Tribuna SBTpedia: O 'Atletiba' que não aconteceu e a revolução que Ratinho e SBT poderiam promover no Paraná

O 'Atletiba' que não aconteceu e a revolução que Ratinho e SBT poderiam promover no Paraná

Por Gabriel Reis* (gabrielviannareis@gmail.com)

No último domingo, os dois maiores clubes do Paraná jogariam o maior clássico do Estado válido pelo Campeonato Paranaense. Até aí nada de novo, o jogo é a maior atração do campeonato e é tradição anual no estado, a grande diferença estava em sua transmissão. 

No início desse ano a TV Globo renovou o contrato pela transmissão do Campeonato Paranaense de Futebol por três anos, no entanto, sem conseguir assinar com os dois maiores clubes do estado: Atlético-PR e Coritiba. Tal decisão criou um impasse. Segundo a legislação brasileira, os clubes envolvidos em um jogo têm os direitos sobre a transmissão do mesmo, portanto, qualquer veículo de comunicação só pode transmitir um jogo caso consiga a autorização de ambos os clubes. Logo, a Globo poderia transmitir todos os jogos que não envolvessem nem Atlético, nem Coritiba, mas os dois gigantes do Paraná só poderiam exibir o confronto entre eles. 


Atlético-PR x Coritiba: transmissão na íntegra do “não-jogo” ocorrido no último domingo

O “Atletiba” chegou e a decisão dos clubes foi pela inédita transmissão via seus canais no YouTube e Facebook. Para a transmissão, profissionais do Esporte Interativo, principal rival da TV Globo por direitos de transmissão no momento, foram contratados para a partida, além do staff já envolvido com as TVs dos respectivos clubes. 

Quando os dois times já se encontravam em campo, a Federação Paranaense de Futebol impediu a transmissão da partida alegando falta de credenciamento dos profissionais envolvidos, decisão essa sem qualquer respaldo claro no regulamento ou na história do futebol. Estávamos diante de uma interferência clara nos direitos que ambos os times têm de transmitirem seus jogos. Atlético Paranaense e Coritiba optaram por não jogar, tendo apoio praticamente unânime do público e da mídia especializada.

Após decisão da Federação Paranaense de Futebol de impedir a transmissão da partida, Coritiba e Atlético Paranaense optaram por não jogar. A imagem de ambos os jogadores unidos contra a Federação no centro do campo rodou o país. Imagem: Reprodução dos canais de Coritiba e Atlético Paranaense no YouTube

Fiz essa introdução para deixar claro que hoje, ao contrário do passado, existe um cenário aberto no futebol brasileiro para negociações que não envolvem a TV Globo e o Campeonato Paranaense é uma delas.

Se a transmissão de todos os jogos em rede não valeria a pena, uma transmissão regional para o Paraná tem condições de liderar a audiência, dado o ainda enorme apelo do futebol na TV e o que pode tornar isso possível: a ousadia de Ratinho, dono da Rede Massa, afiliada do SBT no Paraná.

Hoje, Ratinho é, sem dúvida, um dos apresentadores e empresários mais ousados da televisão brasileira. De repórter de um programa policial no Paraná (“190 Urgente”), Ratinho se tornou fenômeno de audiência na Record e se consolidou como comunicador no SBT. Foi inteligente ao largar a excessiva baixaria de seu formato original, sem deixar de ser popular. Paralelamente, montou um império: passou a ser dono de televisão (Rede Massa), sócio de seu programa e dono de diversas empresas que ajudam a bancar seu próprio programa, se tornando independente de patrocinadores externos (seguindo um modelo desenvolvido por Silvio Santos com o Baú da Felicidade, a Tele-Sena e a Jequiti).

Em seu programa, Ratinho claramente é um dos profissionais que mais se dedica a sua atração. Quando Gugu estreou na Record, trouxe Florida Meza ao Brasil; comprou o formato estrangeiro “Tempo de Ganhar” para exibir as terças-feiras; conseguiu, depois de muita insistência, aprovar a exibição do “Boteco do Ratinho”; e queria um cenário novo em formato de circo já para esse ano. Também já bradou claramente contra o monopólio da Globo no futebol e se opôs a emissora carioca em vários momentos. Foi assim na disputa envolvendo a “Casa dos Artistas”, o “Paulistão 2003” e mais recentemente quando questionou o porquê de outras emissoras não transmitirem jogos da seleção brasileira de futebol. Agora, Ratinho e o SBT tem a chance de romper esse monopólio.

Caso “Casa dos Artistas”: Ratinho x Globo

O contrato da TV Globo com a Federação Paranaense de Futebol é no valor de R$ 6 milhões anuais e se encerra no ano de 2019. Inclui a transmissão de todos os jogos, em todas as plataformas e incluiria todos os clubes, caso Atlético Paranaense e Coritiba tivessem aceitado o acordo.

O valor é irrisório se comparado a qualquer campeonato de futebol no Brasil. O Campeonato Carioca foi negociado a R$ 120 milhões e o Paulista a espantosos R$ 160 milhões. O valor a ser recebido pelos dois grandes do Paraná (R$ 1 milhão cada) chega a ser quatro vezes menor do que o recebido por clubes “pequenos” do Rio como o Madureira.

O melhor cenário de transmissão para o SBT e para a Rede Massa no momento seria uma oferta de transmissão que envolvesse a rede nacional (SBT), a TV local (Rede Massa) e um canal de TV fechada parceiro. Campeonatos estaduais hoje podem chegar a até 19 datas no calendário e há divisão de público para todos. Todos os jogos envolvendo pelo menos um dos três maiores times do estado (Coritiba, Atlético-PR e Paraná) teriam transmissão da Rede Massa; os clássicos “Atletibas” e as finais seriam exibidos para todo o país em um horário alternativo ao futebol global; os outros jogos podem ser passados para uma TV paga esportiva parceira, o que ajudaria a reduzir os custos para o SBT. Para os clubes paranaenses teriam a garantia da transmissão de todos os jogos do campeonato em TV fechado (o que não acontece hoje), a garantia de exibição de todos os jogos dos “grandes” regionalmente em TV aberta e de uma inédita transmissão nacional dos principais jogos. Isso sem contar, obviamente, com uma oferta melhor financeira.

O cenário de negociações no futebol brasileiro nunca ficou tão aberto como agora. Além do caso “Atletiba”, podemos citar o fato de outros clubes como Palmeiras, Internacional e Santos teremos vendido seus direitos de TV fechada do Brasileirão para o Esporte Interativo a partir de 2019 e a relutância do Flamengo em assinar com a Globo pelo Campeonato Carioca (o acordo só foi fechado na véspera da estreia do Flamengo na competição). O SBT deve aproveitar essa situação e o Campeonato Paranaense pode ser um bom começo. 

*É graduado em Comunicação Social (Rádio e TV) pela Escola de Comunicação da UFRJ. Teve passagens pelo SporTV, como coordenador de produção, e pelos canais Esporte Interativo, onde foi coordenador de programação. Atualmente escreve artigos de opinião às segundas-feiras no SBTpedia

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