Cartas e Cartazes nº 124: Com anúncio duplo, SBT inverte frases para divulgar estreia de ‘A Estranha Dama’ (11/03/1992)

 
Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

É chegado o dia da estreia, 11 de março de 1992. E para esse dia especial, o SBT preparou um anúncio de duas páginas na Folha de São Paulo. De maneira criativa, a emissora apostou na inversão de frases para divulgar “A Estranha Dama”:

“Veja porque esta mulher, apesar de amar um homem, vai se entregar a Deus”.

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“Veja porque esta mulher, apesar de amar a Deus, vai se entregar a um homem”.

A estratégia, além de chamar atenção pelo jogo de palavras, era mostrar um pouco como a história tinha duas fases bem definidas (a primeira em que Gina abre mão de tudo em nome de seguir a carreira religiosa e depois, a segunda, quando Gina reencontra seu grande e antigo amor, Marcelo, e começa a sair às escondidas do convento). Abaixo de cada parte do anúncio, o primeiro simbolizado pela cruz e o segundo pelo buraco de uma fechadura, tem a explicação de cada fase que vale ressaltar aqui na íntegra:

“Está começando a via-crúcis de Gina, personagem principal de ‘A Estranha Dama’. Gina é uma jovem simples que, logo nos primeiros capítulos da novela, vai conhecer e se apaixonar por Marcelo, um rapaz rico e atraente. Mas é justamente o dinheiro da família de Marcelo que vai separar o casal. E Gina, que começa a história nas nuvens, logo se vê em um verdadeiro inferno: fica grávida e abandonada. Mas existe paz na terra às mulheres de boa vontade. Gina é ajudada por freiras do Convento da Purificação [Adoração] e, após dar à luz a uma menina, também segue a vida religiosa”.

“Muitos anos depois, o destino reaproxima Gina de sua filha e, por consequência, de Marcelo. É, a partir daí que, apesar do voto de ser fiel a Deus, Gina precisa se tornar A Estranha Dama. Pensando no futuro da filha, ela enfrenta novamente o seu grande amor do passado. Esta novela, uma superprodução que o SBT traz para você, foi um grande sucesso onde passou. Basta ver um ou dois capítulos que você vai se entregar à novela do Sistema Brasileiro de Televisão. A Estranha Dama, às 21h30, de segunda a sábado”.

Veja que o SBT toma excesso de cuidado e zelo para abordar a questão das saidinhas de Gina do convento. “Gina precisa se tornar...” em um tom de obrigação. “Pensando no futuro da filha (...)” dando ênfase a uma justificativa. Claramente a emissora adotava toda a cautela do mundo para que a novela não tivesse um efeito de rejeição quando chegasse na fase mais aguda da trama e que, inclusive, justifica o título da novela.

Se o SBT investia muito em anúncios para tentar emplacar a nova trama, a crítica especializada não perdoava. Se as mexicanas começaram a ter uma certa simpatia após o sucesso de “Carrossel”, as argentinas ainda não gozavam desse prestígio todo. Quer dizer, a imprensa até elogiava a produção argentina, considerada mais vultuosa e rebuscada que as mexicanas, mas pesava a mão no geral da obra e texto em si. O jornal O Estado de São Paulo veio com a manchete “Estranha Dama se atola em clichês”, e tratou logo de fazer essa comparação em sua crítica:

“É verdade que argentino faz novela melhor que mexicano. Basta comprar a pobreza cenográfica de Simplesmente Maria, com o requinte dos ambientes internos e tomadas externas da recém-iniciada A Estranha Dama. Mas a superioridade só está na forma, a subdesenvolvida dramaturgia é a mesma (...) Todos os estereótipos imagináveis comparecem a essa Estranha Dama que virou mania na Argentina (com 50% de audiência) e encantou os italianos. As mulheres ricas andam empetecadas com peles, joias e luvas. Os pobres são ingênuos e conservadores. Não falta sequer uma bruxa. Momentos antes de Gina dar o ‘mau passo’, a velha andarilha anuncia que a desgraça está desabando sobre Campo Seco. (...) O amontoado de clichês e o absurdo da trama de A Estranha Dama, com certeza, não vão deixar os mexicanos com complexo de inferioridade”.

A crítica pesada se fazia presente até nos textos mais cômicos e sempre ácidos de José Simão, como este publicado pelo Correio de Notícias, no Paraná (veja abaixo):


Repare que José Simão cita, ao final de sua crônica, as novelas venezuelanas: “Agora, a grande vingança mesmo é quando a Globo abrir aquela gaveta escrita: ‘novelas venezuelanas’. Aí é que a gente vai ver o que é ameaça nuclear no ar”. Isso se deve à investida da Globo em compra de novelas daquele país na época, em especial “Cristal” (1985), exatamente a novela que deu origem à mexicana “O Privilégio de Amar” e ao remake nacional de mesmo nome, “Cristal”, em 2006. Mas se José Simão temia por vir novelas da Venezuela na Globo, o SBT tratou de se antecipar e colocou “Topázio” logo na sequência de “A Estranha Dama”. Mas isso é assunto para uma próxima oportunidade.

Na próxima semana tem mais “A Estranha Dama” no Cartas e Cartazes. Desta vez iremos destacar anúncios pós-estreia e mostrar como a concorrência tentou se aproveitar do sucesso da trama na emissora.

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