Tribuna SBTpedia: Eleições no SBT: como seria a cobertura eleitoral dos seus sonhos?, por Gabriel Reis

Eleições no SBT: como seria a cobertura eleitoral dos seus sonhos?

Por Gabriel Reis* (gabrielviannareis@gmail.com)

Logomarca da cobertura eleitoral do SBT em 2014. Imagem: SBT

Em 02 de outubro de 2016, 5570 municípios brasileiros votarão para prefeito e vereador. Apesar dos mais de quatro meses para a votação do 1º turno, os impactos na cobertura eleitoral das emissoras começam bem antes, não só por planejamento das próprias tevês, mas também por imposição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo a lei eleitoral, a partir do dia 30 de junho “é vedado às emissoras de rádio e de televisão transmitir programa apresentado ou comentado por pré-candidato”; partir do dia 1º julho “não será veiculada a propaganda partidária gratuita prevista na Lei nº 9.096/1995 nem será permitido nenhum tipo de propaganda política paga no rádio e na televisão”; e a partir de 26 de agosto começará a ser exibido o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Os pontos anteriormente citados são importantes, pois qualquer “escorregão” do SBT pode resultar em perda de credibilidade e ferimento à legislação eleitoral vigente (como na entrevista de Lula e Fernando Haddad ao “Programa do Ratinho”, em 31 de maio de 2012).

Poucos sabem, mas o primeiro debate eleitoral ocorrido na televisão brasileira aconteceu no SBT, em 1982, dentro do Programa Ferreira Neto. Na época, os brasileiros votavam pela primeira vez para governador após a abertura política ocorrida em 1979. Franco Montoro (PMDB) e Reynaldo de Barros (PDS) disputavam o governo paulista e debateram no SBT.

O tão famoso pioneirismo da Band, se deu com o primeiro debate entre presidenciáveis ocorrido em 1989. Mas a fama da emissora de Johnny Saad tem explicação. A Band tem um trabalho sólido em jornalismo e em cobertura eleitoral que perdura até os dias de hoje. Tem como hábito, por exemplo, ser primeira a realizar um debate entre os candidatos, seja em que eleição for: municipal, estadual ou nacional. Esse trabalho a longo prazo é algo que o SBT perdeu com o tempo, juntamente com a cobertura jornalística, que após 1997, só veio a renascer em 2005.

Apesar do renascimento em 2005 com o SBT Brasil, a contratação de Ana Paula Padrão e, posteriormente, a vinda de outros nomes como Carlos Nascimento, Rodolpho Gamberini e Roberto Cabrini, a cobertura eleitoral do SBT permanece muito aquém de outras televisões abertas, até mesmo de redes menores, como a RedeTV!.

Em 2006 a cobertura foi tímida: se restringiu a entrevistas dos candidatos a presidente no “SBT Brasil” e a apenas um debate entre Lula e Geraldo Alckmin, no segundo turno, exibido às 21h10, tomando o lugar do “SBT Brasil” naquele dia. A cobertura da apuração ficou restritas a pequenos boletins e a um especial no final do domingo. Quase nulo, se compararmos as amplas coberturas que vemos hoje em Band, Globo e RedeTV.

Em 2008 sequer tivemos a realização de um debate, assim como em 2010. Serra e Dilma se encontraram em todas as grandes tevês abertas do país, menos no SBT. Em 2012, apenas São Paulo realizou debate e somente no segundo turno, sendo exibido às 18 horas, horário de baixa visibilidade e dentro da faixa local da rede. Em 2014, foram dois debates presidenciais, também ocorridos na faixa das 18h00. Não houve encontro para os governadores de estado.

O que causa estranheza é uma emissora que busca cada vez mais aumentar a credibilidade (e consequentemente o faturamento) de seu jornalismo fazer uma cobertura tão tímida do processo eleitoral. O que vamos propor abaixo são itens que poderiam fazer parte de uma cobertura eleitoral “dos sonhos”:

DEBATES

O encontro entre os candidatos é sempre ponto de destaque em qualquer disputa eleitoral. Apesar dos inúmeros ataques entre si (em entrevistas ou no horário eleitoral), é no debate onde o confronto é feito cara a cara.

A audiência varia de acordo com o clima eleitoral: debates quentes em eleições disputadas geram bons números; debates frios em eleições não disputadas geram baixa audiência. Além desses pontos é preciso cuidar do produto, fazer do debate um hábito, colocá-lo em bom horário e promove-lo dentro da grade. E isso é tudo o que o SBT não faz (como já citamos acima). A Band, por exemplo, apesar de possuir uma média/dia que não chega à metade dos índices do SBT (às vezes fica próximo de terço), possui melhores índices em seus debates eleitorais do que a emissora de Silvio Santos. Listo abaixo os índices de audiência referentes a exibição dos debates realizados entre Aécio Neves e Dilma Rousseff no segundo turno da corrida eleitoral de 2014 nas quatro maiores emissoras do país:

Emissora
IBOPE
Band
11
SBT
9
Record
12
Globo
30
  
O debate da Band liderou durante dois terços de sua exibição e fechou com 11 de média. Para efeito de comparação, o recorde anual do “Pânico na Band” é 8.5; o recorde da última temporada da “Liga dos Campeões” foi 9.3; e a atual edição do “Masterchef” fica em torno de 6 de média.

O debate da Record foi o segundo mais assistido fora da Globo e chegou a 12 pontos de média. Hoje, apenas a novela “Os Dez Mandamentos – Nova Temporada” consegue superar esses índices com regularidade.

Na Globo, a audiência foi superior a média regular do “Jornal Nacional” e a das últimas três novelas das 21h (“Babilônia”, “A Regra do Jogo” e “Velho Chico”).

Mesmo no SBT, onde os índices foram reduzidos (em relação ao que poderia ser feito), os 9 pontos marcados representaram um acréscimo de 20% em relação à média do horário.

TV é hábito, promoção, produção e programação. Mesmo bem cuidados, os debates do SBT são exibidos em horário de menor audiência e em geral pecam pela falta de periodicidade (ambos já citados nesse texto). Para solucionar esses problemas cabe ao SBT tornar a exibição dos debates algo regular em sua grade, tanto no primeiro, quanto no segundo turno, e de forma mais abrangente possível, realizando encontro nas mais diversas capitais. Um melhor horário também é importante. Todas as emissoras (Globo, Record, RedeTV! e Band) exibem seus debates logo após o término da novela das 21h ou no horário nobre do domingo. Cabe ao SBT fazer o mesmo.

Outro ponto que poderia ser incrementado são as regras do confronto. Os tempos pré-determinados e as falas excessivamente marcadas “engessam” o confronto. O SBT até tentou inovar em 2014: a ideia era que cada candidato tivesse uma “porção de tempo” e que o próprio a utilizasse ao longo do debate nas perguntas e respostas. O tempo pré-determinado e “engessado” daria espaço a uma fala mais livre e improvisada. Infelizmente a ideia foi rechaçada por ambos os candidatos, mas cabe a emissora continuar tentando, pois a fórmula, que já é utilizada em outros países, daria mais dinâmica ao debate.

Ancorado por Carlos Nascimento, Dilma Rousseff e Aécio Neves debateram no SBT em 2014. Na foto, uma imagem geral do cenário. Imagem: SBT

ENTREVISTAS

Talvez seja o ponto em que o SBT realiza um melhor trabalho. Mesmo em períodos não-eleitorais são levadas ao ar entrevistas com políticos de destaque no cenário nacional como o presidente interino Michel Temer ou o ex-presidente Lula. Tal trabalho deveria ser fixado na grade, e no período eleitoral, pela extensão da campanha, são válidas uma ou duas entrevistas para cada turno do processo eleitoral.

UTILIZAÇÃO DO CASTING E COBERTURA JORNALÍSTICA

Hoje o SBT possui em seu casting de jornalismo, dentre outros: Carlos Nascimento, Joseval Peixoto, Kennedy Alencar, Roberto Cabrini, Rachel Sheherazade e Hermano Henning. Não há sentido escondê-los em meio a uma cobertura jornalística de um evento tão grande quanto as eleições. No dia da votação do impeachment os únicos dessa lista a aparecerem foram: Kennedy Alencar (depois das 23h) e Roberto Cabrini (depois da meia-noite). Todos eles podem participar de boletins, telejornais, quadros sobre o processo eleitoral, entrevistas, reportagens especiais, apuração dos votos ou cobrindo o dia-a-dia dos candidatos. Tudo o que não pode ser feito é tê-los em seu casting e não utilizá-los.

PESQUISAS ELEITORAIS

Uma das exclusividades da TV Globo sobre as outras emissoras é a encomenda de pesquisas eleitorais. Hoje a TV Globo é a única emissora do Brasil a fazer isso. O fato lhe propicia noticiar em primeira mão uma série de resultados-chave ao longo da toda a campanha eleitoral, tendo como destaque as pesquisas de boca de urna, divulgadas as 17 horas, no dia de cada eleição, quando, excepcionalmente, se interrompe o “Domingão do Faustão” e Globo e Globo News ficam em rede. Os institutos de pesquisa (IBOPE, Datafolha, etc.) atendem a diversos clientes (outros veículos de comunicação, partidos políticos, entidades nacionais de classe, etc) e podem, se solicitados pelo SBT, realizar pesquisas eleitorais para a emissora. O SBT estaria quebrando o atual monopólio global e teria sempre pesquisas para divulgar em primeira mão.

MARCHA DA APURAÇÃO

No dia da eleição, todas as grandes emissoras se dedicam a apuração das urnas. É o momento final de toda a corrida eleitoral, que mobiliza as atenções do país. A Globo se destaca pela exclusividade dos resultados do Boca de Urna (que só depois se propagam pelas outras emissoras) e pela mobilização de seus principais nomes para a cobertura: William Bonner, Alexandre Garcia, Heraldo Pereira, dentre outros. Seria o modelo ideal para o SBT seguir: não é uma cobertura que interfere na grade em demasia, mas interrompe para informar, com qualidade e com notícias novas, muitas delas, em primeira mão ou exclusivas.

Qual seria a cobertura eleitoral “dos seus sonhos”? Deixe a sua sugestão na nossa caixa de comentários!
 
*É graduado em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Escola de Comunicação da UFRJ. Teve passagens pela TV Boas Novas e pelos canais Esporte Interativo, onde foi coordenador de programação. Atualmente escreve artigos de opinião às segundas-feiras no “SBTpedia”

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