Tribuna SBTpedia: Exposição sobre Silvio Santos no MIS: A importância de se contar uma história, por Gabriel Reis

Exposição sobre Silvio Santos no MIS: A importância de se contar uma história

Por Gabriel Reis* (gabrielviannareis@gmail.com)

Silvio Santos apresentando o programa "Vamos Brincar de Forca", ainda na década de 1960. Foto retirada do site da revista "Caras"

Com estreia prevista para o dia 07 de dezembro de 2016, o Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo exibirá para o público a exposição “Silvio Santos vem aí”. A mostra vai traçar um paralelo da história do apresentador com a evolução dos meios de comunicação de massa no Brasil. Nela o público vai poder rever, interagir e brincar com programas icônicos do apresentador, como o “Qual é a Música” e o “Domingo no Parque”.

Em entrevista ao portal EGO, André Sturm, diretor do MIS, disse:

“Sei que teremos um público muito grande na exposição sobre o Silvio. Gostamos de fazer estas exposições que motivem as pessoas a irem ao museu. Queremos acabar com este preconceito de que museu é lugar de coisa velha. Museus não são chatos”.

A declaração de André toca em dois pontos importantes. O primeiro é o de levar atrações diferentes e populares aos museus, marcados no imaginário popular pela exibição de artes clássicas, modernas ou de nicho. O segundo ponto é o de explorar a imagem de Silvio Santos como figura popular, tentando se contrapor a ideia de “museu como lugar de coisa velha, chata”. Esses dois pontos remetem a uma ideia muito presente na carreira de Silvio Santos nas décadas de 1970 e 1980: a ideia de que o apresentador seria “popularesco”. O “popularesco” representaria o “popular” de forma negativa, pejorativa, como se o apresentador representasse algo apenas para as classes populares e de forma pouco “culta”. A imagem positiva que Silvio Santos tem hoje sendo, diversas vezes, eleito a figura mais popular do país (seja como “personalidade”, “apresentador” ou “empresário”) foi construída arduamente ao longo das décadas de 1970 e 1980, em especial, para que Silvio conseguisse as concessões de suas emissoras de televisão.

Em 15 de maio de 1972, o Ministro das Comunicações Hygino Corsetti afirmou:

“Não é que os programas de Flávio Cavalcanti, do Chacrinha e do Silvio Santos não prestem. Mas poderiam ser bem melhores. (...) Se o Silvio assistir às dez horas do seu programa, verá como ele é chato. (...) Não seria bem melhor ele intercalar o programa com apresentações de alto nível? Como um balé de Villa-Lobos (O Descobrimento do Brasil) como eu assisti outro dia no Municipal. Um espetáculo que não cansa, é bonito”.

Um dos pontos mais interessantes de “Circo Eletrônico: Silvio Santos e o SBT”, um dos livros mais importantes sobre o SBT, é justamente essa mudança de imagem que o apresentador sofreu nas décadas de 1970 e 1980. No livro, Maria Celeste Mira traz o depoimento de Salathiel Lage, que compunha a assessoria de Silvio Santos na época:

“Foi em maio de 75. Silvio Santos foi capa da Veja. Depois de seis meses... A gente ia semanalmente com ´press-releases´ na mão pro editor de economia da Veja, e falava assim: ´Olha os resultados aqui das empresas, olha aqui o nosso orçamento, olha aqui quantos empregados a gente contrata cada mês que passa, olha aqui quanta gente depende da gente e olha aqui que o salário não atrasa nem um dia. O Silvio é um sujeito sério, quer ver? Vai lá verificar. Nós abrimos até as empresas pr´uma auditoria, se for preciso´. Então, foi um trabalho seríssimo e a Veja captou o desafio.” [...] Nessa matéria, e nas outras da época, se trava um verdadeiro combate entre a figura do animador e a do empresário. O animador é brincalhão, mas o empresário é sério. A importância da matéria da Veja foi colocar num espaço mais legítimo, para um público mais “culto” ou mais intelectualizado, um discurso que já vinha sendo produzido pela assessoria do empresário, sem, no entanto, conseguir atingir esse canal.”

Hoje, o apresentador é uma das personalidades mais queridas do país, campeão de audiência, em todas as classes. É uma das poucas figuras que é reconhecida nacionalmente. Mesmo assim, é importante levar a sua história para dentro de um importante museu de São Paulo. Como eu mesmo já disse em um artigo no “SBTpedia” publicado ano passado:

“Em 19 de agosto de 1981, um ex-camelô, artista, radialista, animador e empresário consegue abrir sua primeira estação nacional de televisão. Das ruas, do circo, das barcas, do rádio para a TV. O camelô que já era fenômeno nacional, se consagra. Essa televisão cresce, se torna referência em programas de auditório para televisão, cria sucessos nacionais inesquecíveis, exibe novelas mexicanas que conquistam o Brasil, exibe competições esportivas nunca antes vistas, e começa a fazer um jornalismo diferenciado, voltado para o popular e para a figura do âncora. Essa televisão é o SBT e todos nós sabemos. No entanto, o que para nós é algo corriqueiro e óbvio, pode ser uma imensa surpresa para o grande público e para os estudantes de Comunicação. Por esta razão, é fundamental que um trabalho de resgate histórico seja feito para toda essa informação não se perder. Como entenderemos a trajetória do SBT e conseguiremos construir um futuro se não soubermos do nosso próprio passado?”
 

*É graduado em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Escola de Comunicação da UFRJ. Teve passagens pelo SporTV, como coordenador de produção, e pelos canais Esporte Interativo, onde foi coordenador de programação. Atualmente escreve artigos de opinião às segundas-feiras no SBTpedia

# Parceiros


#Facebook: SBTpedia

#Twitter