Cartas e Cartazes nº 123: SBT pede que público leve fé em primeira novela argentina exibida no Brasil (26/02/1992)


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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

O SBT já teve novela gravada com produtora independente na Argentina (“Antônio Alves, Taxista, em 1996), já teve novela gravada em parceria com a emissora Telefe na Argentina (“Chiquititas” de 1997 a 2001) e, como não poderia deixar de ser, também já exibiu dramalhões argentinos dublados em sua programação.

A primeira novela de lá a fazer parte da história do SBT foi “A Estranha Dama” (La Extraña Dama) que estreou na emissora em 11 de março de 1992, tendo sido exibida originalmente entre 1989 e 1990, pelo Canal 9, o mesmo que inspirou outra atração do SBT: o “Aqui Agora”. Será que Silvio Santos viu a trama por lá?


A emissora de Silvio Santos montou um belo esquema de divulgação e teve todo um cuidado especial para a novela, inclusive fazendo uma versão nacional do tema de abertura, que foi interpretado pela cantora Cláudia. A novela teria a responsabilidade de substituir a mexicana “Simplesmente Maria” que, assim como “Rosa Selvagem”, por méritos próprios e apoio especial de “Carrossel”, havia alcançado ótimos índices de audiência, figurando de forma recorrente entre as 5 maiores audiências do SBT na semana.


Abertura totalmente refeita pelo SBT e com versão nacional da música da abertura interpretada pela cantora Cláudia

A Estranha Dama chegava credenciada pelo orçamento badalado (1 milhão de dólares), pelos ótimos índices em terras hermanas (teria pulado a audiência por lá na faixa das 18 horas de 15 para até 47 pontos) e a ainda os vários prêmios conquistados pela obra, como os 4 prêmios Martín Fierro na Argentina (incluindo o de melhor novela) e ainda o Telegatto (maior prêmio televisivo da Itália), em 1991.

O sucesso fez como que fosse rapidamente vendida a 12 países da América Latina e Europa, incluindo o Brasil, através do SBT. Era a primeira daquele país a ganhar espaço internacionalmente e, logo, a primeira experiência de uma emissora brasileira com tramas argentinas. O elenco também era estrelado: o protagonista Jorge Martinez já havia sido premiado várias vezes pela televisão americana, entre eles como Melhor Ator pela ACE de Nova Iorque, em 1989. Já Luisa Koliok, a “Estranha Dama”, havia ganhado notoriedade local após “Amo y Señor” (1984), onde formava casal com o galã paraguaio Arnaldo André e passou a ser espancada pelo companheiro quase todo capítulo. O jornal “O Estado de São Paulo” chegou a destacar que a dupla de protagonistas correspondia na Argentina a algo como sendo um Tarcísio Meira nos melhores dias e Regina Duarte mais “soft”.


 
O SBT tratou de trocar o tema de abertura da novela. Saiu a versão original na voz de Valéria Lench e entrou a versão nacional de João Plinta na voz da cantora Cláudia. A música rendeu e fez sucesso. Tanto que até um LP foi lançado na época destacando sobretudo "A Estranha Dama" e "Não Chores por Mim Argentina" (clássica canção, conhecida internacionalmente pelo título em inglês 'Don't Cry for me Argentina'). Uma clara tentativa de inserir a cantora no mercado internacional, especialmente naquele país. Repare acima o logo do SBT no verso do LP, pois se tratava de um projeto da Diretoria de Novos Negócios da casa, comandada por Rubens Pássaro e Marcelo Costabile.


Chamada/teaser da novela A Estranha Dama, no SBT, exibida um dia após a publicação do anúncio de hoje - foco no protagonista masculino e anunciando "em breve"

A história-base era de um dramalhão clássico, digno de uma novela mexicana. Mas com uma dose de ousadia extra, por explorar questões afetas a fé. Gina é uma moça pobre, do campo, que se apaixona por Marcelo, um homem rico. O dinheiro justamente separa os dois, com Marcelo se casando com uma fazendeira para salvar para salvar seus negócios da falência. Mal sabe ele que Gina havia ficado grávida durante seu curto relacionamento. Ela adoece, vai parar em um Convento, quase morre no parto e pede para que as freiras levem a filha para ser cuidada pelo pai. Grata por tudo, vira religiosa. No dia em que vai fazer seus votos para Madre Superiora, Marcelo a procura dizendo que está viúvo e quer refazer a vida com ela, que fica dividida entre o amor à religião e o amor pelo pai de sua filha. Mas por que “A Estranha Dama”? Nomeada Madre Superiora do Convento de Adoração, Irmã Piedade (ou Gina), é procurada por uma jovem angustiada, porque seu pai não quer que ela se case com o homem que ama. Quem é a moça? Claro, Viviane, a filha de Gina. Através da menina, ela fica sabendo que Marcelo tem dúvidas a respeito de sua paternidade. Quando soube disso, Irmã Piedade resolveu procurá-lo para esclarecer tudo. Sem o hábito, ela procura Marcelo, primeiro naquela mesma noite. Depois em todas as outras, sempre que o sol se põe, bela e misteriosa, com o codinome de Baronesa de Manfred, se escondendo nas sombras e saindo pela porta secreta (sic) do Convento.

O anúncio que analisaremos hoje é de 26 de fevereiro de 1992, quase duas semanas antes da estreia efetiva da novela no SBT. O anúncio, em tom de súplica “Leve fé na próxima novela do SBT”, trazia consigo um sentimento de insegurança por parte da emissora, especialmente acostumada com novelas mexicanas, mas que para o início de 1992 ficou com apenas uma opção dublada disponível na prateleira: a argentina A Estranha Dama.

Já no texto superior do anúncio, o SBT tenta, de maneira popular, descrever a trama. Foca especialmente no dramalhão, da mocinha pobre que não pode viver o amor com o rapaz rico. Abandonada e grávida, vira freira e depois Madre Superiora. Na parte polêmica da história, usa as entrelinhas: “Considere que a madre não se revele assim tão superiora” e arremata quase como apelo antirrejeição: “Imagine agora se é possível existir algum cristão que consiga resistir a uma história como esta”.

Na próxima semana continuaremos a dissecar um pouco “A Estranha Dama” no SBT. Traremos outros anúncios que a emissora publicou da novela no dia da estreia e repercussões na imprensa.

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