Opinião SBTpedia: Roda Viva, Canal Livre... Novo programa do SBT precisa ser único

Roda Viva, Canal Livre... 
Novo programa do SBT precisa ser único 

Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

Há muito tempo Silvio Santos vem falando em sua atração dominical que pretendia lançar um programa jornalístico de debates colocando frente a frente um jornalista de direita (Rachel Sheherazade) e um de esquerda (Ricardo Boeachat, hoje na Bandeirantes). A ideia foi repetida várias vezes nos últimos meses.

Pois bem. Eis que no dia de ontem, 19 de abril, a jornalista Cristina Padiglione, da Folha, destacou que o SBT pretende lançar um programa com um mediador e quatro entrevistadores recebendo um convidado. O nome cotado para assumir o comando é da jornalista Débora Bergamasco, com passagens por Folha de São Paulo, Estadão e mais recentemente Istoé e Época, onde é uma das principais atualmente na cobertura política. Seria sua estreia, portanto, em uma rede de TV, o que não enxergo como problema, já que o SBT tem um histórico de trazer bons jornalistas do impresso para a TV, sendo o caso mais notório o de Boris Casoy. O mais importante aqui, seja com Débora ou outro nome, é que seja alguém absolutamente imparcial na condução do programa e capaz de trazer convidados de todas as bandeiras.

Na mesma nota, o programa mesmo ainda não tendo ido ao ar ou feito ainda ao menos um piloto pra valer, já foi comparado com duas atrações de outros canais: o Roda Viva (clássico da TV Cultura) e o Canal Livre (da Band), que é exibido na mesma faixa horária onde se pretende lançar a nova atração – fins de noite de domingo.

A proposta de um programa desse tipo é excelente para a grade do SBT, que há muito tempo sente falta de um programa de entrevistas/debates, desde que a Gabi saiu da emissora. Muito embora o The Noite exista e faça grande sucesso, a falta em si é de um programa essencialmente talk como era o “De Frente com Gabi”.

 Tentativa ousada de reproduzir o Manhattan Connection na TV aberta e em horário nobre, First Class fracassou e durou pouco na programação

O SBT já experimentou, ao longo de sua história, diversos tipos de programa do gênero. Em 1996, por exemplo, lançou o “First Class”, que tinha clara inspiração no “Manhattan Connection”, à época exibido pelo canal pago GNT. Marília Gabriela era a mediadora e contava com outros dois convidados/entrevistadores fixos: Augusto Nunes (hoje recém-saído do comando do Roda Viva) e José Simão. O modelo, que era semanal e exibido em horário nobre às terças, não vingou e saiu do ar rapidamente.

Outra experiência sem grande sucesso foi o “Debate na TV”, em 1993. O modelo era, como o próprio nome diz, mais voltado para debates, com exibição diária e no período da tarde. O comando era do radialista, à época de grande sucesso, Paulo Lopes, que ficava no centro. Um tema fixo era jogado na roda para convidados discutirem. Na mesma linha, o SBT fez com o “Hebe por Elas” e no “Programa Silvia Poppovic”, no início da década de 90.

 Debate na TV, com Paulo Lopes, trazia um tema para ser debatido por 4 pessoas - No ano de 1993, SBT tentou ainda programa de entrevistas com Elke Maravilha nas suas tardes

Contudo, as experiências com temas mais políticos em programas do gênero remontam ao surgimento da TVS Canal 4 de São Paulo. Logo no primeiro dia entrou no ar o “Programa Ferreira Netto” (1981-1982), responsável pelo pioneiro debate Franco Montoro x Reynaldo de Barros. Em 1983, veio o “Falando Francamente”, sob comando de Arlindo Silva e com participações fixas de Carlos Henrique e Humberto Mesquita. Já em 1985, estreou o “Ideia Nova”, com comando de Roberto Souza e também com vários sabatinadores convidados a cada atração. Por fim, uma atração sequer chegou a ir ao ar, que foi o “Linha de Fogo”, com Boris Casoy, programa que também seria exibido nos fins de noite de domingo a partir de 1992, mas que foi cancelado sob o pretexto que o “Topa Tudo por Dinheiro” estava indo ao ar até muito tarde (edições do programa chegaram a ir até 1h30 da madrugada).

 Programa Ideia Nova - quatro entrevistadores e Orestes Quércia. Atração chegou a ser exibida nos fins de noite de domingo

Veja que a história já nos proporcionou várias experiências de programas do gênero. Geralmente são atrações para agregar credibilidade e faturamento, coisa que o jornalismo do SBT necessita para o momento, especialmente por escolhas pra lá de questionáveis nos últimos anos. Por isso, não vejo como um produto para dar audiência e o fim de noite do SBT dá essa liberdade para se criar um formato interessante, com temáticas aproveitando questões em evidência. Creio que deve até analisar se compensa ter quatro entrevistadores fixos ou deve se estimular um rodízio (total ou parcial), até para dar visibilidade a jornalistas da casa no programa e/ou criar um frescor de renovação a cada programa.

Parece óbvio que por se tratar de um ano eleitoral, o tema dominante de um programa nesse ano sejam temáticas relacionadas à disputa política. Mas não vejo necessidade de ficar só nisso. Aliás, não considero esse um projeto para durar a curto prazo. Independente do resultado em audiência, esse é o tipo de programa que é feito para longo prazo, aliás como todo produto de jornalismo precisa ser encarado. Há quantos anos o Roda Viva está no ar? Há quantos anos o Canal Livre está no ar? Não se pode criar uma muleta para sair do ar antes mesmo de entrar. Em 2014, quando o Arena SBT estava melhorando e criando uma identidade, tiraram do ar sob o pretexto que era projeto para a Copa do Mundo apenas. E o resultado é que até hoje o SBT não tem um programa fixo para exibir nos fins de noite de sábado.

Outra questão importante é o “fator Silvio Santos”. Parece evidente que esse projeto conta com o OK do dono. Nada naturalmente sai do papel sem o aval dele, ainda mais com exibição aos domingos e numa faixa que está ocupada por algo que ele colocou no ar, o “Quem Não Viu, Vai Ver”. Mas se uma mão dá, a outra tira. Conhecemos bem o seu histórico de querer falar de política (de preferência bem do governo, seja qual for o partido) e da noite para o dia tirar tudo do ar que fala sobre o tema. Basta lembrar o que aconteceu com o quadro de entrevistas no SBT Notícias e com o veto, badalado pela imprensa, para assuntos do tipo no The Noite. Até que ponto vai a benevolência dessa vez?

E, por fim, e talvez o mais importante, a criação de uma marca. Esse novo programa que parece estar por vir precisa de um diferencial, algo para se tornar único, que o público identifique por esse ou aquele ponto ou qualidade. Não é uma tarefa fácil diante de tantas investidas no gênero já feitas na TV, mas a criatividade faz parte da essência de qualquer programa que pretende sair do lugar comum e se sobressair. Um “novo Canal Livre” competindo com o Canal Livre original não compensa. Um “Roda Viva do SBT”, sem identidade própria, mina possibilidades de se impor no mercado. O que um programa de debates/entrevistas pode oferecer de novo ao telespectador em pleno ano de 2018? Que público esse programa quer atingir? É com base nessas perguntas que o programa - que desde já é muito bem-vindo na grade - deve nortear os trabalhos a partir de agora.

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