Tribuna SBTpedia: Patricia Abravanel e o problema da reputação, por Rafael Fialho

Patrícia Abravanel e o problema da reputação

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

As duas últimas semanas foram agitadas para os Abravanel. No domingo, dia 8, Patricia disse que não considerava a homossexualidade algo normal, o que repercutiu muito mal nas redes sociais, com direito até de post do sobrinho, Tiago, posicionando-se contrário à atitude da tia. Na sexta, eis que surge uma pesquisa segundo a qual Silvio seria a personalidade mais admirada no país. Já no domingo seguinte, o SBT exibiu a edição do Programa Silvio Santos em que a filha número quatro trocou de lugar com o pai e apresentou o Jogo dos Pontinhos, algo bem representativo da passagem de bastão em curso desde 2011.

Para ler mais sobre o processo de sucessão de Silvio a Patricia, clique aqui e aqui.


Embora não pareça, esses acontecimentos estão ligados a uma questão central: a reputação. Patricia está construindo uma imagem televisiva que, ao mesmo tempo, é privilegiada e de alto risco. Ela já nasce como apresentadora gozando de expressiva popularidade herdada do pai e tem espaços na grade de uma rede de TV muito querida. Mas cabe a ela, somente a ela, manter esse carinho e lutar para ser “um pouco Silvio Santos”, tarefa difícil para qualquer um.

 Patricia em atuação no Programa Silvio Santos. Reprodução/Caras.

Por isso, declarações como a do dia 8 devem ser evitadas, já que ela ainda não chegou nem perto da aceitação que o pai e muitos artistas do SBT têm; está no caminho, mas ainda não chegou lá. A efeito de comparação, basta assistirmos a qualquer edição do programa para vermos Silvio disparar colocações tão ou mais preconceituosas, mas que não repercutem negativamente porque ele já alcançou o topo da reputação e do reconhecimento do público – algo que ajuda a filha diretamente. Contudo, há que se destacar que, se de um lado a opinião foi considerada homofóbica por uma parcela da audiência, outra parte do público aplaudiu a apresentadora, como se ela representasse um discurso conservador que parece agradar quem assiste ao SBT. Ou seja, há perdas e ganhos, mas convenhamos que uma apresentadora iniciante não pode se dar ao luxo de perder nada, não é mesmo?
Ainda sobre o Jogo dos Pontinhos, é preciso que sejam tomados alguns cuidados e o quadro volte à sua fórmula original: falar nada com coisa nenhuma. Há algum tempo Silvio tem investido na discussão de questões polêmicas e espinhosas, o que descaracteriza a leveza da proposta e abre espaço para episódios como esse e para falas como de Carlinhos Aguiar, que tem passado do ponto em várias ocasiões com declarações agressivas e desnecessárias. 

A busca pela reputação do pai alcançou o ápice no último domingo, quando a pupila substituiu o mestre. Diferente do esperado, a edição não foi feita para consertar o estrago feito por Patricia, já que a gravação ocorrera antes da polêmica. Alardeada pelas ótimas chamadas exibidas pelo SBT, a estratégia gerou não só buzz positivo como levou o canal à liderança de audiência. Mesmo assim, foi uma ótima sacada num péssimo momento, já que o sucesso poderia ter sido ainda maior se a imagem da apresentadora não estivesse desgastada tão recentemente.


Chamada do Programa Silvio Santos deste domingo.

Porém, mais do que números, o programa foi marcante nem tanto pela substituição de Silvio (já que, na década de 80, Gugu já ocupava o lugar do dono do SBT em alguns programas), mas por trazer de volta um clima que estava de certa forma esquecido nos auditórios do canal. O clima de bagunça e improviso ficou evidente, podendo ser notado, por exemplo, pela movimentação no palco e pelo barulho incomum da plateia. Se já há algum tempo as risadas são colocadas por meio de gravações, neste domingo era possível ouvir um burburinho gostoso entre as colegas de trabalho. Também no clima de “vai como sai”, Patricia soltou o cabelo e se arrumou no ar, e a produção levou uma foto de Silvio com Livia Andrade na hora, por exemplo.

Para quem foi pega de surpresa, a filha do dono se saiu bem: fez piadinhas maliciosas, se divertiu, brincou com a demora do pai em escrever e com sua letra, deu choque nos artistas, se atrapalhou e foi espontânea – o que deixou Silvio Santos visivelmente feliz, como seu sorriso denunciava. Ela só precisa assumir de fato o seu posto de sucessora do pai, e não ficar reclamando como fez. Se o papel de menina mimada é apenas um personagem, talvez seja necessário maneirar o tom. No último Teleton, por exemplo, Patricia se expôs tanto que ofuscou a irmã, Silvia, que mais tarde disse ter sido “oprimida” (colocação também dispensável). A construção de Patricia enquanto apresentadora é tão clara e honesta, entretanto, que até Lívia Andrade fez piada com o fato de ela ficar balançando de um lado para o outro no ar (a falha na postura corporal manteve-se no Máquina da Fama de anteontem).

Os fatos recentes envolvendo Silvio Santos e sua mais nova empreitada televisiva mostram um projeto de sucessão a longo prazo e que ganha contornos cada vez mais interessantes. Os esforços são válidos, mas ainda falta muito para Patricia Abravanel figurar, por exemplo, na lista das celebridades mais admiradas do Brasil. Até lá, muita coisa ainda precisa ser feita. A criatura ainda não superou seu criador.

*Jornalista, Rafael Fialho é doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo, tendo se dedicado a pesquisas sobre os SBTistas, Silvio Santos e sobre a interação da emissora com seu público a partir das vinhetas. Atualmente pesquisa a tematização da violência contra a mulher no programa Casos de Família. Escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com    

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