Opinião SBTpedia: O verdadeiro domingo do SBT está na Globo, por José Eustáquio Júnior

 O verdadeiro domingo do SBT está na Globo
 
Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)


Desde que Senor Abravanel virou Silvio Santos o domingo ganhou um status nobre na TV brasileira. É aquele dia que chama mais a atenção do público, onde a concorrência fica mais clara e onde se concentram, em tese, os melhores profissionais.

As pessoas que acompanham o mundo da TV há um bom tempo sabe o quanto isso é representativo, ainda mais em se tratando do SBT. É um dia considerado estratégico desde sempre, com direito até a proposta para Boni do tipo “você cuida de todo o resto da semana, mas no domingo só eu mexo”, teria dito Silvio Santos no passado em proposta para o executivo vir para o canal.

Como o SBT surgiu de um programa de auditório dominical, o Programa Silvio Santos, nada mais natural que esse dia represente algo de muito importante. E com uma cara bem definida: ser uma programação essencialmente variada e divertida. Afinal “domingo é dia de alegria, é dia de Silvio Santos”, já dizia a chamada.

Os auditórios do SBT perderam, com o passar do tempo, a capacidade de ser dinâmico. Os quadros e pautas são arrastados, duram horas no ar. As atrações transitam entre uma pauta feminina longa (mais conhecida como divulgação Daqui Dali, mas com a desculpa oficial que só se enfrenta futebol com pauta desse tipo) da Eliana a Construindo um Sonho ocupando quase 3 horas de programa no Domingo Legal.

Sou do tempo que programa de auditório exibia diversas atrações em curto espaço de tempo. Era povo saindo da banheira do Gugu direto para um musical no palco, alguma coisa externa rolando com tela dividida e por aí vai. A ideia, claro, era atrair diversos tipos de público em um único produto. Magrão, no auge, já dizia: "a gente faz uma programação e não um programa".

Como já disse outras vezes aqui, hoje não existe do público uma confiança do que ele vai assistir em um auditório no SBT. As mudanças são radicais de perfil a cada semana. Em uma, a atração pode ser a cara da emissora, bastante popular e divertida. Na outra, pode vir uma pauta arrastada, com público restrito. Iniciativas interessantes como o quadro “Malucos Molhados” no Domingo Legal ou mesmo a recente participação de Gaby Spanic no "Eliana" encontrando sua fã-cover mirim e reeditando cena de “A Usurpadora” foram propostas bacanas, válidas, porém isoladas. Não há uma continuidade.

É importante tratar ainda do Programa Silvio Santos, onde os erros também existem. Muito embora haja uma variedade maior de quadros, o que é bom, a atração não valoriza o tamanho do apresentador. Recentemente, a participação de Simone e Simaria, dupla importante atualmente no mercado musical, assustou muita gente que se acostumou a ver nos últimos anos na atração apenas Genival Lacerda e Nahim. Como maior apresentador da história da TV, deveria haver uma valorização própria da atração quanto aos convidados, como já foi no passado no “Em Nome do Amor”, por exemplo, onde Silvio Santos recebia grandes artistas, inclusive internacionais, em homenagens, entrevistas e surpresas no palco.

Outro fator importante quanto ao Programa Silvio Santos é a questão da produção de quadros internacionais. A estreia do “Boom”, se é que dá para chamar de “estreia”, foi uma das coisas mais bizarras da história da TV. Um game-show de perguntas e respostas que poderia incrementar a atração, virou uma brincadeira de cortar fios. Já com o “Levanta-te”, quadro com maior cara de SBT estreado nos últimos tempos, Silvio Santos esforça-se semana após semana para tentar tirar a graça e a confiabilidade da atração, questionando a credibilidade dos jurados, que agora tem reloginho na tela cronometrando comentários ("não pode passar de 30 segundos, ouviu Fabiano?"). Isso para não falar que não conseguem sequer repetir um quadro do “Qual é a Música” no hoje chamado "Disputa Musical" colocando a resposta muito rápida na tela e tirando completamente a graça do telespectador em participar. Ao invés de evoluir, estamos retrocedendo.

Ontem tirei o dia para acompanhar a programação da Rede Globo. É incrível como a emissora, com duas atrações essencialmente, traz ao público aquilo que o SBT não consegue oferecer hoje em sua grade dominical. Falo do “Tamanho Família” e do “Domingão do Faustão”.

O Tamanho Família já foi destaque em 2016, quando estreou na Globo, e mantém o bom desempenho em 2017. Márcio Garcia comanda muito bem a atração, com desenvoltura de alguém que há tempos já merecia esse espaço. O programa é leve, divertido, proporciona grandes momentos e, como diz o próprio nome, é um ótimo espaço familiar mostrando o lado humano de artistas sem precisar apelar para pautas sensacionalistas. Em 1h10 de arte, o programa é capaz de revezar várias brincadeiras num misto de game-show, talk-show e programa de auditório, tudo com bastante ritmo.

Mais tarde vem o “Domingão do Faustão”. Tradicionalíssimo na grade da Globo, Faustão veio beber na fonte do SBT para duas das suas principais atrações atualmente. A primeira é o Ding Dong, uma espécie de Qual é a Música com ênfase no “Leilão das Notas Musicais”, sem precisar do “5 notas Maestro” e com destaque para presença de musicais de variadas épocas no palco, apelando ao saudosismo, tudo com artistas da emissora competindo entre si tentando descobrir o som que vem das campainhas do quadro. O outro destaque é o “Show do Famosos”, que nada mais é do que o formato “Esse Artista Sou Eu”, que foi produzido pelo SBT em 2014, após intensa disputa nos bastidores com a Globo. O formato é bem simples e trata de artistas desempenharem performances como outros artistas, imitando gestual, caracterização e voz do homenageado, tudo sendo julgado por jurados no palco, auditório e público de casa. Tem algo mais SBT que isso?

Muitos dizem nas redes sociais que a Globo vive tempos de SBTização com esses programas e pautas. Mas a verdade é que a Globo faz muito bem em se aproveitar um filão que anda abandonado até então pelo SBT. Ao buscar trilhar o caminho do Domingo Show, por exemplo, foi que o Domingo Legal viu seu público se dissolver em parte para o próprio Domingo Show (afinal, se é pra ver esse tipo que se veja no original) e outra parte para o Tamanho Família (que oferece entretenimento de bom grado e qualidade). À noite, enquanto Silvio Santos retoma o “Eu Preciso de Ajuda” - uma versão empobrecida e sem sal do Porta da Esperança - e prepara a estreia de quadros de potencial fenomenal como "Flores Mais Bonitas", Faustão fisga o público com entretenimento e musical, esta última palavra quase desconhecida dos programas do SBT atualmente aos domingos.

Parece incrível que, após cerca de 15 anos, o SBT tenha que correr atrás da Globo para buscar um perfil de auditório que ele mesmo criou e era catedrático. Mas a realidade é exatamente esta. O que há de mais SBT nos programas de auditório na TV aberta brasileira hoje está na emissora de Roberto Marinho. E, simbolicamente, posicionado aos domingos. É hora de agir, afinal, o auditório já sabe: devemos começar sempre com quem está perdendo.

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