Opinião SBTpedia: Silvio Santos para no tempo e freia avanço do SBT, por José Eustáquio Júnior

Silvio Santos para no tempo e freia avanço do SBT

Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui) 

 
Vocês já devem ter visto os intervalos comerciais do SBT. Estão repletos de chamadas escritas por Silvio Santos. É Mr. Bey (pudim é bom hein?) pra lá, é 3 milhões de reais em programas em dezembro pra cá. É comparando Jequiti com Mercedes e Ferrari pra lá, é enquete sobre o que é mais gostoso (melão com presunto?) pra cá. A última que entrou foi da Revista Caras, destacando as páginas “coloridas” e com “boas reportagens” sobre o Teleton.

As páginas em cores da Revista Caras mostram um pouco de como Silvio Santos parou no tempo. Seu jeito de fazer TV ficou nos anos 80. Não evolui, é estático, pensa como se ainda estivéssemos na era da comunicação boca-a-boca, quando ainda as felicitações se davam por telegrama e numa época que “mídia” era ser criticado recorrentemente pelos artigos de opinião dos jornais de São Paulo e do Rio.

Mundo mudou, os pensamentos das pessoas mudaram e a forma de comunicação evoluiu. E, principalmente, o universo da TV se tornou ainda mais competitivo e profissional. Enquanto Silvio escuta seus diretores informais, o adestrador e "homem do coral" Itamar de Oliveira e o cabeleireiro Jassa e tenta emplacar desde ontem (9) sua terceira filha como apresentadora da casa, a Record está lá com um casting jovem de profissionais (Marcos Mion, Fábio Porchat, Rodrigo Faro, Sabrina Sato) que, se permanecerem muito tempo na emissora, podem gerar uma especial identificação com a casa a longo prazo.

 Parte da capa "colorida" da Revista Caras sobre o Teleton e Rebeca como apresentadora

No programa Fofocando, sua cria mais recente, fica claro e evidente isso. Todos os seus apresentadores representam a parada de tempo do “acionista majoritário”. Leão Lobo e “Madame” Bruschetta são velhos conhecidas do patrão desde os tempos do Show de Calouros nos anos 80 e, para ele, ainda são os “cartazes” (como ele mesmo diz) da fofoca na TV brasileira. Mara Maravilha, que estava fora da mídia até a onda de barracos em A Fazenda, reapareceu porque Silvio Santos lembra dela dos tempos do Show Maravilha, também criado naquela década, e que agora com o tempero de pimenta baiana, pode fazer o programa dar certo. Já o Homem do Saco, ah o Homem Saco... Nada mais é que um personagem que poderia funcionar há 30 anos atrás, por ser mais difícil naquela época revelar personagens misteriosos, e que hoje em dia só serve de chacota em rede social e para afugentar anunciantes.

Como Fofocando ainda patina na audiência, até porque não poderia ser diferente - foi um programa que está se moldando no ar, com tudo que Silvio Santos lança na programação - tiveram a brilhante ideia de voltar com a “A Usurpadora”. Não dá para cravar que tenha sido ideia de Silvio Santos, mas tudo indica que sim. Afinal, novela clássica é certeza de resultado e vai puxar o programa seguinte. Nem tanto. Como ele não mede consequência e vai pelo instinto (coisa cada vez menos assertiva nos tempos atuais), bota no ar e vê o que acontece. O que acontece até agora foi que o Fofocando caiu na audiência com a nova entrega, dando 5.1 na segunda, 4.4 na terça e 4.3 na quarta em São Paulo, segundo dados consolidados do IBOPE. E o motivo é bem simples: horário não tradicional para novelas e ainda por cima de pouco chamamento comercial (horário de afiliadas, portanto, sem exibição em todo o território nacional). Tendência, como sempre aconteceu é: mudarem a novela pra mais tarde para não piorar as coisas ou continuar com ela nesse horário e extinguir na sequência. Figurinha repetida já com A Mentira (no primeiro caso) e Maria do Bairro (no segundo caso).

Até mesmo o slogan da emissora Silvio Santos resolveu mudar nos últimos dias. Aboliu o “TV que tem Torcida” e trouxe “A Cara do Brasil”. Obviamente o slogan substituto é reaproveitado, como não poderia ser diferente. Era o mote da campanha de 1998, portanto há 18 anos atrás, e trazia nele figuras como Jô Soares, Serginho Groisman, Ney Gonçalves Dias, Gugu Liberato e até o Pica-Pau, hoje todos fora da emissora. Talvez isso frustre um pouco Silvio Santos já que o reaproveitamento não pôde ser completo.

Tempo das boas e belas vinhetas: "A Cara do Brasil" em 1998

A coisa foi tão de improviso - marca maior de sua administração - que as primeiras chamadas da “nova” vinheta esqueceram até de colocar Roraima no mapa. Aliás, vale aqui o parêntese importante de como a “TV que tem Torcida” foi uma campanha mal aproveitada culminando na trágica vinheta com artistas com uma televisão na cabeça.

Roraima em: Esqueceram de Mim

Claro que o jornalismo não pode ser esquecido. É seu brinquedo favorito em 2016. Silvio Santos colocou um reloginho analógico na tela e a temperatura de São Paulo, Rio e Belo Horizonte, em revezamento, no SBT Brasil. Além da poluição visual, mostra um pouco como ele desconhece que o acesso a uma simples hora pode se dar num guia de programação de qualquer TV, basicamente, nos dias atuais. Além disso, ele tratou de igualar todas as vinhetas dos telejornais: Primeiro Impacto, SBT Brasil, Jornal do SBT e SBT Notícias. Segundo a desculpa oficial, é a criação do “padrão SBT” de jornalismo. Isso poderia colar nos anos 80, mas hoje dá para esclarecer que padrão se consegue é com qualidade e não com igualdade. Povo vai saber que está no jornalismo do SBT ao reconhecer um grande repórter, ao ver uma grande série de reportagens e não porque tudo é igualzinho. Afinal, sabendo do histórico do trato de Silvio Santos com o jornalismo, todos vão pensar que tudo é um compilado de reportagens reprisadas do SBT Brasil.

Cabe aqui também uma crítica a um modo antigo de Silvio Santos ver TV: a empolgação e a descrença em estalo de dedos. No último final de semana, ele mandou estender o SBT Notícias para todos os dias da semana, de segunda a segunda e eliminou da grade das madrugadas todas, repito todas as séries que estavam por lá. Muitas, a grande maioria, com episódios inéditos no ar. “The Following”, por exemplo, havia recém-estreado sua segunda temporada. É aquela máxima do 8 ou 80 do Silvio Santos que muitas vezes termina com zero.

Vivemos uma verdadeira volta no tempo com Silvio Santos tomando as rédeas da emissora. E nos perguntamos qual ideia maluca será a próxima? Quem ele vai boicotar dentro da sua própria emissora? Voltaremos a ter artistas o chamando de Joaquim porque não podia falar seu nome nos corredores? Voltaremos a ter os famigerados telefonemas nos telejornais na grade? Qual dancinha ele vai sugerir para Dudu Camargo fazer no Primeiro Impacto? Qual será o próximo produto de jornalismo que ele vai lançar no ar sem nenhum planejamento ou investimento achando que isso, por si só, vai dar certo?

Nessa semana, Tony Góes publicou um artigo na Folha de São Paulo dizendo que apenas os pais e avós gostam de Silvio Santos. Não é verdade. Silvio Santos é Silvio Santos porque como apresentador ele soube se reinventar, suas características, suas apostas dentro do seu tradicional auditório. Foi assim que ele trouxe uma geração de jovens para seu lado com Show do Milhão e Casa dos Artistas e hoje repercute em redes sociais pelos seus comentários ácidos e sinceros (e até picantes) no Jogo dos Pontinhos e até mesmo as Câmeras Escondidas 2.0 com superproduções que se tornam virais na Internet. Cada vez são mais comuns as cenas de jovens na plateia de Silvio Santos abraçando-o calorosamente, até mais que as "senhorinhas".

Como apresentador, Silvio Santos chegou no século XXI, mas como diretor parou no tempo e o SBT paga cada vez mais caro por isso. Vocês podem dormir com um veículo estável, que apresentava resultados importantes nos últimos anos e acordar com 2006/2007 batendo a porta novamente, com as mudanças a toda hora, sugestões infundadas e lançamentos bizarros. E não adianta pagar uma das melhores consultorias do mundo especializadas em sucessão familiar, se não há, dentro da própria família, capacidade de questioná-lo sobre questões do dia-a-dia da empresa.

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