Opinião SBTpedia: Esporte no SBT coleciona acertos, mas necessita identidade e base de apoio

 
Por José Eustáquio Lopes de Faria Júnior (@juniorpitangui)
 
Após adquirir a Libertadores (até o final da temporada 2022) e a UEFA Champions League (até a temporada 2023/2024), o SBT está próximo de confirmar a chegada da Copa América 2021 ao seu portfólio de eventos esportivos, todos eles exclusivos em TV aberta. A emissora vem fazendo um bom trabalho de bastidores, aproveitando-se de situações no mercado para se sobressair às concorrentes.

Some-se a isso o fato da emissora estar levando a investida a sério e como de longo prazo, como já declarou o diretor de negócios Fred Müller, buscando realçar a esse mesmo mercado que a emissora chegou para ficar (pelo menos por um bom tempo) no setor. A chegada de Luciano Callegari Júnior para ser o diretor de esportes e eventos esportivos dá mais um “q” de credibilidade à (re)criação da área e é alguém que conhece bem como as coisas funcionam na emissora desde os anos 1990.

Diante de uma retomada tão rápida e com eventos tão relevantes, seria até injusto fazer críticas nesse momento. Mas são necessários alguns cuidados, que talvez não sejam nem tão dispendiosos, que poderiam ajudar nesse processo de solidificação da relação telespectador x emissora no trato com o futebol.

A primeira questão diz respeito à identificação. E aqui é importante dizer que não é identificação do torcedor de time X com um comentarista ex-jogador que tenha jogado pelo clube que está em campo. E sim uma questão de identidade, de um DNA bem claro, de quem vai estar na transmissão do SBT. É necessário a formação de um time fixo de narradores e comentaristas para que haja a formação de hábito, tão importante na rotina do telespectador com uma TV aberta.

Téo José e Luiz Alano, só para ficar na Libertadores, já dividiram a transmissão com “N” ex-jogadores diferentes, a grande maioria (à exceção do Jorginho durante a última temporada) que tivemos alguma identificação com clube. Isso, nos dias de hoje, é absolutamente irrelevante para agregar à transmissão. Fora que como não há um contrato fixo, não se existe nem a expectativa de contar com eles por muito tempo, já que podem virar técnicos (como Jorginho) ou mesmo dirigentes (como aconteceu com Muricy Ramalho no Sportv).

Mauro Beting foi uma boa escolha e agradou. Mauro Cezar Pereira, no ar na última partida de Santos x San Lorenzo, também, e voltará em Vélez x Flamengo na terça-feira. Em comum, dois jornalistas especializados e que possuem identificação com o público que assiste a Champions ou campeonatos internacionais na TV fechada. Seria muito importante contar com ambos, fixos, a partir de agosto. É importante lembrar que lá atrás, quando a Libertadores foi fechada, a Band ainda não tinha fechado com Rafael Oliveira e o SBT perdeu a oportunidade de ter uma das maiores unanimidades do setor hoje em se tratando de futebol europeu.

A obrigação de se ter um ex-jogador na transmissão é irrelevante. Mas se querem apostar em alguém nesse sentido, que seja alguém para ser fixo. Um nome que cito recorrentemente é o do ex-jogador e técnico da Seleção Brasileira, Paulo Roberto Falcão. Nome conhecido por tantos anos de Globo, nome com identificação com Seleção Brasileira (jogou por tal e comentou várias Copas do Mundo) e é, reconhecidamente, um cara de conteúdo. Poderia agregar, por óbvio, nas transmissões da Copa América e tem conhecimento de causa de futebol italiano (o apelido de “Rei de Roma” não é à toa) para o futebol europeu que também está chegando. Sem contar que preenche a cota Fox Sports, que parece tão relevante para acertos ultimamente.

Também é importante inserir logo a figura do comentarista de arbitragem. Em tempos de jogos com VAR e sem VAR, e tantas polêmicas nesse sentido a cada jogo, às vezes a polêmica em si se torna mais interessante em ser discutida que a própria partida. Pelo que se falou na imprensa durante a semana, o nome de Nadine Bastos está sendo cotado, mas existem outras opções interessantes, inclusive da seara feminina. Seria interessante, inclusive, que fosse alguém popular, para agregar também ao conteúdo do Arena SBT.

Falando em Arena, passemos ao outro tópico, que é a questão da base de apoio e nessa questão é fundamental discutir a questão do esportivo diário na grade. Na minha opinião, ele se tornou essencial por três motivos:

a) o programa atualmente está completamente deslocado às 23h45 de uma segunda-feira, sendo que historicamente o público de TV aberta sempre viu debate esportivo na hora do almoço diariamente e preferir acompanhar o conteúdo quente, em cima do lance;

b) o SBT ampliando e diversificando o conteúdo esportivo da grade, com Libertadores, Champions League e provavelmente Copa América, o que necessita de dar visibilidade e badalar esses torneios e sua própria equipe esportiva;

c) reforçar conteúdo com faturamento diário. Nesse tópico é preciso ver o que seria possível fazer para superar a questão do horário local, que hoje toma horas da grade a emissora, em muitos locais de 10h50 às 15h15.

Além da base de programação esportiva diária, é necessário ter um suporte da própria emissora em seu site e redes sociais. Desenvolvimento de ferramentas simples ajudariam nesse processo. Por exemplo, a página da Libertadores no site do SBT se limita a notícias sobre as transmissões e vídeos com gols e melhores momentos das partidas. Não existe uma tabela, classificação atualizada, trechos do Arena falando sobre o torneio, colunas, blogs ou podcasts de comentaristas sobre os clubes ou comentários sobre futebol geral.

No caso da tabela parece uma coisa boba, mas não tendo ela no site do SBT, detentor dos direitos sobre a competição, onde a pessoa poderá recorrer? Ao site do Globo Esporte. É preciso criar uma cultura esportiva para o telespectador consumir conteúdo esportivo na emissora e iniciativas básicas como essa precisam ser a pedra fundamental.

Outro exemplo de erro crasso foi, por exemplo, não ter derrubado desenhos do Bom Dia & Cia, em 30, 40 minutos, para exibir o sorteio da fase de grupos da competição. Sem passar no SBT (que se limitou a um boletim), onde o público poderia ver? No seu principal concorrente, Fox Sports. Bobo não foi o SBT Rio, que fez valer o direito, e passou tudo para dar respaldo os tricolores e rubro-negros de plantão. É preciso entender que esporte, por não ser uma novela, com continuidade todo dia, sempre acontecerá situações, previstas ou não, em que será necessário derrubar a grade habitual e o SBT precisará estar disposto a isso.

Uma ferramenta que poderia ser desenvolvida e ajudaria nesse processo de criar um engajamento e base esportiva, é a criação de perfis em redes sociais “SBT Esporte”, à exemplo do que a emissora já teve (e abandonou) do SBT Filmes e SBT Séries e ainda mantém ativo SBT Novelas. Um perfil para juntar todo o conteúdo esportivo da emissora e repercutir transmissões, em Twitter, Instagram, Facebook e demais redes sociais. Seria interessante, inclusive, que esse perfil “comunicasse” com boletins espalhados pela grade com conteúdo esportivo, como existiu no passado o “Notícias do Esporte” e era comandado por jornalistas com ligação ou que integravam o setor. Os repórteres André Galvão e Fernanda Arantes, além de outros da área poderiam se revezar no comando e eventualmente até ter a participação de algum comentarista da emissora, em determinada questão factual, como após um jogo relevante (que não foi transmitido) ou na queda de algum técnico.

Em suma, o SBT vive um momento especial com a volta do investimento no esporte e, talvez, essa seja a grande vitrine da emissora ao se lembrar dos seus 40 anos a serem comemorados em agosto de 2021. Mas é importante que a emissora se esforce em questões mais básicas possíveis para criar uma cultura esportiva na grade para que daqui 10 anos, nos 50 anos do canal, o setor ainda esteja pujante e entregando muitos resultados expressivos e não uma mera lembrança de uma fase saudosa, como aconteceu na década de 1990.

# Parceiros


#Facebook: SBTpedia

#Twitter