Opinião SBTpedia: O meu gosto pessoal não importa


 Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)

O SBT, naquela pegada de textos redigidos por Silvio Santos, começou a veicular chamadas neste sábado, dia 20 de fevereiro, sobre um novo reality show de confinamento para envolvendo ex-casais que tenham desfeito o enlace nos últimos 2 a 4 anos.

A ideia nem é tão nova assim. Anos atrás, quando Alexandre Frota chegou a responder pela criação da emissora, chegaram a veicular chamadas para um reality desse tipo. Chamava-se “Vivendo com o Inimigo” que teria como prêmio R$ 300 mil. A atração, porém, acabou engavetada e nunca mais se tocou no assunto.

A ideia de que o SBT precisa de um reality de confinamento para chamar de seu começou a ganhar força no ano passado, com o novo boom do BBB na Globo e o crescimento de “A Fazenda” na Record, que muitos atribuem ao excelente desempenho de Marcos Mion no comando. A correlação confinamento espontâneo (de um reality) x confinamento necessário (de uma quarentena de Covid-19) também pode ter contribuído para essa nova grade fase desse tipo de programa.

Desde então até mesmo vozes de dentro do SBT passaram a defender a ideia que o SBT precisa de algo do tipo na grade. Foi o caso, por exemplo, de Patricia Abravanel, ora filha de Silvio Santos. Outra filha e ex-diretora-geral da casa, Daniela Beyruti, respondendo a seguidores no Instagram, disse que não curtia muito o gênero e só havia gostado da primeira edição da Casa dos Artistas.

Eu confesso que não gosto do gênero. Foi legal lá no início dos anos 2000, com as primeiras edições de Casa dos Artistas e Big Brother Brasil, mas aos poucos perdeu o encanto para mim e com o advento das redes sociais, virou uma mina de cancelamento e descancelamento. Mas o nome do artigo deixa claro o que penso sobre TV: meu gosto pessoal não importa. Aparentemente existe uma demanda grande por realities do tipo e não sabemos quando essa fase boa passará novamente ou se irá persistir. E, muito provavelmente, o SBT terá que embarcar se não quiser perder o bonde da vice-liderança de vez. Chega a ser constrangedor – para não dizer coisa de emissora nanica – ver a emissora ter que recorrer a reprises de entrevistas ou matérias desses personagens em realities em outro canal para angariar algum ponteco a mais no IBOPE.

Antes de tudo, para se embarcar numa ideia dessas, é preciso profissionalismo. Reality de confinamento é um produto caro. E fazer mal feito pode (ou deve) ser sinônimo de prejuízo. Quem não se lembra das edições sucessivas da Casa dos Artistas após o sucesso da primeira edição e das mudanças de regras a todo momento depois da edição pioneira, que foi minando a credibilidade e audiência do produto. Para um produto do tipo dar certo é preciso o SBT mudar seu conceito dos últimos anos: valorizar o produto, criar um produto finalmente por temporada, escalar meses do ano certos em que ele entrará no ar, por exemplo entre abril e julho de cada ano, em um período que não coincida com reality do mesmo gênero.

Outro ponto importante é necessário que se exista um formato. De preferência comprado de fora. Como disse o amigo Pedro Nascimento, dizer que o reality será “tipo Big Brother” é quase caso de réu confesso sobre cópia de um produto. Uma coisa é o pioneirismo e ousadia da Casa dos Artistas em 2001, onde o povo não conhecia outro tipo de programa do gênero e tudo aquilo era visto como uma grande inveja da Globo pelo SBT ter arriscado. Hoje um programa levando uma leva de processos no ar, só prejudicaria seu faturamento e possíveis dias fora do ar (como aconteceu com a Casa) só minariam o acompanhamento diário do produto, fundamental. Fora que se comparar a um produto concorrente, “tipo”, só rebaixa o produto, que dá imagem de inferior. Pode até ser que seja mesmo, mas não é o SBT que deve demonstrar isso.

O mais legal de um reality desse porte é a integração de grade que ele pode proporcionar. O “Vem Pra Cá”, outro projeto com possível estreia, poderia ganhar pontos recebendo eliminados no palco ao vivo e promovendo aquela “espiadinha” ao vivo no programa (que inclusive a versão 24 horas poderia ser alvo de comercialização com alguma operadora como foi com a Directv lá início dos anos 2000). Além disso, a TV ZYN, aposta do setor digital da emissora, poderia ampliar seus horizontes, hoje muito restrito a atores infanto-juvenis que passaram pela casa e passar a repercutir, comentar as coisas que acontecem no reality, a exemplo do que a Globo promove, e bem, no Globoplay. Além de tudo, é o tipo de reality que domina as redes sociais e para uma emissora que gosta e se orgulha (com razão) com o número de seguidores nesse aspecto, pode trazer ainda mais gente para turbinar e quem sabe até um público que estava deslocado do SBT atualmente, como foi com a Libertadores.

Eu poderia citar aqui também que seria muito conveniente trazer o Marcos Mion para assumir a atração. Ele foi um dos principais responsáveis pela retomada de “A Fazenda” e se tornou um ótimo vendedor (quando deixou a Record, deixou com o programa já totalmente vendido para a próxima edição). Combinar algo por temporada mais um programa de auditório no sábado seria perfeito para as pretensões do SBT. Fora que seria um nome na necessária renovação de casting que a emissora precisa promover e uma contratação relevante para marcar os 40 anos da casa. Mas depois do episódio da mudança de escalação para o “Vem pra Cá”, as expectativas de que algo do tipo aconteçam é zero.

Repito: o mantra tem que ser responsabilidade no uso do produto, profissionalismo no uso de um formato e credibilidade que o reality gera junto ao público e anunciantes. Que não se repita episódios pitorescos como do “Casamento à Moda Antiga” onde foi dada férias de final de ano para os participantes e ele não terminou e nem as expectativas frustradas do “Vivendo com o Inimigo”. O SBT tem uma identidade grande com entretenimento e um reality de confinamento pode ser uma boa sacudida na programação, que não pode ser refém do gosto pessoal de ninguém, nem meu, nem seu, nem do Silvio Santos. O gosto é do público e quem não se adequa vai para o paredão.

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