Tribuna SBTpedia: Com As Aventuras de Poliana, SBT consolida seu 'modo de fazer' novela

Com As Aventuras de Poliana, SBT 
consolida seu 'modo de fazer' novela

Por Rafael Fialho*  (rafaelbfialho@gmail.com)
    
Uma estreia excelente não apenas em termos de audiência (já que marcou média de 15,01 pontos em SP, levando junto com Cúmplices de um resgate o título de melhores estreias das novelas ditas “infantis”), mas quanto ao conteúdo, a nova produção do SBT mostra que a emissora não só não se acomodou como se aprimorou no estilo SBT de dramaturgia.

Poliana em número musical em sua chegada em São Paulo. Broadway 'a la' SBT (Reprodução/YouTube/SBT) 

Em 2015, quando Íris Abravanel, que comanda a equipe de escritores do canal, revelou que Pollyanna era seu livro de cabeceira, a bola fora cantada: era questão de tempo para o clássico de Eleanor H. Porter virar telenovela. O primeiro capítulo mostrou que a equipe soube aproveitar esse tempo e se especializou no filão da novela “para a família”. 

Rejeito o rótulo de “infantil” porque quem acompanha as produções desde 2012 sabe que há narrativas para diferentes faixas etárias. Em Poliana, a estratégia se repete: há núcleos infantis, adolescentes e adultos, todos com boas histórias a serem contadas. Não por acaso, o SBT revelou que o público desse tipo de produção é majoritariamente adulto (representando 63% da audiência em Cúmplices de um Resgate, por exemplo). O estigma de “novelinha” parece também ser página virada, já que a trama conta com mais de 50 personagens e demonstra ter bastante fôlego para seguir até 2020, data estipulada para seu término. A propósito, a nova investida do canal confirma que já passou da hora de a crítica olhar com mais atenção para as produções do SBT, que desenvolveram um modus operandi próprio capaz de gerar audiência e repercussão nas redes. 

A depender da estreia, Poliana tem tudo para manter tal tradição, já que aposta em elenco com vários bons nomes e produção caprichada. Mais próximo de uma narrativa de filme, o primeiro capítulo apresenta a jornada dos protagonistas saindo do sertão em direção ao sudeste com um quê de musical da Broadway com toques circenses, notadamente com os números musicais da chegada de Poliana a São Paulo – que despertam a lembrança de Xuxa em Lua de Cristal, por exemplo. Embora pouco verossímeis, destacam o principal potencial da novela: o pé na fantasia. 

Mas estar na tela do SBT tem seu preço, e o tom de amadorismo é escancarado quando, passeando pela avenida Paulista, a protagonista é enquadrada ao lado de transeuntes portando mochilas das marcas Nike, Yes, do Banco Banrisul e da loja Riachuelo. Poderia ser um bom merchan, mas parece mais um “descuido” que evidencia o estilo cru do SBT, o que não representa nenhum problema. Inclusive, é essa mistura entre fantasia e realidade a melhor qualidade da trama, sugerindo que todos nós podemos ter um pouco de poliana, como um adjetivo que a história tenta reverter da pieguice ao otimismo. Em um 2018 que promete ficar ainda mais conturbado, um pouco de “polianismo” não deve fazer mal a ninguém. 

Em termos técnicos, também houve avanços, já que se abandonou o excesso do uso de cidade cenográfica e chroma key visto em Cúmplices, por exemplo, e se investiu nas impecáveis tomadas no Ceará. Destaque para o trabalho de câmera, que se alternando entre composições fixas e movimentadas, mais instáveis, proporcionou posturas de contemplação e maior imersão do telespectador nas cenas, respectivamente. Resta acompanhar para ver se não é mera pirotecnia de estreia. 

A cenografia da comunidade Bem-Te-Vi, extremamente verossímil, indica uma espécie de expertise que o canal parece ter desenvolvido, já que novelas como Maria Esperança, Uma Rosa com Amor e Revelação também traziam cenários de cortiços e favelas muito bem construídos. Contudo, ainda persiste um velho problema: o eco nas gravações dentro de cenários da cidade fictícia criada nos estúdios do SBT. Se a edição rápida ajudou a suavizar a morte da mãe de Poliana, ela prejudicou a compreensão: o que ocorreu com pai? O site do SBT indica que ele também faleceu, mas nada a respeito foi dito ainda. A trilha sonora foi irrepreensível, mesclando hits com nova roupagem e músicas incidentais que contribuíram para o grau de emoção. 

O elenco combina novatos, atores e atrizes consagrados e nomes já vistos em outras produções de Íris, o que evidencia a formação de um possível star system da autora, ainda que sutil. A maioria defendeu bem seus papéis, com um texto bem construído, destacando-se Igor Jansen (João), Rafaela Ferreira (Nanci) e, ainda bem, Sophia Valverde, como a protagonista. Notável a passagem em que ela chora a morte da mãe de sua personagem; o pai a consola dizendo que sua mãe está no céu e o drone abre o plano como se alguém observasse a cena lá de cima. Milena Toscano precisaria acertar o tom, pois grita muito, mas, grávida, logo estará de saída da novela, sendo substituída por Thais Melchior. 

A incursão de Íris na dramaturgia, embora complete apenas dez anos em 2018, já demonstra a consolidação de um estilo próprio (ou repetição?), perceptível até agora no núcleo “comunidade pobre + samba”, já utilizado em Chiquititas. As Aventuras de Poliana mostra que não há mais nada que se provar. O SBT sabe fazer novela para um nicho potente. 

Em tempo: na coletiva de imprensa de lançamento da novela, Íris Abravanel relatou dificuldade de encontrar atores negros para a escalação. É preciso ser bem poliana (no sentido negativo do termo) para concordar com a afirmação, mas pelo menos em termos numéricos, a trama do SBT é a que possui maior porcentagem de representatividade (14,5%, segundo o UOL). A ver que tratamento será dado a este núcleo.

*É jornalista doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo e atualmente estuda atualmente estuda a abordagem da violência doméstica contra a mulher em Casos de Família. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com     

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