outra opção seria o teste desses formatos, às quartas a noite, como opção ao futebol da Globo, já que neste dia o “Programa do Ratinho” tem uma duração maior do que o normal com um desempenho de audiência inferior aos outros dias da semana.

- Terça, 21h45: O “Brasileirão” possui poucos jogos exibidos no meio de semana, quando isso ocorresse, restariam duas opções: terças ou quintas. Como “A Praça é Nossa” está mais consolidada nas quintas, o “Cine Espetacular” (que perde audiência a cada ano) seria sacrificado. O “Programa do Ratinho” seria exibido excepcionalmente após o jogo.

- Observação: Caso chegue em um ponto que não tenhamos jogos exclusivos relevantes para o SBT, a emissora pode optar por retransmitir um ou dois jogos exibidos pela Globo (como a Band faz). Quando se trata de jogos decisivos, há audiência para todos. No “Brasileirão 2015”, Corinthians x São Paulo, primeiro jogo do Corinthians como campeão brasileiro no Itaquerão, rendeu 22,2 pontos à Globo e 6,9 à Band, deixando a Band na vice-liderança. No horário do jogo, o SBT com 6,8 e a Record fechou com 6,3.

COPA DO BRASIL

Preferência na escolha de jogos

A ideia aqui é repetir a mesma lógica do “Brasileirão”, quando a Globo reservaria os melhores jogos para si mesma, mas abriria uma terceira escolha para o SBT. O modelo de transmissão da “Copa do Brasil” tem duas diferenças principais em relação ao “Brasileirão”: não é vendida na modalidade de pay-per-view, o que libera a exibição dos jogos inclusive para a cidade onde são realizados (o que é positivo); e possui a transmissão na TV paga de emissoras que não pertencem ao Grupo Globo (ESPN e FOX Sports). Esse último fator preocupa, pois o FOX Sports tem direito a jogo exclusivo por rodada, resta saber se essa exclusividade é válida somente para a TV paga ou se esse jogo também seria vetado ao SBT. De qualquer jeito, o número de jogos por rodada na “Copa do Brasil” é enorme. São pelo menos oito jogos por rodada até a fase oitavas de final, com a participação de pelo menos seis clubes “grandes” na competição.

Horário

Como citado anteriormente quando falei sobre a transmissão do “Brasileirão”, o horário de meio de semana que enxergo como viável seria terça, 21h45.

LIGA DOS CAMPEÕES DA EUROPA

Preferência na escolha de jogos

O contrato entre TV Globo e UEFA dá a emissora carioca e à seu sublicenciado o direito de exibir uma partida por semana, às quartas-feiras, além da “Supercopa da Europa” e de sete escolhas extras pontuais. Neste ano, por alguma razão não divulgada, a TV Globo e a Band fizeram uso de apenas cinco escolhas extras. Por parte da Globo, acredito ter sido por desinteresse, já que ela vai transmitir apenas sete dos vinte e cinco jogos que poderia fazer. Em relação a Band, não duvido que tenha tido alguma razão financeira pela desistência (dada a situação atual).

Horário

Aqui não há escolha por parte da emissora. Todos os jogos da “Liga dos Campeões”, a exceção dos ocorridos no Leste Europeu (que dificilmente passam em TV aberta), são exibidos às 20h45 (horário europeu central). No Brasil, isso significa que os jogos começam às 15h45, 16h45 ou 17h45, dependendo da época do ano. Isso, em termos de grade de programação, significa que o SBT teria que abrir mão de exibir, durante 25 dias do dia do ano, duas de suas novelas mexicanas.

Admito que as novelas mexicanas se encontram em grande fase de audiência. No entanto, o SBT as exibe de forma demasiada. São 4 novelas por dia, muitas deles extremamente reprisadas (como “A Usurpadora” e “Maria do Bairro”). Além desse ponto, devemos esclarecer que a presença da “Liga dos Campeões” não significa um abandono das novelas estrangeiras. Somente duas delas sairão do ar 25 vezes, ao longo de um ano inteiro.

É válido destacar também a questão da audiência: até o momento a Band exibiu vinte e dois jogos nessa temporada: vinte e um pela “Liga” e um pela “Supercopa da Europa”, faltando exibir apenas a final da competição. Desses vinte e dois, quinze (mais de dois terços) venceram ou empataram tecnicamente com o SBT. É fato que são índices respeitáveis e que hoje colocam a Band diversas vezes na vice-liderança.
 
Em 2015, mesmo em transmissão simultânea com a Globo, a final da “Liga dos Campeões” marcou 7,6 pontos de média na Band, garantindo a vice-liderança no horário. A final deste ano será realizada no dia 28 de maio. Foto: UEFA

Por último, também devemos destacar que tiveram nove jogos da “Liga dos Campeões da Europa” que poderiam ter sido exibidos em TV aberta nessa temporada e não foram. Esses jogos (ocorridos às terças-feiras) eram exibidos pelo Esporte Interativo até o final da temporada 2014/15 e nessa temporada não tiveram exibição em TV aberta. O Esporte Interativo comprou os direitos da “Liga” apenas em TV fechada e a TV Globo não incluiu esses jogos em seu pacote. Com a “Liga dos Campeões” provando seu potencial de audiência, não há motivo para esses jogos serem privados de exibição na TV aberta.

O SBT está diante de uma oportunidade de diversificar sua grade de programação, conquistar uma audiência e um segmento importantes e ampliar seu faturamento. Além disso, pode retomar uma tradição esportiva, que ao contrário do que muitos pensam, esteve muito presente na história da emissora, que já transmitiu, dentre outras competições: quatro edições da “Copa do Mundo”, três “Olimpíadas” e quatro edições da “Copa do Brasil”.

Em relação a TV Globo será uma oportunidade de não perder a receita advinda desse sublicenciamento, justamente em um momento de crise econômica nacional em uma época que o Grupo Globo enfrenta forte concorrência da Turner/Esporte Interativo para a compra dos direitos do “Brasileirão” a partir de 2019, tendo que assinar novos compromissos mais caros com diversos clubes do país.

*É graduado em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Escola de Comunicação da UFRJ. Teve passagens pela TV Boas Novas e pelos canais Esporte Interativo, onde foi coordenador de programação. Atualmente escreve artigos de opinião às segundas-feiras no “SBTpedia”

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