Opinião SBTpedia: Antes de apresentador, SBT precisa definir o que quer com Aqui Agora


Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

O assunto nas últimas semanas no SBT é basicamente um só: Aqui Agora. O jornalístico, talvez o mais autoral que a emissora já produziu, pode estar voltando ainda este ano. Para tanto, Silvio Santos teria oferecido um salário espetacular para Datena em quatro anos de contrato, na surdina, mas a negociação acabou não se concretizando. Mas foi por pouco.

Aparentemente continua a caça por um novo apresentador para a atração. Mas antes de discutir essa situação, é importante indagar: que tipo de Aqui Agora, de fato SBT e Silvio Santos querem? Algo que siga seu padrão original da década de 1990 ou algo próximo aos policialescos que invadiram a tela da TV atualmente, com destaque para Cidade Alerta e Brasil Urgente?

Pode não parecer aos olhos dos mais leigos, mas são enormes as diferenças de estilos. A começar pelo formato. O Aqui Agora apostava no jornalismo popular na sua concepção mais completa, trazendo diversas temáticas de um telejornal para a seara popular. Claro, havia espaço para o jornalismo policial, as famosas perseguições e crônicas de Gil Gomes, mas também havia espaço para economia, fofoca, fatos pitorescos, esporte e diversos comentaristas. Não à toa a emissora chegou a produzir, na base da provocação, um anúncio com “SBT produz um Fantástico por dia”.

Outra diferença nítida no formato é sobre o enfoque do formato. O que fazia a diferença em 1991 era o time. De editores até repórteres. O GC criativo e seus trocadilhos, o enfoque diferenciado na notícia e a capacidade de repórteres de se tornarem a cara do produto que defendiam. Em suma, a ideia não era ter “um nome”, mas “vários”. Por outro lado, hoje predomina-se o perfil do âncora popular, como figura de destaque sobrepondo-se muitas vezes à própria notícia na rua. Por isso é tão valorizado um Datena, um Luiz Bacci, um Gottino e no passado o foi um Marcelo Rezende.

Ao assistir um Aqui Agora antigo e um jornalístico policial da atualidade, é nítida a diferença até na questão do estúdio. O Aqui Agora chegou a ter 8/9 pessoas dividindo o mesmo estúdio. Tinha uma bancada principal, uma bancada secundária, o espaço para o lendário locutor Luiz Lopes Corrêa, o Feliz na previsão do tempo e ainda os comentaristas. No policial, segue lá a figura única no máximo, no máximo, com um segundo nome comentando ao lado, como Percival de Souza na Record.

Veja que o perfil do Aqui Agora, embora tenha embasado a criação desses “filhotes”, destoa bastante. Nos últimos dias tenho conversado e procurado ouvir muita gente que trabalhou no jornalístico no passado. São reticentes quando a uma reedição do programa justamente pelo possível enfoque contrário à tradição do jornalístico.

Muitos consideram que o formato do Aqui Agora é caro demais, por justamente envolver tanta gente no produto em si, já que quem brilha mais são as reportagens e não o âncora discursando solitário na TV, no estúdio, por tempo indeterminado. É uma meia verdade. Quem era Celso Russomanno antes do Aqui Agora? Ivo Morganti e Christina Rocha já estavam na casa há muito tempo, mas nunca tinham feito jornalismo nessa linha. Feliz também já tinha feito os telejornais da casa, mas sem grande repercussão até então. Wagner Montes, após O Povo na TV, estava mais como jurado do Show de Calouros que qualquer outra coisa. Gil Gomes tinha uma carreira consolidada no rádio, mas era desconhecido até então na TV. Ou seja, era aposta total em muita gente que procurava um lugar ao sol e se consolidar no veículo.

Veja que sem gastos milionários em busca de um nome no mercado, é possível montar uma equipe de qualidade sintonizada com o perfil do projeto. Ou até mesmo aproveitar quem já está na casa, como Magdalena Bonfiglioli e Simone Queiroz, ambas ex-repórteres da atração.

Outro ponto crucial é a questão do horário. A imprensa vem especulando bastante onde entraria o Aqui Agora, predominando a faixa do “fim de tarde” e “próximo ao meio-dia, para bater de frente com o Balanço Geral”. Para mim é um erro crasso ambas as hipóteses. Não há necessidade se criar um embate com Datena e Bacci, ainda mais se não for seguir o estilo de ter um grande âncora no SBT para competir de igual para igual (afinal, quem sobraria com esse apelo?). Criar essa pressão poderia encurtar bem (novamente, a exemplo de 2008) a história do Aqui Agora, sem o devido prazo para se consolidar, moldar o formato, fazer correções, com a devida calma. Já a faixa do meio-dia é desnecessário bater de frente com a Record com um produto teoricamente caro que iria ao ar quase 100% em horário local (e 100% contra o Balanço Geral), o que prejudicaria questões importantes, sobretudo de faturamento.

A faixa que considero interessante é das 14h15 às 16h30. Totalmente nacional (embora algumas afiliadas ainda tomem a faixa das 14h15 às 15h em determinadas praças, o que daria para corrigir). É uma faixa de transição dentro do Balanço Geral (com entrada da A Hora da Venenosa) e também faixa que pega sem competição com programas policiais em Band e Record. De quebra é uma faixa que hoje o SBT mal consegue 5 pontos de média. A pressão por resultado diante disso é mínima. Conseguindo extrair alguma migração do “BG” às 15h15 e entregar bem, na medida do possível, para o Casos (ou o que viesse às 16h30) já estaria de ótimo tamanho para o início. Sem contar que, ao ser um produto nacional, gera mais apelo para que possíveis alvos aceitem propostas e geraria o menor impacto possível na grade como todo.

Um nome que começou a ganhar força nas últimas horas é o do Geraldo Luís. Caso a emissora aposte na ideia de ter um apresentador conhecido, de fato, pra mim seria uma boa. Está em fim de contrato com a Record e com boas chances de não renovar. Ou seja, viria sem multa e sem poder exigir muito em termos de salário. É conhecido e tem conhecimento de programa popular. Saberia, inclusive, ir às ruas e atuar como repórter para matérias especiais, algumas delas que lembravam até as que Jacinto Figueira Júnior (O Homem do Sapato Branco) costumava fazer para a atração. Talvez fosse um “ganha ganha” para os dois lados se formos pensar.

Caso a emissora aposte no modelo tradicional, talvez nem fosse necessário assim gastar com gente de fora. Uma bancada formada por Márcia Dantas e Darlisson Dutra, dando liberdade para eles também saírem dessa bancada e interagirem com telão e comentaristas, já estaria de ótimo tamanho. Teria que se investir, obviamente, na formação de um time de repórteres, mas que certamente sairia bem mais em conta que os contratos milionários para apenas um nome.

Veja que um Aqui Agora, antes de entrar do ar, precisa primeiro passar por uma análise de que tipo de produto se vai colocar na grade. Que modelo ele seguirá, com que público vai se comunicar e com que concorrência ele encontrará pela frente. Walter Santos, ex-editor de texto do Aqui Agora original é o nome que vem tocando o projeto, pelo que foi divulgado na imprensa. É alguém que conhece os tempos das vacas gordas (nos tempos de Aqui Agora) e também de vacas magras (nos tempos de diretor de jornalismo a partir de 1999, quando implantou o Jornal do SBT do Hermano e o TJ Manhã com Patrícia Pioltini) do SBT. Que ele tenha sabedoria de implantar o produto da melhor forma e que o dono saiba respeitar o tempo, o projeto e, sobretudo, a marca Aqui Agora e sua história. Do contrário, é melhor nem vir.

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