Cartas e Cartazes nº 128: Após Globo mutilar minissérie, SBT exibe filme original que consagrou Leonardo Villar (04/05/1988)


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Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

O falecimento de Leonardo Villar, ocorrido ontem, dia 3 de julho, será muito sentido em todo o Brasil pela qualidade de seu trabalho e interpretações. E para homenageá-lo trazemos no Cartas e Cartazes o trabalho que o consagrou: o filme “O Pagador de Promessas”, de 1962, dirigido por Anselmo Duarte.

A história de hoje começa na Globo, por incrível que pareça. “O Pagador de Promessas”, antes de ser filme, é uma obra de teatro escrita por Dias Gomes. Em 1988, mais precisamente em 5 de abril daquele ano, entrava no ar a minissérie “O Pagador de Promessas”. O próprio Dias Gomes tratou de adaptar sua obra original. Esperada com muita expectativa pela crítica e pelo público, a série teve que ser mutilada por imposição de Roberto Marinho, atingindo especialmente o personagem Zé do Burro (José Mayer), ficando com apenas 8 dos 12 capítulos previstos originalmente. O Jornal do Brasil, em tom de brincadeira, começou até a chamar de “O Apagador de Promessas”.

Ainda segundo um diretor que deu entrevista ao Jornal do Brasil, Boni também teria pedido a compactação: “Eu soube ontem (quarta-feira), à tarde, que o Boni achou a série muito bonita, mas muito lenta, muito arrastada. Ele recebeu inúmeros telefonemas de telespectadores reclamando do ritmo lento e decidiu compactar os capítulos. E bonita, mas não é compatível com o ritmo da emissora”.

Logo depois, a própria Globo confirmou: “Ao mesmo tempo, o presidente Roberto Marinho achou que havia na narrativa algumas impropriedades que entravam em conflito com suas posições pessoais. Estas foram as razões que levaram o vice-presidente de operações José Bonifácio de Oliveira Sobrinho a compactar a minissérie para que a história começasse com a chegada a Salvador”. Segundo a matéria, a compactação foi um meio-termo, após uma reunião tensa entre Roberto Marinho com Boni e Daniel Filho. O dono da Rede Globo pensava em uma saída radical: finalizar a trama, colocando uma cartela no ar avisando aos telespectadores que a minissérie estava encerrada por motivos técnicos.

O SBT viu na confusão uma grande oportunidade. O filme “O Pagador de Promessas” não era uma novidade. Já havia sido exibido na própria Globo, TV Nacional de Brasília e até na TV Cultura em São Paulo. Mas a polêmica causada pelos bastidores da emissora carioca traziam à tona uma chance de fazer o filme ganhar um “frescor” importante.

E assim foi feito. A emissora cancelou a série “Miami Vice” e o programa “Musicamp” e programou para o dia 4 de maio de 1988, às 21h30, a exibição do filme “O Pagador de Promessas” (1962), em preto-e-branco, uma das obras mais premiadas do cinema nacional, com Palma de Ouro no Festival de Cannes (França), vencedor do VI Festival Anual Internacional de Cinema de San Francisco (Estados Unidos) e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Também foi premiado em eventos em Acapulco (México), na Venezuela e Edimburgo (Escócia).

Mesmo tão premiado, o filme era marginalizado pelos chamados “entendedores” de cinema. Glauber Rocha em seu livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” critica o filme pela chamada folclorização promovida pelo diretor Anselmo Duarte, em cenas que mostravam Zé do Burro na escadaria da Igreja tentando entrar para depositar a cruz que carregava. Na visão de Glauber, essa sequência, apresentava-se uma Bahia folclórica, com capoeiristas, mães-de-santo, cantadores de cordel, vendedores de acarajé, que se amontoavam em um ambiente com as cores do exotismo tropical. O filme, ainda, era tachado como uma “obra acadêmica” por parte dos críticos.

 Leonardo Villar em cena de "O Pagador de Promessas", cartaz no SBT em 1988

Quem estrelava o filme era o nosso homenageado de hoje, Leonardo Villar, interpretando o Zé do Burro. Até então, Villar era um ator de teatro, sem qualquer trabalho anterior no cinema ou na televisão. Ainda no elenco nomes como Glória Menezes, Dionízio Azevedo, Norma Benguel, Geraldo Del Rey e Othon Bastos.

Veja que o anúncio do SBT para o filme traz todos esses detalhes, mas com o plus interessante: “sem intervalo comercial”, algo bem ousado para uma TV aberta, ainda mais nos idos de 1988. Era uma forma do SBT demonstrar a seriedade de exibir o produto sem cortes. E na chamada principal: “Assista o filme que deu origem à Série”. Outra vinculação à Globo, destacando que o filme precedia (e em muito, 26 anos de diferença) a série global e objetivando essa comparação, já que o produto da concorrência saiu extremamente comprometido no ar.

Esse, porém, não foi o “debut” de Leonardo Villar no cinema do SBT. Em 21/10/1982, a emissora exibiu, na Sessão Proibida, “A Madona de Cedro” (1968), com direção de Carlos Coimbra, onde Villar vive o protagonista Delfino Montiel, um pacato e religioso comerciante de figuras religiosas esculpidas que se envolve em um roubo de escultura de Aleijadinho.

Leonardo Villar no último capítulo da novela "Os Ossos do Barão", em 1997, no SBT

O único trabalho de Leonardo Villar no SBT como ator de novelas foi em “Os Ossos do Barão” (1997, vídeo acima), onde viveu o personagem Antenor, de 80 anos, filho do Barão de Jaraguá, casado com Melica (Cleide Yáconis), sua maior apoiadora, uma parceria que aconteceu em vários e vários trabalhos no cinema e na TV.

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