Tribuna SBTpedia: SBT e Universal Pictures: um casamento que pode dar certo, por Gabriel Reis

SBT e Universal Pictures: um casamento que pode dar certo

Por Gabriel Reis* (gabrielviannareis@gmail.com)


Este artigo pretende abordar o cenário atual da distribuição de filmes na TV aberta. Para isso, inicialmente, faremos uma retrospectiva desse mercado nos últimos vinte anos, seu apogeu e seu declínio e, por último, analisaremos como o SBT pode agir daqui em diante, sugerindo como possibilidade um acordo com a Universal Pictures.

CINEMA NA TV ABERTA – TÚNEL DO TEMPO

Muitos se questionam sobre a importância da exibição de filmes em televisão aberta e o porquê destes grandes contratos com os estúdios norte-americanos despertarem tanto interesse nas emissoras de televisão. Alguns dados podem nos ajudar a entender isso. 

O primeiro é a baixa penetração de salas no cinema no Brasil. Segundo o Perfil dos Estados e dos Municípios Brasileiros 2014, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apenas 10,4% dos municípios brasileiros possuem sala de cinema. Esse índice em 2001 era ainda menor: 7,5%. Em contrapartida, na mesma pesquisa, a TV aberta atingiu 99,9% dos municípios nacionais (em 2014). 

Voltando ao início deste século, observamos um cenário ainda mais propenso a importância da exibição de filmes em TV aberta: a internet no Brasil ainda era discada ou muito lenta e inexistia o mercado de vídeo on demand, como Youtube e Netflix. Complementarmente, a TV paga ainda engatinhava: em 2003 eram menos de 4 milhões de assinantes, contra os quase 19 milhões atuais. 

Tudo isso tornava a exibição dos grandes sucessos de Hollywood em verdadeiros fenômenos de audiência. No SBT, tivemos, dentre outros exemplos: “O Sexto Sentido” (2002, 29 pontos contra 15 da Globo); “Harry Potter a Pedra Filosofal” (2004, 31 pontos, contra 24 da Globo); e “Striptease” (2000, 32 pontos contra 12 da Globo). Mas vale destacar também os bons desempenhos de outras emissoras. Na Record, “Anaconda”, liderou em 2000, chegando a marcar 31 pontos (derrotando Faustão e Gugu, no auge de “Guerra de Audiência”) e a própria Globo tinha com seus blocksbusters audiências de “novela das 8”: “Shrek” marcou 50 pontos em 2004 e “Titanic”, em 2000, marcou 51 pontos na primeira parte e 54 em seu segundo dia de exibição. Comparativamente, a “novela das 8” exibida no momento em que “Titanic” foi ao ar era “Laços de Família”, que teve média geral de 45 pontos, sendo considerada um grande sucesso.

No anúncio acima, o SBT comemora a audiência do filme “O Sexto Sentido”. Na média geral, a emissora marcou quase o dobro que a TV Globo no horário (29 a 15). Em share atingiu 53%, marcando mais que todas as outras emissoras juntas no horário.

Em razão de toda essa importância, Record, Globo e SBT disputavam “a ferro e fogo” os melhores contratos com os estúdios americanos, para anunciarem junto ao público, em todo início de ano, o seu pacote de filmes. 


No vídeo acima a chamada do “Cinema 2004” no SBT. O slogan fazia jus à realidade: “Simplesmente o melhor”. No pacote, superproduções como “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” e “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Este último, tem em sua exibição em dezembro de 2004, a maior audiência da emissora desde 2004: 31 pontos de média. 

Até o ano de 1997, a grande maioria dos grandes filmes ficavam nas mãos da Globo. O cenário começou a mudar quando o SBT anunciou um contrato de exclusividade com a Disney, que entrou em vigor justamente nesse ano. Foi a partir desse contrato que diversos sucessos surgiram na tela da emissora, não se restringindo somente a filmes. “Disney Cruj”, as exibições do “Oscar” (com maior regularidade), “Popstars”, além de diversos blockbusters da Disney como “O Sexto Sentido” (já citado aqui) foram exibidos pelo SBT. 

O que se passou nos anos seguintes foi uma perda gradativa da força da TV Globo nesse mercado. A Record assinou com a Columbia Pictures, tendo grande audiência com filmes como: “Anaconda” (já citado), “Godzilla” e “A Máscara do Zorro”. O SBT assinou com a Warner, e em seguida com MGM e Paramount Pictures. 

Deslocando-se no tempo para 2003, apenas seis anos depois, o antigo monopólio da Globo se encontrava quebrado. O SBT possuía contrato com Disney, Warner, MGM e Paramount; a Record com a Columbia Pictures; e a Globo com: Universal, FOX e Dreamworks. Se antes a Globo monopolizava os filmes, agora via o SBT com um melhor pacote. 


Para comemorar os novos contratos, o SBT lançou uma chamada em 2000 celebrando a qualidade de conteúdo de seus novos parceiros: Warner e Disney, além da mexicana Televisa e do próprio SBT.

O DECLÍNIO EM AUDIÊNCIA E A NOVA CONFIGURAÇÃO DO MERCADO

No entanto, o que se viu na segunda metade da década de 2000 foi a perda de força dos filmes em TV aberta. A consequência disso foi a perda de interesse de Record e SBT em renovar seus compromissos com os estúdios de Hollywood. 

Em 2004, o filme de maior audiência exibido pelo SBT, foi “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, com 31 pontos de média. Nos anos seguintes o que se viu foi a diminuição dos índices. Em 2005, o mesmo “Harry Potter” foi o filme de maior audiência, mas com apenas 24 pontos. Em 2007, o posto foi de “Tróia”, mas com apenas 18. O recorde desse ano é de apenas 12.3 pontos, marcados por “Carrossel – O Filme”, no dia 12 de julho (e é também o maior índice desde abril de 2010). E o mesmo vale para a TV Globo: se “Titanic” chegou a 54 pontos em 2000; em 2014, “Intocáveis”, filme de maior audiência daquele ano, marcou 27. 

A perda de audiência resultou numa desistência aos poucos de SBT e Record concorrem com a Globo pelos melhores contratos com Hollywood. Em 2005, o SBT perdeu a Disney para a Globo, em 2007 os títulos inéditos da MGM começaram a ser exibidos pela Record (com destaque para “007 – Cassino Royale”), no ano seguinte foi a vez da Paramount voltar para a Globo. A última perda foi a da Warner, que teve seu contrato expirado no final de 2013 e assinou com a Globo no final do mês passado. Do lado da Record, ainda surfando no “boom” dos filmes, assinou com a Universal Pictures em 2005, em substituição a Columbia, além de ter tirado os filmes da MGM do SBT (como citamos acima). Mas, mesmo esses contratos já sofreram mudanças. Os principais filmes da MGM já retornaram a Globo, “007 Skyfall” foi o responsável pela estreia da temporada 2015 da “Tela Quente” e o contrato com a Universal Pictures se encerra ao final desse ano e ainda não foi renovado. E é exatamente essa questão que nos leva ao próximo tópico: como o SBT deve se comportar nesse novo cenário? Vale a pena um acordo com a Universal?

GLOBO E WARNER BROS. RECORD E UNIVERSAL PICTURES. O QUÊ FAZER?

Depois de quase dezesseis anos, Globo e Warner voltam a ter um contrato de longo prazo. O fato foi noticiado há menos de duas semanas, nos mais diferentes veículos de comunicação e confirmados por ambas as empresas. A estreia será no dia 26 de setembro com a exibição do longa “O Homem de Aço”, na “Tela Quente”. 


Para comemorar a nova parceria, a Globo lançou uma chamada especial se autodenominando como “A Casa dos Super-Heróis”. A emissora, que antes já possuía os direitos de filmes do “Homem-Aranha”, “Capitão América”, “Os Vingadores”, “Quarteto Fantástico”, “Homem de Ferro”, dentro outros, agora ganhará o reforço dos heróis da DC Comics, como “Super-Homem” e “Batman”.

Com o acordo, a emissora carioca volta a ter em seus domínios a preferência por compra de sete dos oito grandes estúdios de Hollywood: Warner, Disney, FOX, Dreamworks, MGM, Paramount e Columbia. A única exceção é a Universal Pictures, atual parceira da Record, cujo contrato expira ao final desse ano. E a possibilidade de um “casamento” entre SBT e Universal Pictures pode ser boa por diversos motivos: 

1 – Acervo da Universal

Um acordo entre SBT e Universal Pictures representaria para o SBT a volta das grandes produções cinematográficas inéditas em sua grade. Em relação aos produtos do estúdio norte-americano, a lista de sucessos é enorme: dos clássicos aos ainda inéditos na TV aberta. Filmes como “E.T – O Extraterreste” e “De Volta para o Futuro” dialogam perfeitamente com o público infantil do SBT, e também com toda uma geração “saudosista” formada na década de 1980 junto com a emissora. “Pica-Pau”, sem sombra de dúvida, seria um grande reforço para a vasta programação infantil do SBT, que ocupa muitas horas da grade e ganharia um “campeão de audiência” vindo diretamente da concorrência. 

Em relação aos filmes, uma grande diferença pro acordo com a Warner, é que a janela de exibição entre o lançamento no cinema e o lançamento em TV aberta da Universal vem sendo de apenas dois anos (na Warner, em geral, são três). Essa diferença parece pouca, mas não é, principalmente em tempos que os filmes circulam cada vez nas mais diversas telas (internet, celular, tv paga, streaming, vídeo on demand, etc). 

O pacote 2017 da distribuidora norte-americana será um dos mais fortes dos últimos anos. A lista de blockbusters inéditos em TV aberta incluirá, dentre outros: “Cinquenta tons de cinza”, “Velozes e Furiosos 7”, “Jurassic World”, “Minions”, “Everest”, “A Visita” e “Steve Jobs”. A última vez que o SBT possuiu um pacote com títulos desse porte foi em 2013, último ano de contrato com a Warner, quando o pacote da emissora incluía, dentre outros: “Zé Colméia: O Filme”, “A Origem”, “Como Cães e Gatos 2”, “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1”, “O Ritual”, “Fúria sobre Rodas”, “Um Sonho Possível” e “Desconhecido”.

Produzido por Steven Spielberg, “Jurassic World” é um dos destaques do pacote da Universal Pictures para 2017. O filme possui a quarta maior bilheteria de todos os tempos nos cinemas do mundo inteiro.

2 – Audiência e, consequentemente, faturamento
Pode parecer contraditório, já que a queda de audiência dos filmes é enorme, mas o que pode-se notar é que, mesmo com os índices mais baixos, eles ainda possuem algum público. A audiência em queda que antes se notava, hoje aparenta estar mais estável. Em 2014, a “Tela Quente”, principal sessão de filmes do país, fechou com 16 de média. Em 2015 o índice ficou em 17 pontos. Em julho desse ano conseguiu chegar a 19. São índices consideráveis e superiores a muitos programas da linha de shows da Globo. A estreia do “AdNight”, novo programa de Marcelo Adnet, marcou apenas 14 pontos de média (nos programas seguintes os índices foram 14 e 15); 14 também foi o índice do “Por Toda a Minha Vida – Renato Russo” exibido no dia 30/8; o “Altas Horas” exibido no sábado, dia 03/09 marcou apenas 11.5 de média; enquanto o “Zorra” exibido no mesmo dia marcou 19; e o “Globo Repórter” exibido no anterior também. Hoje, os filmes não têm mais audiência de “novela das 8”, mas conseguem se manter entre as principais audiências da linha de shows da TV Globo (emissora líder do país), logo, ainda possuem público, se forem bem escalados e promovidos. Os índices de outrora não virão, mas é possível conseguir bons números e, consequentemente, bom faturamento. Por serem produtos de alta qualidade e boa aceitação, em geral as sessões de cinema possuem patrocinadores de peso. Para citar um exemplo, no próprio SBT, o “Cine Espetacular” teve como dois de seus grandes patrocinadores, durante anos, o “Banco do Brasil” e a “Petrobrás”. 

3 – Não depender da Globo

Após a perda do contrato com a Warner, o SBT optou por fechar pacotes menores e específicos com distribuidoras internacionais. Podemos destacar: a própria Warner, a Columbia Pictures e a Disney (através do “Mundo Disney”). O problema é que essas três gigantes possuem contrato de preferência com a Globo, restando ao SBT “sobras” ou reprises. Em 2015, último ano em que o SBT exibiu seu “chamadão de filmes”, os filmes de maior destaque da Columbia Pictures foram “Resident Evil 4: Recomeço” e “O Exterminador do Futuro: A Salvação”, títulos lançados no cinema em 2009 e 2010, títulos muito envelhecidos, apesar de inéditos em TV aberta. Em relação a Disney, a parceria é mais incerta, pois trata-se de venda de horário (e não compra específica de conteúdo) e a grande maioria dos filmes exibidos até agora foram produções lançadas no Disney Channel e não nos cinemas. Ainda é uma incógnita o futuro dos produtos Warner no SBT com o novo contrato com a Globo, mas o que não é seguro é ficar na dependência da emissora carioca. Tanto com a Columbia, quanto com a Disney, chegou-se ao ponto do SBT anunciar os direitos de um filme e a Globo exibi-lo em seguida (vetando a exibição do SBT). No caso da Columbia, o caso ocorreu no início de 2015, quando o SBT anunciou o filme “A Lista” em seu pacote, quando na verdade a Globo ainda tinha preferência pelo título e optou por exibi-lo. Com a Disney, veio com o anúncio no Twitter (através de Fernando Pelégio, diretor artístico do SBT) de que o filme “Toy Story 3” seria exibido dentro do “Mundo Disney”. No início desse ano, o filme foi exibido, mas na “Temperatura Máxima”, da Globo. 

4 – Novas parcerias

Além da própria exibição dos filmes, outras ações entre Universal e SBT podem ser feitas. Como exemplo, podemos citar a ação para promover o filme “Pets – A Vida Secreta dos Bichos” (da Universal Pictures) feita dentro da novela “Cúmplices de um Resgate”, no final de agosto. 


Durante intervalo da novela, a emissora veiculou um comercial misturando os diálogos de “Cúmplices de um Resgate” com um dos principais personagens de “Pets – A Vida Secreta dos Bichos”, que é reproduzido assistindo a novela. 

5 – Baixa concorrência pode baratear o pacote

Apesar desses contratos serem caros, um fator pode barateá-lo. A Record vem utilizando cada vez menos os produtos da Universal em sua grade (apenas três filmes inéditos da distribuidora foram exibidos nesse ano), não renovou um contrato prestes a vencer e pelo que noticiado pelo portal “Notícias da TV” (leia aqui), não pretende renová-lo nas mesmas bases atuais. A ausência de interesse da Record, aliado a um pacote inchado da Globo (que não teria porque fazer grandes esforços para aumentar um pacote já grande), pode acabar por baratear um possível acerto entre Universal Pictures e SBT.

Finalizando, devemos também alertar que além da Universal ainda há outras boas opções de filmes não adquiridos no mercado pela TV Globo. Da Columbia Pictures, “Django Livre” e “Resident Evil 5: Retribuição” não foram anunciados pela TV Globo, assim como os filmes da franquia “O Hobbit”, distribuídos na televisão brasileira pela MGM. 

O importante no momento é o SBT ter a consciência que “há vida após a Warner”. Para o SBTista mais fanático, pode ser difícil assistir o último filme da franquia “Harry Potter” na Globo, quando todos os outros foram exibidos pelo SBT, mas a Universal Pictures, assim como outros títulos disponíveis no mercado, podem sim formar um bom pacote.

*É graduado em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Escola de Comunicação da UFRJ. Teve passagens pelo SporTV, como coordenador de produção, e pelos canais Esporte Interativo, onde foi coordenador de programação. Atualmente escreve artigos de opinião às segundas-feiras no SBTpedia

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