Opinião SBTpedia: O jornalismo do SBT não suporta mais Silvio Santos

Opinião SBTpedia: O jornalismo do SBT não suporta mais Silvio Santos

José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)


 “Só não consegue o seu objetivo quem sonha demasiado, só não consegue o objetivo, quem pretende dar o passo maior que a perna. Só não consegue o objetivo quem acredita que as coisas são fáceis. Todas as coisas são difíceis. Todas as coisas têm que ser lutadas. E quando você consegue uma coisa fácil, desconfie porque ela não é tão fácil quanto parece. (....) Pelo menos foi assim que eu consegui de camelô a ser banqueiro” (Silvio Santos em 2011, no Hotel Jequitimar, durante as comemorações dos 30 anos do SBT)

Dia 12 de outubro. Feriado, mas não para Silvio Santos. “Fale bem, fale mal, falem de mim”, essa sempre foi o lema dele. Dia perfeito para ele colocar em prática mais uma de suas ideias. Desde a manhã de hoje passou a apresentar o “Primeiro Impacto” o jovem Dudu Camargo tirando Karyn Bravo e Joyce Ribeiro, que comandavam a atração até ontem. Vocês conhecem Dudu Camargo? Não? Nem nós até hoje. Ele tem 18 anos e seus maiores feitos foi fazer participação especial no quadro Lendas Urbanas, ser figurante na novela Revelação e atualmente ser o Homem do Saco do programa Fofocando. Virou queridinho do patrão após várias investidas na porta do Salão do Jassa, o verdadeiro diretor de programação da emissora. Em um vídeo gravado com Rodrigo Vesgo, do Programa Pânico, durante o Teleton 2015, ganhou a alcunha de “Mini Silvio Santos” por ter voz parecida com a do poderoso chefão.

O garoto não tem culpa. Se você recebesse um convite para trabalhar no SBT você não aceitaria? Ninguém seria irresponsável em apontar o contrário. O problema está de quem parte a proposta. Neste caso, Silvio Santos. Onde já se viu apostar em uma pessoa que nunca trabalhou com telejornal na vida, que sequer concluiu um curso superior para apresentar um jornalístico de rede, para todo o Brasil. Karyn Bravo, há 8 anos na casa e Joyce Ribeiro, desde 2005 na emissora, mereciam maior respeito. São profissionais formadas, consolidadas em sua carreira no SBT. Se viram na data de hoje com um jovem tomando seus respectivos lugares.

A história ainda é pior pelo fato do novo “âncora” ser ninguém menos que o atual Homem do Saco do programa Fofocando. Sim, o personagem que tem um saco na cabeça à tarde apresenta um telejornal da casa pela manhã. O que tenta abordar as notícias com credibilidade pela manhã faz comentários maliciosos sobre a orientação sexual do cantor Luciano à tarde. Coisa de fazer tremer profissionais de gabarito da casa. Até que ponto essa interferência nos trabalhos do jornalismo vai continuar?

O jornalismo é uma das bases de qualquer emissora de televisão. Dela se extrai dois pilares: credibilidade e responsabilidade. Que credibilidade uma empresa quer passar colocando um jovem no comando de um telejornal sem qualquer preparo seja acadêmico seja de experiência no setor? Que responsabilidade essa empresa tem em lançar um jovem no posto principal de um jornalista de televisão, sem antes ele passar por um processo de crescimento, promocional por seus próprios resultados e eficácia?

Muitos apontam que não é a primeira vez que Silvio Santos aposta em um pupilo na programação ou mesmo no jornalismo. Citam, inclusive, o caso de Analice Nicolau, que já posou nua para revistas masculinas. Primeiro, importante ressaltar, que Analice teve também muita rejeição e com a colaboração expressiva de Silvio Santos ao lançar o SBT Notícias Breves que ganhou o apelido “carinhoso” de Jornal das Pernas. Mas fato é que Analice, desde que virou jornalista, não fez qualquer ensaio sensual, adotou uma postura sóbria e procurou se formar em jornalismo para atender ao lugar que atingiu. Mesmo com todos esses cuidados desde 2005, ainda hoje existe gente que rejeita seu nome no casting da emissora.

Jornalismo não é lugar para fazer teste como se fosse um brinquedinho de playground. É um lugar onde deve estar os melhores e mais competentes. Para isso se tem um diretor de jornalismo, um chefe de redação, um editor-chefe de telejornal. Para se ajeitar tudo que demanda o setor. Mas no SBT, como todos sabem, as coisas funcionam diferente. Esses cargos existem, mas existe Silvio Santos para mandar ou desmandar acima deles. Justo ele que sempre teve uma má vontade incrível em colaborar com jornalismo na grade, salvo alguma empolgação com contratação nova.

Importante ressaltar: muitas das novas intervenções de Silvio Santos na grade do SBT vêm com uma tentativa bizarra de se igualar à Record. Seja na tentativa de criar um novo Luiz Bacci e concorrer com o mesmo nas manhãs com o Primeiro Impacto; seja com o Fofocando e sua tentativa de barrar a audiência de “A Hora da Venenosa”, de Fabíola Reipert, no Balanço Geral e ainda com as contratações de diretores e produtores para o Domingo Legal para buscar um formato parecido ou idêntico ao Domingo Show.

O SBT precisa ser ele mesmo. E não uma Record. Pior ainda uma emissora que não se contraprograma. Precisa ser uma emissora popular e com sua forte vocação para entretenimento. Se a ideia é criar um telejornal popular, bora trabalhar. Vamos garimpar nomes do rádio (que onde se sai os melhores comunicadores da área e que sabem lidar com improviso), vamos ir atrás de afiliadas para ver quem são os principais destaques por lá. Façam testes, pilotos. Procure, de preferência, gente que é de São Paulo, que conheça a cidade e o Estado de “cabo a rabo”, sabendo as gírias, as eternas demandas de cada bairro ou região. No tocante à pauta, procure gente criativa, como o pessoal do “Meia Hora” (jornal irreverente do Rio de Janeiro e cujo editor deu entrevista ontem - que recomendo todos assistirem - para o The Noite).

E vale aqui o parênteses para o Primeiro Impacto. De que adianta lançar uma cara nova sem um bom produto por trás? Depois de cortar links, interação com afiliadas e helicóptero, não é um jovem que vai fazer milagre. Esse é outro problema eterno de Silvio Santos: achar que sempre uma pessoa vai resolver num passe de mágica. Tudo na vida funciona numa engrenagem. Porque o Primeiro Impacto não poderia ter sido como a versão original hispânica? Popular, com espaço para entretenimento, colunistas e tudo mais.

Se antes a lábia fenomenal e o dinheiro farto eram condições para as investidas de Silvio Santos se tornarem irresistíveis, hoje as coisas não são mais bem assim. Muitos artistas e profissionais por trás do vídeo têm resistido trocar de canal porque a estabilidade tem sido vista como principal qualidade para se trabalhar na empresa. A TV do improviso, das apostas arriscadas, dos pupilos apadrinhados já cedeu (e faz tempo) espaço para a meritocracia, planejamento, fundamentais em qualquer empresa, inclusive as de comunicação.

Jornalismo não aceita amadorismo. São profissionais da informação e eles, como tal, representam muito para a imagem da emissora. Por isso, Silvio Santos precisa ter cuidado para não trazer de volta os riscos do passado que afastaram diversos anunciantes e telespectadores da emissora, ainda mais em tempos de crise como agora. No dia de aniversário de Hermano Henning, símbolo maior da sobrevivência do jornalismo do SBT, o que pedimos de presente é apenas que o patrão apenas reconheça, como nas suas palavras nos 30 anos da casa, que para se alcançar postos mais altos deve ser lutar antes para merecê-los depois. Do contrário, o jornalismo não vai suportar mais as investidas impulsivas e incontidas de Silvio Santos.

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