Opinião SBTpedia: A TV dos tempos do Gugu merece continuar

A TV dos tempos do Gugu merece continuar

Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

 
A trágica morte de Gugu Liberato deixará certamente um vazio que dificilmente será ocupado. O apresentador conseguiu, muito rapidamente, ocupar um posto entre os maiores da TV brasileira. Já ali no final da década de 1980, protagonizou uma guerra silenciosa de bastidores entre SBT e Globo pelo seu passe. Gugu já era grande e cresceria cada vez mais e mais, criando uma identidade enorme com o público da emissora, porque sabia, como seu mentor, criar e fazer um programa popular.

A precisa e emocionante homenagem que o Domingo Legal prestou ao artista ontem, dia 24 de novembro, trouxe à tona um aspecto que foi tema recorrente nos comentários dos telespectadores nas redes sociais: como faz falta aquela TV dos tempos do Gugu Liberato.

Essa mesma questão foi levantada por um comentário de Sônia Abrão durante o “A Tarde é Sua”, da RedeTV! na tarde de hoje, 25 de novembro. “Era uma TV vibrante”, disse a apresentadora, fazendo um comparativo da TV atual com seus tempos no Domingo Legal onde fez inúmeras externas e matérias para a atração, algumas delas ao vivo, como a épica envolvendo Gerson Brenner.

Hoje os auditórios, em sua essência, são extremamente previsíveis, monótonos, com quadros pré-definidos. Aquela “vibração” ou calor do momento, de inovar, de surpreender, pouco a pouco acabou. Fora isso, os programas muitas vezes trazem quadros longos, muito longos, a perder de vista, contrastando totalmente com aquele auditório “raiz” que trazia quase um quadro por cima do outro (às vezes com a tela dividida por conta disso). Era uma programação dentro de um programa, como se referia Roberto Manzoni, o Magrão, ex-diretor do Domingo Legal.

A justificativa, claro, para essa mudança toda foi a audiência. Quadros longos representam menos quebras, logo o risco é menor. A previsibilidade das atrações, muitas com horário marcado para começar e terminar, deu mais segurança aos apresentadores, que pouco inovam, mas que há a garantia de determinado quadro vai render X no IBOPE.

Mas permita-me deixar aqui a minha indignação e frustração. Isso está acabando com o programa de auditório no Brasil! O próprio auditório, hoje, é frio, encolhe a cada mudança de cenário e é praticamente descartável em muitos dominicais. Batem palma para VT e merchan. É o cúmulo. O apresentador não é desafiado a cada semana a fazer algo diferente para agradar seu público, a trazer coisas novas, a ter aquela carta na manga contra a concorrência. Sem improviso, ele simplesmente liga o piloto automático.

Sabe, parece que se perdeu o tesão pela TV, por fazer TV ou se faz TV por obrigação e não mais por gostar do ofício. Aquela gana que consagrou tantos apresentadores, como o Gugu em especial, não existe mais. A essência de fazer programas populares está praticamente em extinção, vivendo a base de formatos internacionais ou pautas de superação & emoção de algum fã de vida sofrida, que terá realizado o sonho de conhecer seu ídolo no palco.

Eu que vivi minha infância nos anos 1990 e peguei essa fase épica do Domingo Legal, não consigo acreditar no que virou a TV brasileira. A gente torcia para chegar domingo logo. Domingo era O DIA. Mas não era “o dia” apenas por conta de grandes nomes como apresentadores, era O DIA das grandes atrações. A gente esperava por elas. As chamadas não cabiam todas as pautas que estavam previstas. Valorizava-se o palco, o auditório, os convidados, os links, as externas. Pautas com celebridades, pautas com anônimos. Algum assunto em evidência na semana ou um quadro novo. Tudo tinha seu espaço e vez.

Eu sempre que posso cito o caso do "Agora é com Datena", na Bandeirantes. Curiosamente foi o programa que soube trazer essa essência original do Domingo Legal para um auditório novamente. Tinha espaço para musicais, quadros, games, convidados no palco, jornalismo factual e assuntos que estivessem em evidência. Tudo muito maleável. Não deu certo, é verdade. Mas veja só: a Band tem tradição zero com auditório aos domingos, o programa tinha partes ao vivo e partes gravadas, o que dificultava a continuidade / esticamento de atrações que estivessem com boa audiência, Datena não ter molejo para um programa do tipo, o mesmo Datena estava envolto com uma candidatura que acabou não saindo do papel e de quebra o programa era longo demais. Tudo conspirou para não dar certo. Eu fico imaginando sempre aquele mesmo programa com um apresentador com pegada do SBT no SBT. Tenho convicção que poderia dar certo.

Sônia Abrão disse hoje que isso não se trata de saudosismo e eu também acredito que não o é. A TV hoje pode ser mais quente e retomar seu viés popular, criativo e imprevisível que teve no passado. Hora de sair do marasmo, do comodismo e arriscar. Nem sempre se vai ganhar, pode se perder por algumas semanas, mas o público dominical é o que mais usa o controle remoto, é o mais disposto a mudar seus hábitos. Se encontrar algo bacana, pode acabar ficando.

Tanto o Viva a Noite (na década de 1980) quanto o Domingo Legal (especialmente no final da década de 1990 e início dos anos 2000) chegaram a ser líderes de audiência apostando nesse tripé infalível quando se trata do DNA do SBT: Entretenimento popular, variedade e imprevisibilidade. Quando a gente pede “zona no palco”, “muita coisa acontecendo ao mesmo tempo” não é capricho ou mero gosto pessoal. É o desejo e reconhecimento do legado de Gugu Liberato que merece ser perpetuado na TV brasileira.

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