Opinião SBTpedia: Falta de planejamento de Silvio Santos matou Domingo Legal

Opinião SBTpedia: Falta de planejamento de Silvio Santos matou Domingo Legal

Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)


Foi noticiado ontem, 7 de dezembro, que o Domingo Legal chegará ao fim. Prestes a completar 24 anos no ar, a atração será tirada do ar e Celso Portiolli assumirá os sábados à tarde, na vaga deixada por Raul Gil.

Essa é uma solução drástica de uma que o próprio Silvio Santos foi protagonista. E é importante mostrar aqui que a culpa não foi do programa ou de um diretor, mas de todo um planejamento (ou falta dele).

Tudo começou com o lançamento do Mundo Disney em agosto de 2015. O Domingo Legal já conseguia fazer concorrência ponto a ponto com o Domingo Show até que veio a novidade e tirou duas horas do programa. Pior: deu a chance de Geraldo Luís vir embalado nas duas primeiras horas e o Domingo Legal praticamente não ter mais condições de reagir. Desde então, coincidência não foi, o programa perdeu total protagonismo nas redes sociais e na audiência.

O lançamento do Mundo Disney, que nem mesmo os diretores mais importantes do SBT sabiam do seu teor quanto a horário e faturamento, foi algo inventado pelo próprio Silvio Santos. Que sequer discutiu uma possibilidade de aliviar aos domingos (não tendo o programa) ou buscando alternativas para que nesse dia pudesse ser em uma faixa local ou mesmo expandido aos sábados para compensar esse problema. Simplesmente aceitou os termos e dane-se os contratados.

Já em abril de 2016, vieram a mudança na direção (numa estranhíssima saída de Roberto Manzoni, o Magrão) e em junho a chegada dos profissionais da Record. Sim, mais uma intervenção de Silvio Santos. Ele trouxe da Record três profissionais ligados ao “Domingo Show”, que seriam capazes de mudar o patamar de audiência do Domingo Legal com suas pautas nada identificadas com Celso Portiolli, que, insisto pela milésima vez, teve sua carreira toda moldada para entretenimento e não ficar explorando casos de artistas sumidos e com problemas financeiros, tragédias ou coisa do tipo. Como previsto, foi um tiro no escuro e o programa acabou perdendo ainda mais público. Afinal, o telespectador não sabia se esperava entretenimento ou pautas emocionais. E entre um e outro, o povo preferia a Globo (com o novo programa do Márcio Garcia na época) ou a Record (que tinha um profissional em fazer pautas sensacionalistas renderem).

Chegamos ao final capengando, mas em pé. O SBT tinha uma grade estável e, que apesar dos pesares, estava se sustentando comercialmente. Até que, do nada, Silvio Santos resolve tirar Raul Gil do ar. Há quem não goste dele apresentando e todos têm o direito disso, mas é inegável que a perda dele aos sábados, dia difícil comercialmente e para audiência, seria um baque. Ainda mais se tratando de um dos apresentadores da TV brasileira mais identificados com esse dia da semana. Me parece bem claro: Silvio Santos acreditava piamente que iria tirar Geraldo Luís da Record naquela pelenga de vai-não vai fazer programa diário. Com isso, Geraldo poderia assumir os domingos e Celso os sábados ou vice-versa. E não tirou. E abriu aquele rombo enorme na grade do SBT.

Agora, dezembro de 2016, temos a seguinte situação: Celso vai para os sábados à tarde. O sábado à noite está vago, já que o Sabadão também sairá do ar. E o Domingo Legal, um programa de enorme tradição da casa, pode ser trocado pelo Fantasia. Repito: o Domingo Legal pode ser trocado por um programa que foi e voltou 4 vezes na programação entre 1997 e 2008, sempre em períodos curtos e com boa audiência nas primeiras edições e depois ladeira abaixo.

Recentemente, nosso colega de SBTpedia, o Gabriel Reis escreveu sobre as opções para o futuro dos domingos do SBT (leia aqui) e ressaltou muito bem que o Domingo Legal foi a maior marca criada pela emissora nesse dia da semana. Afinal, o Programa Silvio Santos foi algo criado muito antes de existir TVS no Rio e depois vir a formar o SBT em 1981. E o melhor: é uma marca e nome não vinculativos. Ou seja, algo que não precisa se prender a um apresentador. Tanto que sobreviveu em 2009 passando o bastão de Gugu Liberato para Celso Portiolli.

Aliás, é triste pensar como nós, fãs do SBT, nos mobilizamos em 2009, no Twitter (muitos de nós entramos no Twitter justamente nessa fase e por conta disso) para fazer uma campanha para que o Domingo Legal não acabasse e para que o Celso, na oportunidade, fosse o escolhido para o posto de apresentador da atração. Justamente no ano em que “A TV que tem Torcida” e “A TV dos SBTistas” foram slogans usados na programação, o programa, talvez mais identificado com o público-alvo da campanha, saia do ar como prêmio.

Quem, em sã consciência, troca uma marca tão consolidada no mercado, por um programa que no início dos anos 2000, já se mostrava completamente ultrapassado? Era tudo muito bonitinho lá em 1997, quando a Telesp passou apuros com o congestionamento das linhas telefônicas em São Paulo, deve ter rendido uma grana boa, mas hoje, entrando em 2017, pensar que isso vai ser a salvação da lavoura aliando audiência e faturamento, é a mesma coisa que acreditar em diretor de programação com liberdade de atuação no SBT.

Por tudo o que o Domingo Legal representa, por toda a sua história, por que já ofereceu ao SBT no passado com bons resultados (inclusive com o Celso no comando), ele merecia nova chance de buscar uma alternativa de relançamento ou se reinventar, ainda que fosse com outro apresentador, outra equipe, recomeçando do zero. Não é possível que não haja essa capacidade. O Domingão do Faustão, que sofria sucessivas derrotas acachapantes para o Domingo Legal em 2000, lutou muito até conseguir um formato capaz de barrar o concorrente, só vindo a estabilizar pra valer na liderança em 2003. Apostou-se na marca, em uma equipe criativa, ao invés de chutar o pau da barraca (como a Globo fazia muito nos anos 80 quando não conseguia vencer Silvio Santos).

Se por acaso fosse inevitável a saída do Domingo Legal, com muito pesar, o ideal seria que se criasse um programa totalmente novo, para tentar marcar o dia como o programa original conseguiu. Se o Domingo Legal não está tendo força para entrar às 13 horas para competir com o Domingo Show, a poderosa brincadeira do “Para a Bola” vai conseguir?

Esperar uma mea-culpa de Silvio Santos sobre sua responsabilidade pela atual crise do Domingo Legal é pedir demais. Esperar que ele pense algo novo, sendo alguém que voltou com o slogan de 1998 na grade, idem. E muito menos esperar que ele valorize os profissionais da emissora está cada vez mais complicado, já que o modelo de fora é sempre o melhor como ficou explícito nas contratações da equipe do Domingo Show.

Como telespectador, eu só posso lamentar. Não tenho poder de decisão e muito menos influência sobre Silvio Santos. Lamento muito que uma marca da casa seja simplesmente descartada. Lamento que o SBT esteja tomando mais um rumo perigoso em sua história. De programas “vai que cola” e de planejamentos “tabajara”. Nasci em 1989 e cresci assistindo o Domingo Legal semanalmente. Quantos almoços, quantas tardes e noites juntas... Quantos quadros e brincadeiras marcantes. Quantas histórias. O veto à Banheira, o baque do PCC, a mudança de apresentador. Suportamos tantas coisas para nada?

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Acredito que todo SBTista tem seu Domingo Legal marcante na sua vida. Para mim foram muitos e muitos, em especial o da cobertura da morte dos Mamonas em 1996, quando acompanhei com meus pais e avós toda a cobertura do programa, que entrou em horário fora do habitual na época para ser o primeiro a dar a notícia. Então faço aqui um último pedido: Utilizem a hashtag #MeuDL e diga para nós aqui nos comentários ou no Twitter/Facebook qual foi a edição do programa mais marcante para você. Será uma forma de homenagear o programa e mostrar como ele teve uma presença na vida de cada um de nós.

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