Tribuna SBTpedia: Análise de uma possível exibição da 'Liga dos Campeões' pelo SBT, por Gabriel Reis

Análise de uma possível exibição da “Liga dos Campeões” pelo SBT

Por Gabriel Reis* (gabrielviannareis@gmail.com)

 Imagem: UEFA

Na última quarta-feira (15) uma das notícias mais comentadas do meio televisivo foi dada pela coluna de Flávio Ricco e repercutida por diversos outros portais, como o “Natelinha”, o “Blog do Vannucci” e o próprio “SBTpedia”. A manchete do jornalista foi: “Volta do futebol no SBT passa a depender de Silvio Santos”. O Comitê Artístico da emissora teria se reunido no dia anterior para discutir uma possível parceria com a TV Globo para transmissão de torneios de futebol como o “Brasileirão” e a “Liga dos Campeões da Europa”.

Ao longo da semana diversos sites repercutiram uma possível volta do SBT às transmissões esportivas. Na foto, as manchetes das notícias publicadas pelo “Natelinha” e pelo “Blog do Vannucci”.

A informação publicada na quarta-feira foi apenas mais uma de uma sequência de outras notícias que envolveram o mercado esportivo na TV aberta brasileira desde o início de maio e que acabaram por citar o SBT direta ou indiretamente:

- No dia 03 de maio, Band e Globo emitiram nota oficial declarando que o “Campeonato Brasileiro 2016” não seria mais transmitido pela emissora paulista (reproduzimos a nota aqui no “Tribuna SBTpedia”);

- Logo na sequência inúmeras reportagens sobre para qual emissora poderiam ir os direitos anteriormente pertencentes a Band começaram a surgir. Uma das primeiras foi divulgada no “Blog do Ohata”, no dia 05 de maio: “Por que a Globo precisa de um concorrente para transmitir futebol no Brasil” (leia aqui);

- No dia 06 junho, o “Natelinha” e o “Blogdo Ohata” divulgaram que a Band não havia renovado o contrato para a transmissão dos “Mundiais da FIFA” e da “Liga dos Campeões” para a próxima temporada;

- No dia 10 de junho, o “Natelinha” divulgou que a Globo havia oferecido informalmente a “Liga dos Campeões” ao SBT. A reportagem citou um comunicado da própria Central Globo de Comunicação: “Ainda não formalizamos com a BAND o futuro da Champions League, mas já estamos conversando informalmente com outros interessados".

Com o aumento das especulações, vamos analisar ponto a ponto como essa cobertura poderia se dar no SBT, tendo como base o acordo Globo-Band que estava em vigência até o final da última temporada:

DIVISÃO DE JOGOS COM A GLOBO

O contrato entre TV Globo e UEFA dá a emissora carioca e à seu sublicenciado o direito de exibir uma partida por semana, às quartas-feiras, além da “Supercopa da Europa” e de sete escolhas extras pontuais. Neste ano, por alguma razão não divulgada, a TV Globo e a Band fizeram uso de apenas cinco escolhas extras. Por parte da Globo, acredito ter sido por desinteresse, já que ela transmitiu apenas oito dos vinte e cinco jogos que poderia fazer (mesmo número transmitido em outros anos). Em relação a Band, não duvido que tenha tido alguma razão financeira pela desistência (dada a situação atual). Resumidamente, neste ano o contrato GLOBO-UEFA-BAND envolveu a transmissão de vinte e três jogos ao vivo, sendo quinze deles com exclusividade da Band na TV aberta.

Um dos pontos que sempre impediu um acordo entre SBT e Globo era a falta de autonomia que a Globo dava ao seu sublicenciado para escolha das partidas que esse transmitiria. Aqui, é bom ressaltar, que esse problema é, em grande parte, solucionado. O SBT teria a exclusividade na TV aberta em aproximadamente dois terços dos jogos, podendo escolher o jogo que quisesse no dia de sua exibição exclusiva. O fato da transmissão também ser feita com o aval da Globo, impediria o que ocorreu em 2003 na disputa pelos direitos do “Campeonato Paulista”: encarecimento dos direitos de transmissão, problemas judiciais e fuga de patrocinadores.

AUDIÊNCIA

Dos vinte e três jogos exibidos ano passado, a Band fechou com 6,7 pontos de média. Em confrontos com o SBT, venceu ou empatou tecnicamente em quinze oportunidades (incluindo três vezes em jogos divididos com a Globo). Abaixo a tabela completa com a audiência de cada jogo.

A tabela foi montada através de múltiplas fontes: assessoria de imprensa da própria Band, o site “Bastidores da TV”, o “Portal Mídia e Esporte” e o site “Esporte e Mídia”. Em azul, os quinze jogos em que a Band venceu ou empatou tecnicamente com o SBT. Em vermelho os jogos onde foi derrotada

Aqui também é necessário pontuar uma vantagem da “Liga dos Campeões” sobre os campeonatos nacionais, como o “Brasileirão”. Como a Globo só transmite a “Liga” em sua fase final, o telespectador tende a trocar menos a canal para a emissora carioca nos jogos divididos. Isso fica claro quando analisamos os números do IBOPE. Na “Liga dos Campeões” a audiência da Band representa 51% da audiência da Globo (6,7 a 13,1 na média geral da temporada passada, como vimos acima). No “Brasileirão” a situação muda totalmente de figura: esse índice cai para apenas 25% (4,6 a 18,0 na média geral da última temporada, segundo dados retirados do portal “Virando o Jogo”). A teoria de que a Globo “engole” a audiência das emissoras adversárias quando exibe a mesma atração não é tão válida no caso da “Champions”.

HORÁRIO

Todos os jogos da “Liga dos Campeões”, a exceção dos ocorridos no Leste Europeu (que dificilmente passam em TV aberta), são exibidos às 20h45 (horário europeu central). No Brasil, isso significa que os jogos começam às 15h45, 16h45 ou 17h45, dependendo da época do ano. Pelo número baixo de transmissões ao longo do ano (e por elas se darem de forma espaçada), é válido ressaltar o baixo impacto que a “Liga dos Campeões” teria no atual público do SBT no horário de sua exibição. Em geral, transmissões esportivas demandam um espaço de grade maior. A RedeTV, por exemplo, teve que abrir quatro horas e meia de sua grade aos sábados após sua volta ao esporte. A Record, em Jogos Olímpicos e Pan-Americanos já chegou a quase dez horas de transmissão diária algumas vezes. No caso da “Liga dos Campeões” as transmissões se dão de forma gradual ao longo do ano. Serão vinte e três dias (dos trezentos e sessenta e cinco de um ano) em que o SBT cederá pouco mais de duas horas de sua grade programação para a competição da UEFA, não afetando a exibição regular das novelas mexicanas que vem mantendo bons índices nas tardes da emissora (entre 13 e 16 de maio, “A Mentira, “Mar de Amor”, “Abismo de Paixão” e “Meu Coração é Teu” fecharam com 7,3 de média).

EQUIPE

Pela ausência de um departamento de esportes este é o ponto mais aberto de uma possível cobertura do SBT. Acredito que, inicialmente, o primeiro passo é listar quais profissionais da emissora já trabalham com esporte ou poderiam ser úteis em uma possível cobertura internacional. Bruno Vicari, comentarista de esportes do SBT, é um dos principais apresentadores da ESPN, e poderia ser útil numa eventual cobertura da “Champions”, assim como o competente time de correspondentes internacionais que o SBT já possui na Europa, composto por: Sérgio Utsch (Inglaterra), Élcio Ramalho (França), Guilherme Aquino (Itália) e Anna Ferreira (Vaticano). Vale destacar que a ESPN, que possui o maior pacote de futebol internacional da TV brasileira, realiza sua cobertura europeia com apenas dois repórteres fixos: João Castelo Branco (Inglaterra) e Thiago Arantes (Espanha). Mesmo número de repórteres que a Band enviou para cobrir a Euro 2016 (Sônia Blota e Felipe Kieling). Indo para as emissoras regionais do SBT, podemos citar os profissionais envolvidos no “SBT Esporte Rio” (incluindo o narrador José Carlos Araújo, narrador mais tradicional do rádio no Rio de Janeiro) e no “Alterosa Esporte” (incluindo o ex-jogador Dadá Maravilha, que já comentou jogos na Globo Minas).

Ainda há uma série de outras opções de menor custo como dar espaço a profissionais consagrados na web, mas que não tiveram experiência em televisão (como o jornalista Ricardo Perrone); o convite a um profissional da TV paga, que poderia participar da cobertura do SBT sem se desvincular de seu contrato na TV fechada, como fez Paulo Soares, da ESPN, no SBT, em 1998 (Copa do Mundo) e em 2003 (Copa Ouro); ficar atento a possíveis demissões no Grupo Bandeirantes, que possivelmente reduzirá sua equipe de esportes após as Olimpíadas; dar espaço a profissionais experientes, hoje fora da TV, como Luiz Alfredo e Éder Luiz.


A histórica final entre Grêmio e Corinthians pela Copa do Brasil 1995 foi narrada por Luiz Alfredo. O jogo marcou 42 pontos de média e é a segunda maior audiência do SBT na história

CUSTOS E RECEITAS

Futebol é um produto caro, mas que também rende altas cotas de patrocínio. Se nos últimos anos o “Brasileirão” bateu a casa do bilhão, as cotas de patrocínio do futebol global também o fizeram. A importância é tanta que a venda das cotas do “Futebol 2016” foi anunciada no “Jornal Nacional” (como pode ser visto neste link). 

O valor da “Liga dos Campeões” vigente para a temporada 2014/15 para a exibição em TV aberta foi de aproximadamente um milhão de reais por jogo (valores da época, sem variação cambial ou inflacionária). Segundo o “Blog do Cosme Rímoli”, o valor do sublicenciamento da Globo pelo “Brasileirão” é 20% do valor total cobrado. Se a mesma lógica for seguida com a “Liga dos Campeões”, cada jogo sairia por R$ 200 mil. 

O pacote, é importante salientar, inclui não somente os jogos exibidos ao vivo, mas o envio das imagens de todos os outros jogos do torneio (para exibição de melhores momentos em programas da emissora), a exibição do jogo ao vivo via internet (e não somente por TV aberta), a transmissão dos sorteios da competição, a exibição de um programa especial sobre a “Liga dos Campeões” a cada dia de jogo (que na Band e no Esporte Interativo é chamado de “O Melhor da Liga”) e o envio de vinte e seis programas sobre a “Champions” que são produzidos pela própria UEFA (na Band é chamado de “Magazine da Liga” e no Esporte Interativo de “De Olho na Liga”). Todos esses conteúdos são importantes para a valorização da competição, para o aumento da cobertura e para uma maior entrega comercial para os patrocinadores. 

A distribuição internacional da UEFA sobre os seus produtos é importantíssima também para uma redução de custos. O sinal internacional é todo produzido pela entidade europeia, o que reduz a quase zero os custos operacionais da transmissão, além de entregar uma série de outros conteúdos já listados acima (todos os jogos da competição na íntegra para edição de melhores momentos, programas especiais, etc.), reduzindo também os custos que o SBT eventualmente teria para realizar a cobertura jornalística de outros jogos que não transmitisse ao vivo. 

No entanto, também há desvantagens no contrato da UEFA. A entidade veda que as emissoras exibam qualquer ação de merchandising, inserção de voz, vídeo ou imagem dentro da transmissão, além de obrigar todas as emissoras do planeta a rodarem vinhetas dos próprios patrocinadores mundiais da UEFA (Heineken e Lay´s). Esse tipo de restrição impede a venda de alguns formatos comerciais, como os famosos “foguetes”, que a Globo exibe com frequência, ou a inserção gráfica de um patrocinador para sinalizar que houve gol em um outro jogo (que substituiu a famosa “Globolinha” nesse ano). Também podem dificultar a venda de uma cota de patrocínio para concorrentes de Heneiken e Lay´s, já que poderia haver um conflito de interesses entre os patrocinadores do SBT e da UEFA, quando o praxe nas transmissões esportivas é a exclusividade por segmento, isto é, apenas uma cervejaria anuncia no futebol da Globo (SKOL), uma companhia telefônica (VIVO), uma loja de varejo (Casas Bahia), etc. 

Apesar de todas as restrições acima, há opções de comercialização do torneio. A UEFA não veda a venda de cotas de patrocínio das próprias emissoras que envolvam comerciais de 30 segundos e até mesmo inserções em programas esportivos que cubram o torneio. Além disso, a própria Heneiken opta por fazer acordos locais com as emissoras brasileiras (que vão além do patrocínio mundial com a UEFA): este ano a empresa comprou cotas patrocínio no Esporte Interativo e até na ESPN, que hoje cobre o torneio apenas jornalisticamente.

Nesse ano a Globo modernizou os antigos “foguetes”, que existem desde os tempos de rádio. Além da vinheta de aproximadamente cinco segundos com o slogan do anunciante, a tela onde o jogo é exibido é diminuída e o anunciante fica em destaque. Tal medida é proibida pela UEFA. Imagem: Reprodução TV Globo

Finalizando, para termos uma melhor noção de como poderia ser montado e quais valores poderiam ser cobrados num pacote comercial da competição, listarei abaixo parte do pacote comercial do futebol que a Band montou para 2015, que incluía, dentro outros eventos, a Liga dos Campeões.

Um dos destaques do plano comercial da Band para 2015, que pode ser visto logo na capa, é a integração com as diversas plataformas do Grupo Bandeirantes. Apesar de não possuir canais na TV paga, o SBT pode usar a “Liga dos Campeões” para comercialização de patrocínios em seu site. A UEFA permite que o jogo que é exibido na TV seja também exibido online. O que parece ser algo trivial, não é tão comum no Brasil: a Globo, por exemplo, impede que a RedeTV faça isso nas transmissões do “Brasileirão – Série B”.

A cobertura ao longo da programação também valoriza as entregas comerciais. Hoje o SBT possui três noticiários ao vivo que cobrem esporte (“Primeiro Impacto”, “SBT Brasil” e “Jornal do SBT”) e poderia ampliar essa cobertura com a “Liga dos Campeões da Europa”

Cada cota nacional para a “Liga dos Campeões” tinha um custo um pouco acima de R$ 23 milhões e incluía dois comerciais de 30 segundos por jogo, além de dois comerciais por cada exibição do “Melhor da Liga” e da “Magazine da Liga”

Apesar de tudo continuar ainda no campo da especulação, esse artigo teve como objetivo analisar como seria uma possível cobertura da “Liga dos Campeões da Europa” no SBT. Como leitura complementar, nesse mesmo espaço já foram publicados outros artigos sobre os temas “SBT”, “futebol” e “esporte” e podem ser acessados nos links abaixo:

- “Futebol no SBT. Por quê não?” (12/10/2015): http://www.sbtpedia.com.br/2015/10/tribuna-sbtpedia-futebol-no-sbt-por-que.html
 
- “É possível uma parceria SBT-Globo no futebol (09/05/2016): http://www.sbtpedia.com.br/2016/05/tribuna-sbtpedia-e-possivel-uma.html

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*É graduado em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Escola de Comunicação da UFRJ. Teve passagens pela TV Boas Novas e pelos canais Esporte Interativo, onde foi coordenador de programação. Atualmente escreve artigos de opinião às segundas-feiras no “SBTpedia”

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