Opinião SBTpedia: É possível dar audiência com entretenimento, por José Eustáquio Júnior

É possível dar audiência com entretenimento

Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)


"Vem aí o programa mais alegre do Brasil". Com essas palavras, o apresentador Luís Ricardo anunciou a entrada no ar do Programa Silvio Santos no último domingo (10). Agora Doutor Honoris Causa em Comunicação, o patrão atinge dois dígitos semanalmente com um programa que transita entre atrações musicais, adivinhações de pistas, câmeras escondidas, game-shows comprados, brincadeiras com o auditório e convidados e muita zoação com o elenco do Jogo dos Pontinhos.

O exemplo do Programa Silvio Santos é apenas uma base introdutória para falar o que é verdadeiramente o norte da nossa preocupação: o futuro do Domingo Legal e sua nova fase, que inicia um flerte com o não-entretenimento.

Também no último domingo, o Domingo Legal começou a apresentar suas primeiras “cartadas” seguindo uma linha mais próxima à praticada pelo “Domingo Show”, programa de Geraldo Luís na Record. Assim anunciou no site as atrações do último domingo: “Um cantor com um grave problema no rosto sofreu rejeição na escola e preconceito. No auge de sua carreira, ele pensou em abandonar a parceria com o irmão e desistir de tudo que mais ama fazer. Celso Portiolli vai receber, ao vivo, este cantor e seu irmão para contar toda história no programa”.

Quem assiste ao concorrente sabe que essa é uma típica pauta da Record. Pegar pessoas nem tão famosas (cantor), mas com alguma ligação com famosos (composições que ficaram famosas com cantores como Zezé e Luciano) e explorar alguma dificuldade (a rejeição e/ou preconceito pelo fato do problema no rosto), mesmo que nem seja atual/factual (nos tempos da escola). 

No dia do programa, a atração começou logo de cara com a sombra dos cantores (era uma dupla) no telão, trazendo o ar misterioso do caso que norteou boa parte da atração. Como se divulgava “problema no rosto”, me lembrou muito aquela fase do Ratinho (que ele nem gosta de recordar que fazia mais), em que pessoas com deficiências físicas ficavam escondidas em biombos e demorava dias para serem reveladas ao público. Creio que a intenção nem fosse essa, até porque o tal problema nem era tão visível na atualidade, mas obviamente pegaria mal.

Essa era uma situação anunciada. Recentemente, foi noticiado pela imprensa que o SBT buscou (pagando o triplo) no Domingo Show três profissionais para reforçar o Domingo Legal. Um deles, o diretor de externas e um dos principais nomes da atração, responsável por garimpar essas “histórias”. Será esse um bom caminho para atração?

Muita gente defende o Domingo Legal usando como base o Gugu de 2006-2009, quando quadros de assistencialismo dominaram a atração, com De Volta para Minha Terra, Encontros e Construindo um Sonho sendo responsáveis por grandes picos de audiência. Contudo, vale lembrar, a imensa parte dos fãs da emissora naquela oportunidade eram a favor de mudanças, muito embora semanalmente a atração batesse na casa dos 20 pontos e estivesse retomando a boa fase em audiência. Queríamos entretenimento, diversão, o DNA do SBT. O quadro da Piscina Legal (Piscina de Amido) foi um alento naquela oportunidade. Mas não bastava. Quando Gugu decidiu trocar o SBT pela Record, a campanha nossa era em torno de Celso Portiolli assumir a atração, pois acreditávamos piamente que ele, por sua capacidade e talento, poderia trazer o programa para uma linha mais divertida e alegre.

Além disso, vale ressaltar que o Domingo Legal concorre com o Domingo Show. Quem, em sã consciência, vai deixar de ver o programa do Geraldo Luís, expert nesse tipo de pauta, e migrar para o Domingo Legal adotando a estratégia do conteúdo idêntico? 11 entre 10 diretores de programação diriam que a estratégia mais correta sempre é a contra-programação, ainda mais para um programa que hoje entra no ar em baixa e com o concorrente embalado. Basta ver os números: a atração com nova direção ainda não conseguiu aumentar a audiência e patina na casa dos 5 pontos. Essa semana, inclusive, com essa “pauta bombástica”, deu menos que o Chaves que recebe audiência do poderoso Acelerados.

Outro ponto que merece ser destacado: Celso quer isso mesmo para a carreira? As informações são de que o apresentador sempre foi uma ótima fonte de merchandising, com aceitação grande no mercado. Estimular esse tipo de pauta é um risco desnecessário. Basta ver que o Geraldo Luís, na Record, tem justamente esse problema para contornar por ter a imagem atrelada a pautas sensacionalistas. E sabemos como o SBT valoriza (como toda TV comercial normal, diga-se de passagem) quem é bom nesse quesito. Vale o risco?

Também merece atenção o fato do Celso nunca ter tido uma trajetória baseada nesse tipo de pauta mais densa, pesada, com características mais jornalísticas, popularescas ou sensacionalistas. Basta recordar que sua carreira é repleta de games, realities, ator e redator do Topa Tudo por Dinheiro e programas de auditório como o Tempo de Alegria (grifa-se a última palavra). Apostar em algo novo assim em um momento de transição é algo correto? Não seria melhor valorizar e explorar aquilo que ele sabe fazer de melhor? Não ter como forte determinados gêneros televisivos não é problema. Problema é achar que oferecer isso ao público é o único caminho para o sucesso. E não é!

O entretenimento pode sim dar audiência. Com uma boa capacidade criativa, pode até dar mais do que se imagina. E nenhum programa da TV brasileira tem melhor know how que o Domingo Legal para provar isso. Quantos quadros ao longo da história da atração fizeram história nessa linha? Quantas matérias marcantes não passaram pela atração? Poderia aqui passar horas enumerando-as. Até mesmo o Passa ou Repassa, que virou o novo vilão para muitos, atingiu diversas vezes a liderança quando a atração tinha 4 horas de duração. Óbvio que o excesso é sempre prejudicial, mas extinguir o quadro de uma vez por todas é solução? No último domingo, por exemplo, um Passa ou Repassa com a turma de Carrossel contra atores de A Garota da Moto seria uma baita divulgação para a emissora e de quebra ainda dar um retorno melhor de qualidade ao programa. Programa, aliás, que com apenas duas horas de duração voltou com o TOP 10 da Internet e que tem um sósia no Sabadão chamado “Top Zap”.

Outras emissoras já perceberam o caminho do entretenimento. O “Tamanho Família”, estreia do último domingo da Rede Globo com apresentação de Márcio Garcia, nadou de braçada e liderou merecidamente. No Domingão do Faustão, o quadro “Ding Dong” virou quase presença fixa no início da atração, pelos bons resultados e excelente aceitação nas redes sociais. Quem sabe pagar o triplo por esses profissionais não teria valido mais à pena? Fazer o caminho da Record é o certo para esse momento?

Também, dentro da emissora, o caminho vem sendo o mesmo. Ratinho só conseguiu voltar à grade do SBT e hoje gozar de excepcionais resultados diariamente, quando parou de explorar casos de desgraça alheia. Quadros simples como “Dez ou Mil” ou “Jornal Rational” dão dois dígitos e superam a Record que investe milhões em programas como o da Xuxa ou Batalha dos Cozinheiros. Aos domingos, também temos um outro exemplo: Eliana tem como principal trunfo atualmente as entrevistas externas, sempre com excelente aceitação do público e acaba de gravar mais uma com o jogador Neymar. Tem quadros de apelo emocional? Tem sim. Mas nada pesado e longe de ser algo que norteia a atração como um todo. O fato do programa ser moldado em quadros ajuda nesse processo. O “Beleza Renovada”, por exemplo, pode ser combinado nessa linha para suavizar a temática.

O próprio Domingo Legal tem condições para encontrar esse caminho pelo entretenimento. Um dos mais recentes profissionais que o programa integrou foi Cezar Scarpato, de várias parcerias de sucesso com Celso em game-shows. Recentemente, colocou no ar (por apenas uma edição) o quadro “Preço da Verdade”, com Danilo Gentili e Adriane Galisteu. Foi uma forma boa de entretenimento que também poderia gerar polêmica, mas que demorou muito tempo no ar e não foi bem desenvolvido. No próprio Sabadão, o quadro “Roleta dos Microfones” (uma “leve” inspiração no Ding Dong do Faustão) foi uma boa iniciativa e que agregou bastante. É o caminho, é o que Celso sabe fazer de melhor. Pra que inventar moda?

É bom frisar que isso não representa que sou contra investidas jornalísticas no programa. Claro que não. O factual deve sempre estar presente. Se for algo exclusivo, melhor ainda. Um repórter experiente e acostumado com programas populares, que saiba transitar entre jornalismo denso e entretenimento, seria importante nesse processo. Sempre cito a Silvana Kieling, pela ligação histórica com a atração, mas também devem existir outros profissionais no mercado (casos de Gérson de Souza, Sérgio Frias, só para citar os mais antigos). É fundamental alguém ajudar o Celso nesse tipo de pauta, até para evitar cenas um tanto de vergonha alheia como aquela dele esticando a conversa com a irmã do homem que tentou matar a apresentadora Ana Hickmann.

Sei que o assunto Mundo Disney não pode ficar de fora de pauta. É necessário que o SBT encontre um caminho para a atração para ajustar melhor a grade e o Domingo Legal possa ter condições de concorrer em pé de igualdade com a Record. Se uma mudança de horário não pode ocorrer já, uma mudança de conteúdo é urgente. Cadê os filmes que iriam bombar? Mesmo os longas feitos para TV (Disney Channel) davam resultados melhores e entregavam melhor para o Domingo Legal. Com conteúdo diferenciado e disputa justa, Celso pode muito bem conseguir brigar pela vice-liderança, cuja façanha não seria nenhuma novidade, pois já estava conseguindo até agosto do ano passado, quando veio a drástica alteração no tempo da atração.

No Twitter, fui atacado por ir radicalmente contra a pauta do último domingo. Disseram que eu não tenho a experiência de 20 anos do Celso na televisão. Realmente, não tenho. Sou um telespectador como outro qualquer. Mas posso garantir que sei enumerar passo a passo as várias fases do Domingo Legal, seus quadros e características. E esse caminho de criar um “complexo de Record” na grade dominical do SBT, não acredito ser o melhor para o programa e para o Celso, muito menos combina com as características marcantes daquela que se orgulha em auto-intitular a TV Mais Feliz do Brasil. #QueroomeuDLdevolta. Quem está comigo nessa?

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